Em Taiwan, ilha que fabrica os chips e semicondutores mais avançados do mundo, uma empresa desenvolve uma estrutura mecânica vestível que ajuda pessoas debilitadas a se movimentar. Outra faz um escaneamento digital minucioso dos pés para produzir solados personalizados. E uma companhia propõe transformar os hospitais em ambientes conectados por inteligência artificial e internet das coisas.
As iniciativas são resultado de investimentos no setor da saúde, que, para Taipé, extrapolam a questão da medicina. Transformaram-se também numa estratégia diplomática e de projeção internacional para a ilha que está no centro de disputas geopolíticas ora em curso e que envolvem as maiores potências globais.
Em um cenário de tensões militares com a China, de competição por cadeias produtivas e de envelhecimento da população, o governo taiwanês investe em biotecnologia, inteligência artificial aplicada à medicina e sistemas digitais numa tentativa de ampliar sua relevância em tecnologia médica.
A transformação ocorre em um momento delicado para Taiwan. A ilha vive sob pressão de Pequim, que a reivindica como parte de seu território e faz exercícios militares ao seu redor com frequência.
Em paralelo, Taiwan não tem reconhecimento da maior parte da comunidade internacional e é excluída de organizações multilaterais relevantes, caso da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Atualmente, só 12 países mantêm relações diplomáticas formais com Taipé.
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Não por acaso a ilha se esforça para mostrar ao mundo que pode contribuir em áreas essenciais, caso de medicina digital, prevenção de epidemias e envelhecimento saudável.
Em 27 de maio, o governo de Taiwan lançou a campanha “Go Healthy with Taiwan”, uma iniciativa que busca ampliar a presença global das indústrias taiwanesas de saúde e bem-estar e fortalecer parcerias com governos, empresas e instituições internacionais. A cerimônia, que contou com a presença da Folha, reuniu representantes diplomáticos de vários países, incluindo de África do Sul, Hungria e Nova Zelândia.
Durante o lançamento, o diretor-geral da Administração de Comércio Internacional de Taiwan, William Liu, disse que a pasta “auxilia continuamente” as empresas da ilha na expansão para mercados internacionais. O objetivo, acrescentou, é tornar Taipé um “parceiro indispensável” na indústria global da saúde.
A declaração vai ao encontro de uma publicação do Ministério das Relações Exteriores de Taiwan, segundo a qual o sucesso das empresas de alta tecnologia do país é atribuído, em grande medida, ao “generoso financiamento do governo para o desenvolvimento científico aplicado”.
O governo taiwanês destinou US$ 34 bilhões (R$ 174 bilhões) à saúde pública em 2024, dado mais recente disponível do Ministério da Saúde e Bem-Estar. Para efeito de comparação, o Brasil, com população quase dez vezes maior, aplicou naquele mesmo ano R$ 591 bilhões no setor.
No caso de Taiwan, a pandemia incentivou investimentos. Embora tenha sido elogiado pela resposta considerada rápida, o governo da ilha teve dificuldades para acessar vacinas no início da crise sanitária e voltou a denunciar seu isolamento diplomático. Esse cenário fortaleceu em Taipé a ideia de que cadeias estratégicas, tanto de chips quanto de produtos médicos, precisam permanecer sob controle local.
Outro fator levado em consideração foi a mudança demográfica. Taiwan possui uma das menores taxas de natalidade do mundo e, em 2024, a proporção da população com 65 anos ou mais representava 19,1% do total, segundo a agência Xinhua. À época, a ilha já estava prestes a se tornar uma “sociedade de super envelhecimento”, na qual pessoas com essa faixa etária representam ao menos 20% da população, o que pressiona o sistema de saúde e implica em aumento dos gastos necessários ao setor.
É nesse contexto que Taiwan busca combinar a expertise em semicondutores com aplicações médicas avançadas. E para o governo, as inovações tecnológicas no setor se tornaram prioridade estratégica.
O apoio governamental às empresas taiwanesas ocorre, em sua maior parte, com programas de incentivo à inovação e à qualidade, não necessariamente via aporte direto de capital, afirma Jason Miao, diretor de Negócios Internacionais da Imedtac, que propõe transformar hospitais em ambientes conectados.
Segundo ele, um dos projetos incentiva cada centro médico de Taiwan a focar um país do Sudeste Asiático e, com modelo de cooperação entre hospitais, levar tecnologias de internet das coisas para essas nações. Com sede em Taipé, a Imedtac, diz, obteve sucesso em iniciativas na Tailândia, Malásia e Vietnã.
Os hospitais modernos, acrescenta, acumulam volumes gigantescos de dados e equipamentos, mas muitos processos continuam fragmentados, manuais e sujeitos a erro humano. A companhia, assim, propõe usar sensores, integração de software e inteligência artificial para automatizar as rotinas.
Já a empresa Dr. Foot, que escaneia os pés para produzir solados personalizados, diz que obteve financiamento em 22 projetos de pesquisa e desenvolvimento patrocinados pelo governo.
Os equipamentos geram mapas digitais que mostram, por exemplo, quais regiões do pé concentram maior pressão durante a caminhada. Isso ajuda, segundo a companhia, a identificar casos de fascite (inflamação) plantar, pé chato, sobrecarga nos calcanhares ou desalinhamentos.
A Dr. Foot diz ter construído um banco de dados com mais de 350 mil registros de pés escaneados e produzido mais de 200 mil pares de palmilhas personalizadas. A escala permitiu à empresa desenvolver algoritmos próprios para mapear diferenças anatômicas. Fundada com o objetivo de fabricar palmilhas ortopédicas, hoje a empresa produz desde calçados terapêuticos até os voltados para atletas. A companhia tem sede em Yilan, no nordeste da ilha.
Na Wistron Medical Technology, o resultado de um dos projetos da área de inovação foi um produto que parece saído da ficção científica: uma espécie de exoesqueleto motorizado, a estrutura mecânica vestível, preso às pernas e à cintura do usuário, capaz de detectar movimentos em tempo real e fornecer força adicional para permanecer em pé por períodos mais longos, levantar-se, caminhar ou subir escadas.
O equipamento foi originalmente desenvolvido pela startup canadense B-Temia, mas ganhou escala comercial após receber investimentos da Wistron Medical. Segundo Iris Lin, da divisão de negócios da empresa, o “apoio sistemático do governo é fundamental para a expansão global” da companhia.
O repórter viajou a convite da campanha Go Healthy with Taiwan.
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