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Data centers disputam rede elétrica com indústrias – 20/06/2026 – Economia

Existe um número recorde de pedidos para conectar grandes consumidores à rede de transmissão de eletricidade brasileira, o chamado grid, que transporta energia das usinas para os centros de consumo. A depender do lugar, a conexão deve ocorrer só depois de 2030, indicam dados públicos e relatos de empresas.

Nos pontos em que a demanda supera a capacidade de atendimento, as empresas terão de passar por um processo competitivo criado pelo governo federal em dezembro do ano passado. Quem oferecer o maior bônus financeiro por cada quilowatt (kW) de capacidade de conexão disponível receberá o direito de se conectar à rede. Como base de comparação, uma ducha elétrica tem potência instalada em torno de 5 kW, enquanto os projetos em discussão têm centenas de milhares de kW.

O sistema gera receio na indústria de base, que agora terá que competir diretamente com os data centers por espaço no grid, de acordo com a Abrace (Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia). Essa associação reúne 59 grupos empresariais responsáveis por 40% do consumo de energia elétrica do país.

Segundo a entidade, não falta energia no país —o gargalo está na infraestrutura de transmissão em São Paulo e no Nordeste, principalmente nos arredores do porto de Pecém, próximo a Fortaleza.

De acordo com o MME (Ministério de Minas e Energia), o governo já planejou obras para abrir cerca de 8 GW (gigawatts, 1.000.000 de kW) de margem para conexão de novos consumidores, com destaque para as regiões da capital paulista e de Campinas. “A maior parte dos reforços já está outorgada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel)”, diz a pasta.

Ainda segundo o ministério, a região metropolitana de São Paulo tem histórico de operação com elevada utilização da transmissão. “O crescimento acelerado das solicitações de acesso associadas a data centers intensificou essa pressão sobre a infraestrutura existente.”

Em 5 de dezembro, o MME também editou uma portaria para extinguir a antiga fila por ordem cronológica para dar lugar às chamadas “temporadas de acesso”, um sistema que funciona como leilão. A norma também transferiu ao ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) os 94 pedidos de acesso que aguardavam análise no ministério.

Segundo o ONS, 39 desses protocolos foram formalizados. Hoje, o ONS analisa 61 pedidos de conexão direta à rede básica, comuns no caso de grandes consumidores, considerando os requerimentos de aumento de carga. Dos 61 pedidos em análise, 38 são de data centers.

Há ainda outras solicitações que entrarão na primeira temporada de acesso, cujas inscrições se encerraram na segunda-feira (15). Procurado, o ONS não disse quantas empresas se cadastraram na concorrência.

Apenas o volume já em análise supera a soma dos pedidos de 2022, 2023 e 2024 e se aproxima do recorde registrado em 2025, que teve 107 solicitações.

Embora membros da Abrace considerem o mecanismo de análise do ONS conservador, o professor de engenharia elétrica da USP (Universidade de São Paulo) Rogério Andrade Flauzino explica que a avaliação envolve critérios estritos de física.

São analisados fatores como a disponibilidade física nas subestações para conectar novos consumidores. Se a potência injetada ou puxada ultrapassar os limites, o sistema pode superaquecer nos momentos de pico ou sofrer curtos-circuitos nas horas de carga mínima.

“Temos indústrias com consumo entre 30 MW [megawatts, 1.000 kW] e 50 MW que pedem expansões de 5% e não sabem se serão atendidas. É uma competição desproporcional com esses complexos de tratamento de dados, que solicitam 200 MW ou 300 MW de uma única vez”, diz Victor Iocca, diretor de energia elétrica da Abrace.

Segundo as regras do ONS, não haverá distinção na análise entre novos pedidos de conexão e pedidos de expansão de carga para quem já está conectado.

“Em um ciclo industrial, as empresas planejam suas expansões com três ou quatro anos de antecedência. Agora, correm o risco de ver esse investimento restrito, o que prejudica a geração de empregos e o crescimento econômico”, afirma Iocca.

O ONS deve anunciar o desfecho dos leilões até outubro, conforme cronograma publicado no último dia 9.

A primeira temporada definirá quais consumidores terão direito de interligação nos anos de 2027, 2028 e 2029. Na lista de concorrentes estão gigantes da tecnologia, como Scala e Microsoft, e empresas da indústria de base, como a fabricante de PVC Unipar e a siderúrgica Gerdau.

No dia 31 de agosto, o ONS e a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) divulgarão um relatório com as margens específicas de cada ponto de conexão. Um painel interativo do operador já indica que as localidades próximas ao porto de Pecém terão margem zero até 2031.

A região metropolitana de São Paulo também apresenta pontos com indisponibilidade até 2030, quando as novas obras planejadas para a região devem melhorar o cenário.

