Financiamento verde: programa nacional já mobilizou R$140 bi para projetos sustentáveis

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Financiar a mudança para uma economia de baixo carbono é um dos maiores desafios enfrentados por governos em todo o mundo. Embora tecnologias para reduzir as emissões de gases de efeito estufa já estejam disponíveis em setores como energia, transporte, indústria e agropecuária, sua adoção em larga escala depende de bilhões de reais em aportes de longo prazo. Por aqui, uma das principais apostas para enfrentar esse desafio surgiu em 2024, com o lançamento do Eco Invest Brasil, um programa do Ministério da Fazenda voltado à ampliação do financiamento para iniciativas sustentáveis. Pouco mais de dois anos depois, a empreitada começa a apresentar seus primeiros resultados. Já mobilizou cerca de 140 bilhões de reais em investimentos públicos e privados, dos quais 45% devem ser provenientes de investidores internacionais. Até o momento, quatro leilões foram homologados e um quinto está em andamento entre instituições financeiras — elas competem apresentando propostas para o melhor uso do dinheiro e condições de crédito que possam ser as mais favoráveis. O objetivo final é bancar projetos em áreas estratégicas como transição energética, bioeconomia, economia circular e infraestrutura para adaptação às mudanças climáticas.

Como um programa criado há pouco mais de dois anos conseguiu mobilizar um volume tão expressivo de recursos? A resposta está em um modelo que busca reduzir os riscos associados a investimentos de longo prazo. Em vez de financiar diretamente empresas ou empreendimentos, o Eco Invest utiliza uma parcela limitada de dinheiro público para destravar um volume maior de capital particular, ampliando o acesso ao crédito para iniciativas sustentáveis. Assim, para cada 1 real que o governo coloca no programa, o setor privado precisa participar com ao menos mais 3 reais. “É um instrumento muito eficiente. Os leilões até agora mostraram que o setor privado consegue inclusive superar esse valor”, afirma Heiko Spitzeck, diretor do núcleo de sustentabilidade da Fundação Dom Cabral.

O ponto central está em atacar um dos principais gargalos da transição climática: transformar iniciativas ambientalmente sustentáveis em empreendimentos capazes de gerar atividade econômica, inovação e novas cadeias produtivas. Setores considerados estratégicos ainda enfrentam barreiras para avançar, mas algumas iniciativas já começam a receber recursos. Entre elas estão a biorrefinaria de combustível sustentável de aviação na Bahia e a ampliação de estações de tratamento de esgoto em Curitiba pela Sanepar, que captou 375 milhões de reais para obras de modernização. A carteira também inclui reflorestamento de áreas degradadas, bioeconomia na Amazônia e infraestrutura resiliente aos extremos do clima. “Não há uma dicotomia entre preservação, sustentabilidade e lucro. Na prática, as coisas podem andar de maneira conjunta”, afirma Fernando Murcia, diretor de projetos da Fipecafi.

INFRAESTRUTURA - Curitiba: estação de tratamento de esgoto ampliada
INFRAESTRUTURA - Curitiba: estação de tratamento de esgoto ampliada (Sanepar/.)
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A estratégia adotada por aqui segue um movimento já testado por outras economias. Na União Europeia, programas como o InvestEU e o Fundo para uma Transição Justa combinam garantias públicas e recursos privados para financiar obras de infraestrutura. Nos Estados Unidos, a Lei de Redução da Inflação criou incentivos para ampliar investimentos em energia limpa, manufatura e tecnologias de baixo carbono. A experiência desses mercados aponta que a disputa por uma nova economia depende não apenas de metas ambientais, mas da capacidade de criar estruturas que reduzam riscos e atraiam capital em escala. Para o Brasil, o desafio será transformar o Eco Invest em uma estratégia mantida a longo prazo, capaz de fazer com que o potencial ambiental do país se traduza em investimentos produtivos, geração de empregos e desenvolvimento econômico.

Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002

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