Baterista e um dos fundadores da lendária banda brasileira de rock Legião Urbana, Marcelo Bonfá, 61 anos, construiu uma trajetória que vai além do instrumento que o consagrou. Ao longo das últimas décadas, desenvolveu uma carreira solo marcada pela experimentação musical, compondo, cantando e explorando diferentes sonoridades, além de manter vivo o legado da banda. Em seu livro biográfico Minha banda preferida de todos os tempos, escrito e desenhado em quadrinhos por ele mesmo, Bonfá amplia essa faceta artística ao compartilhar memórias, reflexões e bastidores de uma vida dedicada à música, oferecendo ao leitor um retrato íntimo de sua formação criativa e da relação com a arte. Em entrevista ao programa semanal da coluna GENTE (disponível no canal VEJA+ no Youtube, no streaming da TV Samsung Plus, LG, TCL e Roku; além da versão podcast no Spotify), ele fala sobre música, lembranças e política. Assista.
MEMÓRIAS EM QUADRINHOS. “Tem muitas histórias, claro, que não estão ali, mas tive tempo de elaborar o projeto. Sei que é meio ousado. História em quadrinhos é uma coisa complexa, porque tem que ter continuidade, criar um personagem, por mais que seja eu, tive que saber como vou fazer meu cabelo aos 12 anos, por exemplo. Queria que fosse um livro poético. E a capa remete à música, essa coisa do vinil no projeto gráfico”.
ANTES DA INTERNET. “A Legião começou comigo e com Renato, eu era muito fã do Aborto Elétrico, de onde ele vinha. A gente começou em 1982, mas, desde o final dos anos 1970, já tinha uma turma de adolescentes fazendo música em Brasília no contexto da cena punk rock do mundo. Não tinha internet, telefone… Nossos amigos, o próprio Renato tinha morado em Nova York, dava aula de inglês, os amigos traziam discos da Inglaterra. Era assim que a gente teve acesso ao que se fazia fora. Esse movimento se espalhou em todas as capitais, era um movimento juvenil, de fato”.
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FORMAÇÃO DA BANDA. “Renato era um cara especial, escrevia muito bem, tinha uma visão única, em função da família, era intelectual, sensível, tinha uma voz legal. E é um contexto especial da arte, da música, do Brasil e do mundo, com uma população muito jovem, querendo, precisando ter uma voz que a representasse. Os anos 1980 tiveram várias gerações, vários estilos, e a gente era a banda mais rock and roll, sabe? Quando a gente se juntou, Renato me chamou e falou: ‘vamos montar uma banda estilo baixo e bateria. Mas aí as coisas foram mudando, porque já chamaram a gente para tocar em um lugar grande, a gente ficou inseguro. Aí a gente convidou um guitarrista, veio tecladista e as coisas foram se transformando”.
DEFININDO RENATO RUSSO. “Era um cara muito complexo, legal, meu amigo, meu irmão mais velho, a gente sempre falava que ele era um irmão mais velho, respeitoso, inteligente, sempre dando toques legais indireta ou diretamente. Levava as coisas muito a sério, a vida muito a sério, e ao mesmo tempo divertido, engraçado, maluco, como todos nós, naturalmente. É difícil falar uma coisa só do Renato”.
CENA POLÍTICA. “Nunca fui politizado, sempre fui mais introspectivo e ligado na coisa do relacionamento humano. Fico ligado na coisa do relacionamento, que me instiga mais. O fato de ser uma pessoa pública e lidar com o público no palco, tenho um acesso diferente às pessoas. Em todo caso, a Legião sempre esteve entre dois pilares bem sustentados, que é a questão do sentimento, do amor, da poesia nua e crua de relação, e a questão política. É até difícil a gente falar do que está acontecendo hoje em dia, sem ser pessimista. E eu tento ser otimista em todos os sentidos. (…) Acho que as pessoas não devem se espelhar na opinião dos outros para escolher candidato”.
