As opções para apostar nos resultados da Copa do Mundo parecem infinitas. Mas quem quer apostar no crescimento de empresas e da economia brasileira tem cada vez menos alternativas.
Ao mesmo tempo que empresas estão saindo do mercado, as que ficaram estão recomprando suas ações. Nos últimos dois anos, companhias anunciaram a recompra de mais de 5 bilhões de ações ordinárias.
Um estudo divulgado na semana passada mostra que, em 2025, 71 empresas anunciaram programas de recompra, ante 105 em 2024 —queda de 32%. Mas os planos ficaram maiores. A quantidade média de ações ordinárias pretendidas subiu de 24,1 milhões para 37,5 milhões. Entre as preferenciais, passou de 6 milhões para 22,7 milhões.
O levantamento feito pela MZ, que vende consultoria para áreas de relacionamento com investidores, mostra que o varejo liderou os anúncios de recompra, com 13 companhias, ou 18,3% do total. Depois vieram os setores imobiliário e de saúde, com sete empresas cada um.
Com a taxa básica de juros (Selic) em 14,25%, projetos de expansão, novas lojas e aquisições precisam oferecer retornos altos para compensar o risco. Comprar o próprio negócio pode parecer mais seguro, mas também pode mostrar que faltam projetos rentáveis para sustentar o crescimento.
Na recompra, a companhia usa seu caixa para adquirir ações próprias. Se os papéis ficam na tesouraria e seus preços sobem, a empresa ganha com a valorização. Se forem cancelados, o negócio passa a ser dividido entre menos ações, aumentando a participação proporcional de quem permaneceu.
O problema é que a valorização esperada não apareceu. Em 2024, as empresas que anunciaram recompras caíram, em média, 11,2%, ante recuo de 10,4% do Ibovespa. Entre as que abriram programas em 2025, a queda média foi de 3,9% do fim daquele ano até junho de 2026, enquanto o índice subiu 7,6%.
Isso não prova que a recompra tenha causado o mau desempenho. Muitas empresas anunciam programas justamente porque suas ações estão pressionadas e caindo. O prazo analisado é curto para dizer se foi boa ou má ideia, mas deixa claro que um anúncio de recompra não é um sinal confiável para encontrar uma boa ação.
Há outro problema: anunciar recompras não significa comprar as ações. Um estudo publicado em 2022 pela Fundace (Fundação para Pesquisa e Desenvolvimento da Administração, Contabilidade e Economia) descobriu que as empresas executam menos da metade dos programas anunciados.
Os autores analisaram 381 programas de recompra de 122 empresas brasileiras entre 2008 e 2014. Em média, somente 44,7% da quantidade anunciada foi efetivamente adquirida. Entre as três empresas que mais repetiram programas, a execução média foi de apenas 17,7%.
Claro que um programa de recompra é uma autorização, não uma obrigação. A empresa pode comprar tudo, uma parte ou nada. Quando o padrão se repete, o anúncio corre o risco de funcionar mais como uma jogada de marketing do que como decisão de investimento.
Por isso, o investidor precisa acompanhar quanto foi realmente recomprado, a que preço e o que a empresa deixou de financiar ao adquirir seus próprios papéis. O anúncio pode revelar força financeira hoje, mas uma falta de horizonte para sustentar crescimento no futuro.
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