O acidente aconteceu em Pittsburgh (EUA) no dia 16 de novembro. Joseph Masterson, advogado que estava a poucos dias de se aposentar aos 63 anos, sofreu uma parada cardíaca enquanto dirigia, bateu em uma mureta de proteção e perdeu a consciência.
Outros motoristas pararam, quebraram a janela do carro e o puxaram para um local seguro. Um bombeiro voluntário que passava pelo local fez RCP (Ressuscitação Cardiopulmonar) até que uma ambulância chegasse para levar Masterson ao hospital.
Ele passou 18 dias na UTI (unidade de terapia intensiva) do hospital, 14 deles em um ventilador mecânico. Desenvolveu delirium, uma condição comum em UTIs, e precisou de medicamentos antipsicóticos. Apesar da sonda de alimentação, perdeu peso. “Sinceramente, não estávamos confiantes de que ele sobreviveria”, diz Ron Dedes, seu cunhado.
Mas ele sobreviveu. Masterson recebeu alta em 1º de fevereiro e voltou para casa com apoio familiar quase constante. Trabalhando com vários tipos de terapeutas, ele recuperou a capacidade de andar e de cuidar de sua higiene pessoal. Sua fala, antes confusa, melhorou significativamente. Ele consegue fazer um sanduíche para si mesmo.
Agora, “nossa maior preocupação é a memória dele”, diz sua irmã, Patti Dedes. Masterson, que até pouco tempo lidava com questões jurídicas complexas, esquece conversas e eventos que aconteceram poucas horas antes. Ele ainda não consegue usar um microondas ou fazer uma ligação telefônica.
Em uma entrevista, ele se descreveu, com precisão, como “muito, muito melhor do que eu estava”, mas errou sua própria idade. Testes de triagem após sua alta indicaram comprometimento cognitivo e depressão.
Entre os médicos intensivistas, sintomas prolongados como os dele são conhecidos como “síndrome pós-terapia intensiva”, ou SPTI. As consequências podem ser físicas ou psicológicas, além de cognitivas, e podem persistir por meses ou anos.
Mais de 5 milhões de pessoas são admitidas anualmente em UTIs em cerca de 5.000 hospitais americanos, e pesquisas mostram que mais da metade experimenta tais efeitos posteriores. A idade avançada aumenta as chances.
Pacientes e famílias frequentemente ficam surpresos com essas dificuldades contínuas. “A crença é que eles receberão alta do hospital e em duas ou três semanas estarão de volta ao normal”, afirma Brad Butcher, que foi médico de Masterson e escreveu sobre SPTI recentemente na revista médica Jama. “Isso não corresponde à realidade.”
Na verdade, com o maior uso de UTIs e tratamentos aprimorados —a Sociedade de Medicina Intensiva estima que 70% a 90% dos adultos agora sobrevivem à internação—, a população propensa a desenvolver a síndrome está crescendo.
“Todos ficam gratos que o paciente sobreviveu”, diz Lauren Ferrante, médica pneumologista intensivista e pesquisadora da Escola de Medicina de Yale. “Mas isso é apenas o início de um longo caminho para a recuperação.”
Em um estudo de 2016 com pacientes acima de 70 anos do qual ela foi coautora, seis meses após a alta, apenas cerca de metade havia retornado à capacidade funcional anterior à UTI.
Pacientes de terapia intensiva enfrentam uma longa lista de desafios. Os sintomas da SPTI variam desde os físicos, como fraqueza, dor, neuropatia (formigamento nos braços e pernas) e desnutrição, até preocupações de saúde mental, principalmente ansiedade e depressão. Dificuldades cognitivas como as de Masterson são comuns, incluindo problemas com memória, atenção, concentração e linguagem.
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“Para muitas pessoas, sobreviver a uma doença crítica é uma experiência que muda a vida”, afirma Butcher. Pacientes em terapia intensiva após cirurgias de emergência ou eletivas também apresentam altas taxas de novos problemas físicos, mentais e cognitivos um ano depois.
Os mesmos tratamentos agressivos que salvam vidas contribuem para a síndrome. Pacientes de terapia intensiva “têm algum tipo de falência orgânica dramática que requer atenção imediata” e monitoramento constante, explica Carla Sevin, médica pneumologista intensivista que dirige o Centro de Recuperação de UTI no Centro Médico da Universidade Vanderbilt.
Isso pode significar um tubo de respiração conectado a um ventilador, que por sua vez frequentemente requer medicamentos sedativos. A sedação “pode precipitar delirium, e o delirium é o fator-chave nos sintomas cognitivos”, afirma Butcher.
Psicologicamente, “o transtorno de estresse pós-traumático é bastante comum, semelhante ao que é visto em veteranos de combate ou sobreviventes de agressão sexual”, diz Sevin. As famílias podem sofrer ansiedade e depressão junto com os pacientes.
Alarmados por tais descobertas, médicos e administradores de cerca de 35 hospitais americanos estabeleceram clínicas pós-UTI, onde equipes de médicos, enfermeiros, farmacêuticos, terapeutas (físicos, ocupacionais, cognitivos, fonoaudiólogos) e assistentes sociais fazem triagem para uma série de condições e ajudam a orientar os pacientes através delas.
A clínica de Vanderbilt atendeu seu primeiro paciente em 2012. O Centro de Recuperação de Doenças Críticas do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, que Butcher fundou em 2018, trabalha com cerca de 100 pacientes por ano, incluindo Masterson. Yale abriu sua clínica em 2022.
Elas se baseiam em seis práticas recomendadas pela Sociedade de Medicina Intensiva que comprovadamente reduzem significativamente os sintomas pós-UTI. As medidas pedem mudanças como usar sedação mais leve, fazer os pacientes se levantarem e se moverem mais cedo, testar sua respiração diariamente para desmamá-los dos ventiladores mais rapidamente e remover restrições às visitas familiares.
As clínicas frequentemente oferecem grupos de apoio para pacientes e famílias. Há algumas evidências de que manter um diário de UTI, no qual pacientes e cuidadores registram suas experiências, e participar de exercícios e reabilitação física melhoram a saúde mental após a alta.
Também na agenda das clínicas: discussões sobre quais outras opções os pacientes prefeririam se enfrentassem outra doença crítica, como muitos enfrentam. Eles concordariam em passar por terapia intensiva e arriscar seus efeitos posteriores novamente? Ou escolheriam cuidados paliativos, com sua ênfase no conforto em vez da cura? Alguns pacientes de terapia intensiva permanecem debilitados.
Embora tenha dito que o uso das novas práticas precisava se expandir dramaticamente, Butcher soou otimista sobre o futuro da medicina intensiva. “Vamos encontrar melhores ferramentas de diagnóstico, melhores estratégias preventivas e melhores terapias”, diz.
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