Oncoclínicas: CVM rejeita OPA contra fundo Centaurus – 01/07/2026 – Economia

A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) decidiu nesta terça-feira (30) que o fundo Josephina III, ligado à gestora norte-americana Centaurus Capital, não será obrigado a lançar uma OPA (oferta pública de aquisição) pelas ações da Oncoclínicas.

Em parecer assinado pela Superintendência de Registro de Valores Mobiliários, o órgão derrubou o entendimento dos minoritários de que a Centaurus teria disparado uma cláusula de proteção contra acionistas que detêm mais de 15% do capital da companhia —a chamada poison pill.

Nesse tipo de cláusula, os minoritários ficam protegidos de grandes aquisições que tenham sido realizadas sem aprovação de uma assembleia de acionistas. Com a OPA, os minoritários recebem as mesmas condições de venda de ações ofertadas ao grande comprador e podem vender seus papéis por preços melhores.

Encampado pela gestora Latache, o processo corria na autarquia desde abril de 2025 e remontava a uma controvérsia iniciada em novembro de 2024. À época, a Oncoclínicas informou ao mercado que o fundo de investimento Josephina III, resultado de uma cisão do fundo Josephina II —controlado pelo Goldman Sachs—, passara a deter 16,05% do capital da companhia.

A Centaurus já integrava a estrutura dos fundos Josephina junto ao Goldman Sachs desde 2018, mas até então operava como investidora oculta, sem aparecer publicamente como acionista da Oncoclínicas.

Em março de 2025, o Josephina III comprou do fundo Josephina I uma fatia adicional de 15,79% das ações da Oncoclínicas, elevando sua participação direta na rede para 31,8%.

Na mesma operação, transferiu ao Goldman Sachs, por meio de um swap, o resultado econômico dessa fatia adicional. Neste tipo de contrato, o resultado financeiro do ativo passa para uma das partes, mas a propriedade do papel permanece com a outra.

Para os minoritários, essas operações representavam a entrada de um novo controlador na companhia sem a realização de uma oferta pública.

A gestora Latache, que ampliou sua posição na Oncoclínicas ao longo do ano passado e hoje é a segunda maior acionista da rede, defendeu que a posição da Centaurus nos fundos Josephina jamais havia sido divulgada publicamente ao mercado e que somente o Goldman Sachs era a face pública da estrutura.

A Centaurus, no entanto, afirmava que a compra e repasse de ações se tratavam da reorganização de uma posição que ela já detinha, de forma indireta, desde 2018 (período anterior à abertura de capital da companhia na Bolsa, em 2021).

Antes do IPO, o bloco de controle direto da Oncoclínicas era formado pelo empresário Bruno Ferrari e pelos fundos Josephina I e Josephina II, ambos ligados ao Goldman Sachs.

O Josephina II, o maior deles, era titular direto de 72,5% do capital social. Dentro dessa fatia, porém, havia um sócio oculto: a Centaurus, que detinha exposição indireta equivalente a 31,8% da companhia, sem aparecer publicamente como acionista.

Para a Superintendência da CVM, a OPA não era necessária, pois as reorganizações de 2024 e 2025 não trouxeram investidores novos ao capital, não alteraram a composição acionária da companhia.

Como a CVM entendeu que a Centaurus já detinha participação econômica relevante antes do IPO, a operação se enquadrou na exceção estatutária que dispensa da OPA os investidores que já detinham participação relevante na abertura de capital.

A Latache questionou ainda a transparência das informações prestadas pela Centaurus e pelo Goldman Sachs durante a abertura de capital da Oncoclínicas e pediu que a CVM apurasse possíveis falhas no regime de divulgação da companhia.

A CVM, no entanto, não entrou no mérito da questão e disse que as alegações deveriam ser analisadas em outra superintendência da autarquia.

Cabe recurso da Latache e dos minoritários.

A decisão acontece a cinco dias de uma assembleia geral de debenturistas que vai discutir a possibilidade de uma recuperação extrajudicial na Oncoclínicas. O objetivo da companhia é debater a reestruturação de sua dívida e os meios de implementação das medidas, que podem incluir um eventual plano de recuperação.

Essa renegociação envolve cerca de R$ 1,5 bilhão distribuído em duas emissões de debentures com vencimentos entre 2027 e 2029. A recuperação extrajudicial permite que a empresa negocie diretamente suas obrigações com grupos determinados de credores, sem a intermediação da Justiça.

Desde a liquidação do Banco Master, que detinha 20% de participação na companhia por meio de fundos de investimento e onde estavam investidos mais de R$ 433 milhões em CDBs, a Oncoclínicas entrou numa espiral de incertezas.

Os últimos balanços financeiros trouxeram, inclusive, preocupação relevante sobre a continuidade operacional da rede de clínicas oncológicas fundada em 2010. Além das dificuldades operacionais e da inadimplência da Unimed-Ferj, a companhia está com problemas de liquidez corrente.

No primeiro trimestre deste ano, a dívida líquida da empresa disparou para R$ 3,3 bilhões e o prejuízo triplicou em relação ao mesmo período do ano passado, chegando a R$ 438,7 milhões.

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