O francês Alex Allard, idealizador do Cidade Matarazzo, está diante do capítulo mais delicado de sua longa disputa para permanecer no empreendimento de luxo que ajudou a conceber no coração de São Paulo. O empresário acumula uma inadimplência de R$ 45 milhões com o Banco Master, referente a um financiamento de R$ 335 milhões contratado em janeiro de 2024. O empréstimo tinha carência de dois anos e previa o início das amortizações em fevereiro deste ano. Desde então, Allard deveria pagar 36 parcelas mensais de R$ 9 milhões. Não pagou nenhuma.
Até junho, já eram cinco meses seguidos de atraso. A pressão aumenta com a proximidade de 18 de julho, data de vencimento da sexta parcela do contrato.
Allard tentou ganhar tempo. Propôs ao responsável pela administração do crédito parcelar o valor já vencido ao longo dos próximos seis meses. A oferta, descrita por interlocutores como uma tentativa de “parcelar o calote”, foi recusada. O problema, para o francês, é que a operação tem como garantia suas próprias cotas de participação no Cidade Matarazzo, estimadas em cerca de 20%. Com a inadimplência caracterizada, o banco pode iniciar a execução das garantias e tomar os ativos.
A crise financeira de Allard se soma a uma guerra societária que há anos corrói os bastidores da BM Empreendimentos, empresa responsável pelo complexo. O francês foi a mente criativa por trás da revitalização do antigo Hospital Matarazzo, mas perdeu espaço à medida que o projeto exigiu aportes bilionários que ele não conseguiu acompanhar.
O controle majoritário acabou nas mãos da Chow Tai Fook Enterprises, grupo de Hong Kong dono da bandeira Rosewood. A relação entre Allard e os asiáticos azedou de vez e passou a ser travada em tribunais, conselhos e petições.
De um lado, Allard acusa executivos ligados à CTF de espionagem e chegou a levar à Justiça a suspeita de que dados estratégicos teriam sido extraídos do notebook de sua advogada por meio de um pendrive. Segundo a versão do empresário, as informações envolveriam emissões de debêntures e uma estratégia para diluir sua participação no negócio.
Do outro, a CTF questiona a condução das obras, os custos do projeto e as comissões recebidas pelo francês na venda de apartamentos residenciais do complexo. O embate também levou ao afastamento de Allard do conselho de administração da BME.
A disputa ainda transbordou para o campo reputacional. Reportagens já expuseram denúncias de um ambiente corporativo hostil, com relatos de uso de termos xenofóbicos e racistas por Allard para se referir a profissionais e instituições no Brasil.
Se a execução das cotas pelo Banco Master avançar, a CTF desponta como candidata natural a ficar com a participação do francês. O grupo tem direito de preferência na aquisição das ações e poderia consolidar o controle total do Cidade Matarazzo, encerrando de vez a presença de Allard no empreendimento.
Procurado para comentar a inadimplência, a recusa da proposta de parcelamento e o risco de execução das garantias, Alex Allard não respondeu até o fechamento desta edição.
A operação do Rosewood São Paulo segue normalmente e, até aqui, permanece blindada da disputa entre acionistas.
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