Uruk, a primeira metrópole do mundo e o berço da linguagem escrita, foi nutrida pelo rio Eufrates, assim como Babilônia, cidade da antiga Mesopotâmia. A planície fértil entre o rio e seu curso d’água companheiro, o Tigre, foi um dos berços da civilização humana.
Em um novo estudo, publicado no começo deste mês na revista Nature Geoscience, pesquisadores apresentaram sua hipótese para a origem do Eufrates. O rio, segundo eles, surgiu entre 3,6 milhões e 1,6 milhão de anos atrás, quando dois sistemas fluviais se fundiram devido à atividade tectônica nas montanhas Taurus, na parte sul da atual Turquia.
Mais longo rio do sudoeste asiático, o Eufrates estende-se por cerca de 2.800 quilômetros, originando-se na Turquia e fluindo através da Síria e do Iraque antes de desaguar no golfo Pérsico. Cidades atuais às suas margens incluem a turca Birecik, a síria Raqqa e as iraquianas Ramadi, Fallujah e Nasiriyah.
Os pesquisadores afirmaram que decifrar a história do rio era importante para compreender os marcos da cultura humana na agricultura, na escrita e no desenvolvimento urbano.
Geólogos que utilizavam dados sísmicos de subsuperfície enquanto tentavam identificar possíveis reservas de gás sob o Mediterrâneo detectaram características semelhantes a canais soterrados que datam de mais de 5 milhões de anos atrás, quando grandes partes do mar haviam secado, um evento chamado crise de salinidade do Messiniano.
Eles determinaram que dois rios separados —predecessores dos atuais rios Karasu e Murat, na Turquia— fluíam por uma região que abrangia a Turquia e a Síria e desaguavam na bacia do Mediterrâneo.
Os cientistas dizem acreditar que a atividade tectônica nessa região propensa a terremotos fez com que o predecessor do Murat se desviasse em direção ao golfo, com o predecessor do Karasu se juntando a ele posteriormente. Isso, segundo eles, formou um poderoso sistema fluvial único que se tornou o Eufrates.
Uma ferramenta fundamental adotada pelos cientistas foi o imageamento sísmico, criando mapas detalhados em duas e três dimensões do subsolo terrestre a partir de ondas sonoras que viajam e refletem nas camadas de rocha subterrâneas. Foi por meio dessa técnica que detectaram as características de antigos canais fluviais escondidos sob o leito marinho.
“Essa tecnologia é o equivalente a usar ultrassom para visualizar detalhes de um bebê em desenvolvimento ou de um joelho com artrite, mas nesse caso a utilizamos para observar cascalhos, areias, lama, calcário e sal soterrados que foram compactados e transformados em rocha”, afirmou o geocientista Simon Lang, da Universidade da Austrália Ocidental, um dos autores do estudo.
Por meio da modelagem das características subterrâneas, os cientistas determinaram que esses dois rios antigos tinham vazões superiores às do Nilo e do Tigre-Eufrates atuais.
Foi possível rastrear os dois rios antigos até a porção continental da Turquia. Ao examinarem dados geológicos de sedimentos em vales e depósitos de carvão agora elevados nas montanhas Taurus, os pesquisadores determinaram que os atuais rios Karasu e Murat eram provavelmente as fontes originais desses canais soterrados.
“Mas, de alguma forma, eles foram cortados de seus trechos inferiores do vale a oeste e se uniram para formar o que hoje é o moderno rio Eufrates. Essa ‘alguma forma’ foi a atividade tectônica no leste da Anatólia”, afirmou Lang.
“Hoje, as águas ao longo do Eufrates e do Tigre se encontram perto de Basra para formar um enorme delta na cabeceira do golfo Pérsico. Elas preencheram uma grande área da planície da Mesopotâmia, onde a agricultura primitiva se desenvolveu, incluindo as primeiras cidades-Estado e o desenvolvimento da escrita cuneiforme, tão vital para o desenvolvimento humano inicial”, acrescentou o geocientista.
O fluxo até mesmo dos rios mais poderosos pode ser alterado por eventos geológicos.
“O maior rio do planeta, o Amazonas, costumava fluir para oeste, em direção às atuais Colômbia e Peru, rumo à sua costa deltaica do paleo-Pacífico, antes da elevação dos Andes. À medida que os Andes cresceram com enormes soerguimentos, todos os antigos distributários inverteram sua direção ao longo de milhões de anos, e agora o Amazonas deságua no Atlântico”, explicou Lang.
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