Parto difícil não é exclusividade humana, diz estudo – 30/06/2026 – Ciência

O parto humano é considerado particularmente difícil entre os primatas porque a cabeça do bebê passa com pouca folga pela pelve materna. Mas um estudo publicado na segunda-feira (29) na revista Nature Ecology & Evolution mostra que limitações parecidas também aparecem no parto de outros primatas.

Por décadas, a ciência explicou esse aperto pelo chamado “dilema obstétrico”. A hipótese, apresentada em 1960 pelo antropólogo Sherwood Washburn, afirma que a pelve humana precisava ser estável para a marcha sobre dois pés e, ao mesmo tempo, manter espaço para a passagem de bebês com cabeças grandes. O conceito ajudou a consolidar a ideia de que o parto difícil era uma exclusividade humana.

Em humanos, a passagem estreita pela pelve pode resultar em emergências obstétricas. Uma delas é a distocia de ombro, quando a cabeça do bebê já nasceu, mas os ombros ficam presos nos ossos da pelve materna. A equipe precisa agir rapidamente para liberar o nascimento e reduzir riscos ao bebê.

Para saber se essa limitação anatômica era mesmo particular da nossa espécie, a pesquisa liderada por Nicole Torres-Tamayo, da University College London (Reino Unido), usou modelos 3D para medir a abertura da pelve em 130 fêmeas adultas de 29 espécies de primatas, incluindo humanos. Depois, comparou esse espaço com o tamanho da cabeça dos recém-nascidos das mesmas espécies. A comparação indica quanta folga o filhote tem para nascer.

Pouca folga entre cabeça e pelve não basta para prever complicações. O nascimento também depende da posição do bebê, da flexibilidade dos tecidos e de outros mecanismos que podem facilitar a passagem pela pelve, ressaltam os autores.

Entre os grandes primatas, grupo que inclui humanos, chimpanzés, gorilas e orangotangos, a pesquisa mostrou que nossa espécie continua sendo a que tem menor folga entre a cabeça do bebê e a pelve da mãe.

Mas o parto complicado também pode surgir fora da combinação humana de andar sobre dois pés e gerar bebês de cabeça grande. Em espécies menores, como macacos-de-cheiro, saguis e gálagos, o estudo encontrou encaixes tão apertados quanto o humano ou ainda mais extremos. Em alguns casos, segundo as medidas do estudo, a cabeça do filhote pode ser maior que a abertura da pelve no nascimento, sinal de que humanos não são tão únicos nesse aspecto quanto se pensava.

Relatos anteriores já apontavam nessa direção. O artigo cita partos obstruídos ou prolongados e filhotes mortos ao nascer em grandes primatas, macacos-de-cheiro, mandris, babuínos e macacos-vervet.

A comparação entre humanos e outros primatas remonta ao século 19. O biólogo inglês Thomas Henry Huxley (1825-1895) usou semelhanças anatômicas com gibões, orangotangos, chimpanzés e gorilas para situar nossa espécie na mesma história evolutiva.

Décadas depois, o primatólogo suíço Adolph H. Schultz levou essa comparação para o parto. Nos anos 1940, ele produziu diagramas que comparavam, em diferentes primatas, o tamanho da cabeça dos recém-nascidos com a abertura da pelve materna. Essas imagens ajudaram a fixar a ideia de que chimpanzés, gorilas e orangotangos teriam mais espaço para parir do que humanos, afirma o estudo publicado agora.

Para Lia Betti, da University College London e coautora do artigo, a impressão de que outros primatas teriam mais espaço para parir vinha, em parte, de analisar esses animais com medidas feitas para humanos. Com medidas adequadas a cada espécie, o espaço disponível para o nascimento se mostrou menor. Segundo ela, os resultados desafiam aspectos da narrativa inspirada por Schultz há mais de 75 anos.

Com as novas medidas em 3D, a abertura da pelve em primatas não humanos ficou, em média, 11% menor do que nas comparações tradicionais. Em algumas espécies, a diferença passou de 18%.

Caminhar sobre dois pés também criou desafios durante a gestação, afirma a física Lia Queiroz do Amaral, professora titular aposentada da Universidade de São Paulo (USP). No fim da gravidez, a barriga pesada desloca o peso da mãe para frente. Para compensar, a gestante ajusta a coluna e a forma de andar.

Para Amaral, o parto já podia ser difícil antes mesmo de o cérebro ter aumentado na linhagem humana. Ela cita a famosa Lucy, fóssil de Australopithecus afarensis com 3,2 milhões de anos, que já era bípede, mas tinha cérebro pequeno. Uma pesquisa publicada em 1986 sugeriu que fêmeas com pelve parecida com a dela poderiam ter partos lentos e difíceis.

Outra dificuldade do parto humano é que o bebê não atravessa a pelve em linha reta. Para nascer, precisa mudar de posição durante a passagem, diz Amaral. Esse conjunto de obstáculos anatômicos ajuda a entender a hipótese de que o nascimento humano tenha favorecido a cooperação em torno da gestante.

Em estudo publicado nos anos 1990, as antropólogas Karen Rosenberg e Wenda Trevathan propuseram que as dificuldades do parto humano poderiam ter favorecido o auxílio de outros membros do grupo. Segundo essa hipótese, o bebê gira durante a passagem pela pelve e costuma nascer com o rosto voltado para as costas da mãe, o que dificulta que a gestante auxilie o nascimento sozinha.

A bióloga Mercedes Okumura, docente do Instituto de Biociências da USP, também vê a assistência ao parto como parte da história humana. “A doula ou parteira é, possivelmente, a profissão mais antiga do mundo”, disse à Folha. Segundo ela, esse tipo de ajuda provavelmente existia entre nossos ancestrais.

Betti ressalva que, anos depois, Rosenberg e Trevathan suavizaram a ideia de que a ajuda no parto seria obrigatória, pois mulheres dão à luz de formas variadas. Ainda assim, ela considera possível que o auxílio de outros membros do grupo tenha ajudado a atravessar partos difíceis ao longo da evolução humana.

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