Uma pequena nota na edição de 23 de outubro de 1966 da Folha anuncia: “GEEM lançará Olimpíada de Matemática Moderna”. GEEM era o Grupo de Estudos do Ensino de Matemática, fundado em São Paulo cinco anos antes sob a coordenação do professor Osvaldo Sangiorgi, principal difusor no Brasil do que então se chamava matemática moderna. Já o conteúdo da nota marcava o primeiro episódio no nosso país de uma história que já era antiga, hoje mais do que centenária, e que fez do Brasil o detentor da maior competição escolar do mundo, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP).
Pouca gente sabe que a ideia de “olimpíada de matemática” é muito antiga, antecedendo mesmo a criação dos Jogos Olímpicos (esportivos) da era moderna, cuja primeira edição teve lugar em Atenas em 1896: dois anos antes, em 1894, a Hungria já tinha criado a primeira competição nacional em matemática para estudantes do ensino médio. No espaço de uma década, a Romênia fez o mesmo.
Essas iniciativas pioneiras ainda não eram chamadas “olimpíadas”. A primeira com essa denominação foi a Olimpíada Matemática de Leningrado, lançada em 1934 pelo Departamento de Matemática da Universidade de Leningrado (atualmente, São Petersburgo). No ano seguinte, a ideia foi replicada em Moscou. Mais tarde, na mesma década, começaram as olimpíadas de física, química e biologia nas duas cidades.
Inicialmente, a Olimpíada Matemática de Leningrado era realizada em três fases. Na primeira, as questões eram enviadas para as escolas, onde eram aplicadas. Algumas centenas de estudantes eram selecionados para a segunda fase, que era presencial e escrita. Desses, os cem melhores seguiam para a terceira fase. Um ponto curioso é que essa última fase era oral, com os estudantes tendo que resolver os problemas propostos em tempo real perante uma banca (eles podiam tentar até três métodos diferentes de resolução).
Esse formato oral estava em linha com uma tradição ainda mais antiga, que perdura até os nossos dias: os famosos “círculos matemáticos” de Moscou e Leningrado. Trata-se de encontros regulares de estudantes do ensino médio com professores universitários para discutir matemática avançada em linguagem acessível aos jovens. Não é à toa que ficaram famosos, pois sempre contaram com a participação dos maiores matemáticos da União Soviética, como Andrei Kolmogorov e Israel Gelfand. O Impa edita no Brasil alguns dos livros resultantes desses círculos matemáticos.
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Em 1934 ainda não havia medalhas: os 11 melhores candidatos foram agraciados com uma placa de metal com a inscrição “Vencedor da primeira olimpíada de matemática” (do mundo!). Nada mal, hein?!
Ao final da década de 1950, sete países do Leste Europeu –Hungria, Romênia, União Soviética, Polônia, Bulgária, Tchecoslováquia e Alemanha Oriental– já tinham suas olimpíadas de matemática. Incluindo palestras, discussões e a produção de livros e revistas, além da competição, elas sempre foram vistas como instrumentos estratégicos para identificar jovens talentosos e disseminar a compreensão e o gosto pela disciplina.
Em 1959, esses sete países deram o passo seguinte: realizaram a primeira Olimpíada Internacional de Matemática (IMO, na sigla em inglês), na Romênia. Comentarei na semana que vem.
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