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Monogamia: estudo compara humanos com outros animais – 11/12/2025 – Ciência

Quão monogâmicos são os humanos? Essa é uma dúvida antiga e sujeita a intensos debates. Um professor da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, sugere uma resposta: em algum lugar entre castores e suricatas.

Ele é autor de um estudo publicado nesta quarta (10) no periódico Proceedings of the Royal Society: Biological Science. O artigo compara os seres humanos em relação a outros mamíferos.

Mark Dyble, professor assistente de antropologia evolutiva em Cambridge, disse que adotou uma abordagem “teoricamente relevante, mas relativamente negligenciada” de análise de dados genéticos para determinar a proporção de irmãos bilaterais (têm o mesmo pai e a mesma mãe) e de meios-irmãos em uma população para determinar quão monogâmica ela é.

Embora os resultados tenham apontado considerável variedade entre as sociedades humanas, eles dão peso, de modo geral, à ideia de que o acasalamento monogâmico é uma característica central que nos ajudou a estabelecer os grupos “cruciais para nosso sucesso como espécie”, escreveu o professor.

O estudo utilizou dados preexistentes de 103 sociedades humanas e de 34 espécies de outros mamíferos para gerar uma tabela comparando a porcentagem de irmãos bilaterais em uma população.

No topo ficou o camundongo Peromyscus californicus, uma pequena criatura que forma vínculos de casal para toda a vida, com uma taxa de 100% de irmãos bilaterais. Em seguida, vêm o cão-selvagem Lycaon pictus (85%) e o rato-toupeira Fukomys damarensis (79,5%).

Os humanos ocuparam o sétimo lugar, com 66% de irmãos bilaterais, um pouco menos monogâmicos que o castor-europeu (Castor fiber), mas mais monogâmicos que o gibão-de-mãos-brancas (Hylobates lar), o suricato (Suricata suricatta) e o lobo-cinzento (Canis lupus).

O menos monogâmico da lista foi uma espécie de ovelha que vive na Escócia e tinha 0,6% de irmãos dos mesmos pais.

Primatas como gorilas e chimpanzés também vivem em sociedades muito menos monogâmicas. Outros mamíferos nas posições inferiores incluem três tipos de macacos, o urso-negro e o lobo-marinho-antártico.

A extensão em que os humanos são monogâmicos e têm sido ao longo de sua história evolutiva é objeto de debate e fascínio.

Evidências de aves, mamíferos e insetos sugerem que a transição para sociedades cooperativas é mais provável de ocorrer em espécies monogâmicas, já que as famílias são vistas como mais propensas a cuidar dos seus membros.

Alguns sociólogos argumentam que os humanos não são destinados a ser monogâmicos. Outros pesquisadores afirmam que a monogamia social —formar um par para cuidar de uma criança— tem sido relevante na evolução humana. O papel das avós e o cuidado paterno também são citados como forças influentes na evolução dos humanos.

“Quando olhamos para espécies altamente cooperativas entre aves, mamíferos e insetos, a hipótese principal é chamada de hipótese da monogamia, em que as transições para sociedades supercooperativas foram precedidas pela evolução do acasalamento monogâmico”, disse Dyble em entrevista na última terça (9). “As implicações evolutivas não são necessariamente sempre sobre a monogamia em si, mas sobre a estabilidade do vínculo do par em termos de formar relacionamentos reprodutivos de longo prazo.”

Dyble afirmou que estava interessado em comparar humanos com mamíferos além de chimpanzés e gorilas, nossos ancestrais mais próximos, porque disse acreditar ser uma área fundamental para a evolução humana, porém negligenciada.

Trabalhos anteriores sobre o papel da monogamia na sociedade humana dependiam de registros fósseis ou comparação de normas matrimoniais entre culturas, segundo Dyble. Sua pesquisa baseou-se em dados de populações humanas e de outras espécies de mamíferos para encontrar taxas de irmãos nascidos da mesma mãe e pai.

Para a amostra humana, ele recorreu a dados arqueológicos ou etnográficos de várias sociedades, incluindo cemitérios da Idade do Bronze e assentamentos neolíticos. Para os demais mamíferos, ele fez uma revisão de dados científicos existentes.



A evolução da monogamia nos humanos provavelmente ocorreu por meio de uma trajetória bastante diferente em comparação com qualquer uma dessas outras espécies

A análise de quase 2 milhões de relações entre irmãos humanos e de mais de 60 mil relações entre outros mamíferos mostrou que a proporção de irmãos dos mesmos pais nos grupos humanos “se agrupa estreitamente” com taxas observadas em animais socialmente monogâmicos e “consistentemente excede as taxas observadas em mamíferos não monogâmicos”, escreveu Dyble.

Ele disse que os dados mostraram uma diferença marcante entre grupos considerados socialmente monogâmicos e não monogâmicos, com base em definições de um estudo de 2013 conduzido por pesquisadores de Cambridge.

“Algumas pessoas pensam que os humanos são uma espécie muito monogâmica, e talvez se surpreendam ao ver quanta variação existe. Já outras partem da ideia de que não somos uma espécie muito monogâmica, mas, na verdade, os dados sugerem que somos”, disse Dyble.

Dyble afirmou que as limitações do estudo incluem o fato de que alguns dos dados humanos são coletados por meio de autorrelato em vez de análise genética, o que significa que poderia haver suposições equivocadas sobre a paternidade —embora ele tenha dito que isso não seria significativo o suficiente para mudar os resultados gerais. Ele acrescentou que também gostaria de usar dados genéticos baseados em populações modernas como ponto de comparação.

Na avalição de Dyble, os resultados levantam mais questões sobre como a monogamia social entre humanos evoluiu, uma vez que os mamíferos com as taxas mais semelhantes de monogamia —a exemplo dos suricatos— são diferentes dos humanos, pois têm um par reprodutor dentro de um grupo, em vez de múltiplos machos e fêmeas se reproduzindo.

“Isso sugere que a evolução da monogamia nos humanos provavelmente ocorreu por meio de uma trajetória bastante diferente em comparação com qualquer uma dessas outras espécies”, disse ele. “Para os humanos terem feito isso é algo bastante incomum, e é bem pouco claro como e por quê.”

Julia Schroeder, professora associada em evolução, comportamento e biodiversidade no Imperial College de Londres, que não esteve envolvida no estudo, considerou não ser surpreendente que os humanos fiquem mais próximos do extremo monogâmico analisado. Porém, segundo a docente, “qualquer classificação binária sempre será uma simplificação excessiva da variação que observamos”.

Kit Opie, professor sênior de antropologia evolutiva na Universidade de Bristol que também não estava ligado à pesquisa, afirmou não ter se impressionado com os resultados e considerou um erro comparar humanos a outros mamíferos em vez de fazer isso em relação a nossos ancestrais primatas.

“A questão não é se os humanos são monogâmicos. Sabemos que eles têm sido pelos últimos 200 mil anos, isso é bastante claro”, disse a docente. “A questão é por que são monogâmicos, e o artigo não aborda isso de forma alguma.”

Fonte: Link da fonte

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