Mesmo o entorno de Campinas (SP), que se tornou um polo de data centers com instalações de Microsoft, Ascenty e Odata, está com capacidade apertada. No ano passado, o ONS negou 25 pedidos de ligação feitos por esses complexos de tratamento de dados no estado de São Paulo.

Foram cinco negativas em Sumaré, três em Cabreúva, três em Jundiaí, três em Paulínia, duas em Santa Bárbara d’Oeste, duas em Campinas e quatro na região metropolitana da capital paulista.

“As temporadas de acesso permitirão que o ONS planeje e entenda as demandas estimadas em um horizonte de até cinco anos”, diz a advogada Ana Karina de Souza, especialista em infraestrutura e energia do escritório Machado Meyer.

Nas áreas onde a capacidade de transmissão for maior que a demanda, o ONS avaliará apenas a viabilidade técnica. Onde houver disputa pelo mesmo espaço, haverá o leilão, caso não ocorram desistências voluntárias. Como o Brasil tem excedente de geração de energia, os consumidores têm prioridade de conexão frente aos geradores. O critério de desempate será o maior ágio pago no certame.

Para a advogada, o novo formato busca trazer mais eficiência e transparência à tramitação. “O processo de acesso à rede básica em muitos países pode durar de 5 a 10 anos”, afirma.

O formato foi bem recebido pelo setor de tecnologia, cujo consumo de energia está ligado ao desenvolvimento e uso dos modelos recentes de inteligência artificial. “É uma evolução positiva, que protege os projetos sérios”, diz Alessandro Lombardi, presidente da empresa de data centers Elea Digital.

A associação de empresas de tecnologia Brasscom informou em nota que não dispõe de dados consolidados sobre a fila de espera no Brasil e que “a situação depende muito das especificações e da localidade de cada projeto”.

O planejamento do setor elétrico prevê inserção de cargas intensas (data centers e produção de hidrogênio de baixa emissão de carbono) no Nordeste, com potencial de adicionar cerca de 4 GW (gigawatts) de capacidade de conexão na região até 2040. Para o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, há estudos em andamento com perspectiva de conclusão em 2026 e 2027, respectivamente.

Além dos data centers, a lista de pedidos de acesso inclui indústrias como GM, Unipar, Gerdau, LHG Mining (controlada pela J&F), Companhia Siderúrgica Vale do Paraíba, Castertech, Centaurus e Riograndense. Procuradas, as empresas não quiseram comentar e parte indicou a Abrace como porta-voz.

“A indústria de base já instalada não tem como se mudar para uma região onde haja sobra de rede”, diz Iocca, da Abrace. “Além disso, são setores consolidados que não dispõem do mesmo volume de capital imediato que os grandes data centers.”

A associação defende que haja uma reserva de mercado: até 10% da capacidade da rede deveria ser destinada a empresas que já operam no país e geram empregos locais, argumentando que um data center emprega menos mão de obra direta por MW consumido do que as fábricas tradicionais.

O diretor da Abrace lembra que a mudança nas regras foi motivada pela explosão de novas cargas. Ele se refere ao movimento de investimentos em empreendimentos de alto consumo energético, como os data centers e as futuras plantas de hidrogênio verde.

COMO FUNCIONA O ACESSO À REDE ELÉTRICA

Como era

  • Grandes consumidores solicitavam o acesso e eram atendidos por ordem cronológica na fila.
  • A análise do caso pelo ONS dependia da publicação prévia de uma portaria pelo Ministério de Minas e Energia

Como ficou

  • O novo decreto dispensou a necessidade de portaria ministerial prévia para cada caso. O consumidor aciona diretamente o ONS
  • Os pedidos são analisados em blocos em períodos específicos. A primeira rodada ocorre em outubro e definirá o acesso para os anos de 2027, 2028 e 2029
  • Onde houver mais pedidos do que capacidade física na rede, haverá disputa baseada em quem oferecer o maior bônus financeiro pela capacidade de conexão (kW)
  • O atendimento a consumidores de energia tem prioridade regulatória sobre os pedidos de conexão de novos geradores (usinas)
  • Após o leilão, os solicitantes deverão apresentar garantias de contratação, como a indicação de um fiador, e estudos técnicos necessários nas fases seguintes do processo

Cronograma da disputa atual

  • 30 de junho: Divulgação dos candidatos admitidos pelo ONS
  • 31 de agosto: ONS e EPE publicam relatório com as margens técnicas de sobra em cada ponto da rede
  • 4 a 11 de setembro: Prazo para empresas desistirem dos pedidos sem penalidades
  • 16 de setembro: Divulgação da lista final de habilitados
  • 2 de outubro: Início do processo competitivo (leilão em plataforma eletrônica) nos pontos onde houver saturação

Fonte: Link da fonte

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