DIREITA OU ESQUERDA. “Tenho minha posição política, mas ela não é nem um nem outra, é uma mistura. Lá em Brasília, quando era adolescente, o Renato brincava que a gente era democracia da sensibilidade. A gente tinha 14 anos. (…) Acho que quando você faz uma (escolha de não falar em quem votar), dizem: ‘Ah, está em cima do muro’. Falo: ‘Cara, e daí?’. Só porque sou artista, tenho que ser formador de opinião? Tenho que ser um formador de opinião em outras coisas, coisas, sei lá, mais nobres, entende? ‘Ah, fulano vai votar em fulano, vou votar também’. Não, ninguém conhece ninguém”.
QUE PAÍS É ESSE. “Cara, essa música nunca foi partidária, nem de direita, nem de esquerda. A gente fala de um contexto que serve para os dois. E usam isso inevitavelmente, mas não estou nem aí (sobre ser usada pela direita). Estou nem aí. Pode fazer o que quiser, quem tiver a sensibilidade de perceber, e muita gente tem, percebe sobre o que ela fala. Para mim tanto faz. Agora, acho que é uma música jovem, é das pessoas do Brasil, do brasileiro, de todo mundo. E quem está lá dentro canta e quem está fora canta, uma música que continua atual, infelizmente, e isso é assustador”.
LULA X BOLSONARO. “Ouvi muita atrocidade vindo do Bolsonaro e do partido daquelas pessoas. Atacou todas as minorias. Nunca vi Lula falar isso. Só acho que politicamente estão todos com desafios, tem muitos desafios na política em si, seja para quem for”.
BRIGA NA TURNÊ. “A gente sempre se unia na hora de trabalhar e depois cada um tinha uma vida bem diferente. A gente nunca saía junto, acho que é por isso que a banda durou, inclusive. Depois que a Legião Urbana acabou em 1996, muita coisa aconteceu, e a gente só veio a se reunir nos anos 2000. Foi uma turnê grande, convivendo com uma coisa que não era Legião. Era eu e o Dado tocando nossas músicas, com músicos escolhidos por nós. Foi um desgaste, até porque a gente tinha visão diferente do que era para ser isso, sabe? Foi problemático, porque esta turnê começou como um projeto entre ele, a mulher dele, que representava mais ele e era nossa empresária, e eu. No meio do caminho ficou complicado. Eles estavam mais próximos, ficou difícil eu colocar minha ideia para duas pessoas. A coisa desequilibrou”.
INCOMPATIBILIDADES IDEOLÓGICAS. “Teve um show no Rock in Rio, que, ainda durante os ensaios, falei que iria cantar. Foi quando Dado falou: ‘Mas Bonfá, você não cantava na Legião Urbana’. Aí o Tony Platão retrucou: ‘Nem eu, Dado. E eu vou cantar com vocês’. Aí eu peitei a parada e fui durante dez anos nessa turnê, nesse clima, entende? O público gostava que eu cantasse, os fãs da Legião me apoiavam, a crítica me apoiava. Quando acabou o show, a primeira coisa que ele (Dado) falou: ‘Poxa, Bonfá, esse vozeirão, você estava escondendo o jogo?’. Fiquei quieto. E o que que é isso? Eram incompatibilidades ideológicas. Mas não tem nada a ver com política, como já escreveram. Levaram para esse lado de ideologia política. Ideologia pode ser: ‘eu gosto de café com leite, ele gosta de café’.
Captação de imagens e edição: Libário Nogueira / Sobre o programa semanal da coluna GENTE. Quando: vai ao ar toda segunda-feira. Onde assistir: No canal da VEJA+ no Youtube; Samsung TV Plus (canal 2075), LG Channels (canal 126), TCL Channel (canal 10031) e Roku (canal 221); ou no canal VEJA GENTE no Spotify, na versão podcast.
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