Nova York: Prédio em risco de queda expõe crise de moradia – 08/07/2026 – Mundo

O risco de colapso de um outrora prédio comercial que está em reforma em uma das regiões mais importantes de Manhattan, em Nova York, reacendeu o debate sobre um dilema de política urbana que há anos atinge uma das cidades mais famosas do mundo: a crise de moradia.

Desde os anos 1990, e de maneira mais intensa após a pandemia de Covid, Nova York mergulhou em uma equação difícil de resolver. Há mais pessoas do que casas; e os aluguéis inflam em medida inversa em relação à renda das famílias. Morar na cidade ícone dos Estados Unidos é uma tarefa cada vez mais difícil.

No início desta semana, o Corpo de Bombeiros da cidade recebeu uma série de denúncias de que a antiga sede da gigante farmacêutica Pfizer, localizada no cruzamento da rua 42 com a Segunda Avenida e em meio a obras para se tornar um prédio residencial, poderia desabar.

O edifício tem 37 andares, quase um arranha-céu, e as colunas que sustentam a estrutura do 21º estavam visivelmente cedendo, com várias rachaduras.

Toda a área ao entorno foi imediatamente esvaziada, o que afetou edifícios comerciais e hotéis, além de ter tido um impacto direto na comunidade brasileira: o Consulado do Brasil está no prédio em frente à antiga sede da Pfizer e teve de ser esvaziado às pressas. Nesta quinta-feira (9), o atendimento consular será retomado normalmente.

Projetos como esse, de conversão de escritórios em apartamentos, apresentaram um boom na cidade e se converteram em tendência, em grande medida para amortizar a crise de moradia, embora em muitos deles os apartamentos em construção sejam de luxo, em nada acessíveis para a maioria da população.

O prédio agora sob os holofotes, localizado a poucas quadras da sede da ONU na cidade, está sob responsabilidade de uma das empresas com mais experiência nesse tipo de projeto, a Metro Loft. O primeiro empreendimento do tipo foi feito por eles há quase três décadas, em 1997, em um edifício comercial de 1910 com cinco andares. E vários outros estão sendo feitos agora, em paralelo; um deles é em Wall Street, o coração financeiro da cidade.

A dimensão do que ocorre na antiga sede da Pfizer é muito maior: se concluído, este seria o maior projeto de conversão de escritórios em residências de Nova York. Mais de 1.600 apartamentos de alto padrão para alugar seriam feitos ali. A ideia era concluir o projeto em 2027. Agora, tudo está em suspenso.

A crise de moradia em Nova York foi se agravando a galope. Os dados oficiais mais recentes, de dois anos atrás, mostram que a chamada taxa de vacância na cidade era de 1,41%. Em miúdos: quase não há imóveis disponíveis para locação —somente 33 mil unidades em um estoque de mais de 2,3 milhões.

Aquela foi a taxa mais baixa registrada na cidade desde 1965. O pior cenário estava na taxa para os imóveis mais baratos, com aluguel inferior a US$ 1.100 —0,4%. Já a taxa de disponibilidade de unidades com aluguéis mais caros, de US$ 2.400 ou superior, ficou em 3,4%.

O preço do aluguel é um problema latente. Dados reunidos pelo escritório do controlador da cidade (espécie de auditor-geral independente e eleito por voto popular) mostram que o valor médio do aluguel dos apartamentos disponíveis na cidade em 2023 era de US$ 3.500.

Para bancar o valor e não comprometer mais de 30% da sua renda com aluguel, portanto, uma família precisaria ter ganhos de US$ 140 mil ao ano, o dobro da renda média das famílias na cidade.

Pesquisa conduzida pela Universidade de Columbia mostrou que a crise de acesso a moradias afeta a população de diferentes maneiras. Enquanto mais da metade das famílias da cidade está sobrecarregada com os custos de moradia, gastando pelo menos 30% da renda mensal com aluguel, entre as famílias de baixa renda esse gasto é ainda maior —para um terço delas, ele supera 50% da renda.

Enquanto isso, projetos como o que quer transformar a antiga sede da farmacêutica em apartamentos residenciais crescem. Nova York foi a líder no país em 2025, com mais de 8.310 projetos do tipo na esteira, segundo dados da plataforma Rente Cafe. Atrás estão a capital Washington (6.500) e Los Angeles (4.300). Isso representa um aumento de 59% dos projetos do tipo na cidade em relação ao ano anterior.

Em paralelo, tem crescido o número de despejos na cidade. Somente no primeiro semestre deste ano, 8.000 famílias foram despejadas, mostram números oficiais. O estudo de Columbia demonstrou que nova-iorquinos negros e de origem latina têm maior probabilidade de enfrentar dificuldades para pagar aluguel e, portanto, de serem despejados.

No fim de junho, após proposta do prefeito Zohran Mamdani, o conselho de habitação da cidade aprovou o plano para congelar os aluguéis de cerca de 1 milhão de apartamentos entre outubro deste ano e setembro do ano que vem. A medida inclui desde moradias subsidiadas até apartamentos de luxo.

Por ora, o antigo prédio da Pfizer, em breve conjunto residencial, e personagem de uma história maior sobre crise de moradia, continua em observação. Durante a madrugada desta quarta-feira (8), funcionários foram capazes de estabilizar a estrutura com vigas adicionais. Alguns dos prédios no entorno puderam voltar a funcionar, ainda que a passagem de carros e pedestres na via principal esteja bloqueada.

O engenheiro responsável pela obra e um outro profissional, este independente e contratado pela Metro Loft, estão acompanhando a situação, assim como o governo da cidade.

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