O guatemalteco Eduardo Halfon, 55 anos, construiu uma das trajetórias mais singulares da literatura latino-americana contemporânea. Nascido na Cidade da Guatemala, em 1971, no seio de uma família de origem judaica, polonesa e libanesa, ele se mudou para os Estados Unidos aos dez anos, depois seguiu para a França e hoje mora em Berlim. Essa vida nômade e a complexa herança familiar — marcada de forma indelével pelo trauma do Holocausto — tornaram-se a matéria-prima de uma obra onde ficção, memória e biografia se misturam.
No Brasil para participar da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Halfon também celebra o lançamento da nova edição de O Boxeador Polonês pelo selo Autêntica Contemporânea — veja abaixo o dia e o horário das mesas nas quais ele participa. A edição, que chega ao país ampliada com novos contos, tem como eixo a comovente história inspirada em seu avô, um sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz que teria sido salvo por um pugilista.
Nesta entrevista, concedida por videochamada poucos minutos após um tremor de magnitude 5.9 atingir a Guatemala, o autor reflete sobre sua conturbada relação com a religião, o incômodo com o rótulo de “autoficção”, a engenhosa estrutura de seus livros e sua profunda ligação afetiva com o Brasil — especialmente com o estado de Minas Gerais. A seguir, os melhores trechos da conversa.
Como é a sua relação com a Guatemala hoje? Você costuma visitar o país com frequência? Sim, costumo ir à Guatemala em agosto para passar as férias com o meu filho, permitindo que ele conviva com os primos e com a família. Apesar de ser um país complicado pela violência, pela pobreza e pela corrupção, gosto muito de ir para lá quando não estou a trabalho. É uma rotina prática e reconfortante, pois temos o apoio dos avós e dos tios, o que nos faz muito bem.
O centro da sua obra literária passa de forma muito íntima pela sua vida pessoal e familiar. Incomoda-o quando chamam a sua literatura de “autoficção”? Incomoda-me a palavra “autoficção”, pois sinto que ela reduz o alcance do trabalho. Na verdade, acredito que toda literatura é autobiográfica em maior ou menor grau. O que eu faço é emprestar a minha biografia para a narrativa: utilizo o meu nome para o personagem e coloco-o na mesma pessoa que eu, mas ele não sou eu. Funciona como se eu estivesse montando um cenário teatral, onde a biografia atua apenas como o pano de fundo para a inserção de um drama ficcional. Eu manipulo a realidade para convencer o leitor de forma absoluta. O impacto emocional dos meus livros vem justamente dessa confusão sobre o que é ou não verídico, embora devamos ler a obra como ficção.
Isso fica muito evidente no conto que dá título a O Boxeador Polonês. A história do seu avô, que dizia que o número tatuado em Auschwitz era apenas um número de telefone, é muito forte. Como foi o processo de lidar com essa memória e transformá-la em literatura? Durante a minha infância, na Guatemala, a guerra era um assunto totalmente silenciado. O meu avô costumava me dizer que aquele número tatuado era o seu número de telefone e, na época, eu acreditava que fosse apenas uma brincadeira. Nós não falávamos sobre a morte ou sobre o que havia acontecido. Só me tornei escritor, por acidente, aos 28 anos. Quando me aproximei da literatura, decidi confrontá-lo sobre o passado. Lembro-me de ter servido uma garrafa de uísque e, em apenas um minuto, ele me contou, de forma nada dramática, a anedota de como um boxeador polonês salvou a sua vida. A anedota já era uma obra literária por si só, mas levei cerca de sete anos para conseguir escrever sobre o assunto. Havia uma enorme resistência da minha parte em reviver a angústia da minha família. Finalmente, criei um narrador e transformei a lembrança do meu avô no motor da ficção, usando a memória como um trampolim para o conto.
O seu projeto literário possui um inegável efeito de “matrioska” — brinquedo tradicional russo composto por uma série de bonecas de madeira encaixadas umas dentro das outras. As histórias se sobrepõem, personagens retornam e um livro acaba puxando o outro. Isso foi algo planejado desde o início? Eu sou formado em engenharia e tenho uma natureza um tanto neurótica, que busca muita ordem. No entanto, quando começo a escrever, eu me solto completamente. No primeiro momento da criação, não sei se o conto será curto ou longo; a escrita flui de forma muito espontânea. A estruturação lógica vem depois, quando o livro já está sendo organizado. Originalmente, O Boxeador Polonês era um livro bem pequeno, e eu acreditava ter encerrado o projeto ali, pensando em passar para outro narrador no futuro. Mas personagens como a pianista e o próprio boxeador polonês continuaram reaparecendo na minha mente. Esse processo fez com que pequenos detalhes crescessem e dessem origem a novos livros, como Luto e Canción, formando um projeto contínuo, uma obra em andamento.
O que o levou a se afastar da religião na juventude, e de que forma a sua herança judaica retornou e influencia a sua escrita hoje?Na adolescência, eu vivenciei uma rejeição existencial a certos mandatos, como a obrigação de me casar com uma judia ou de me comportar de acordo com certas expectativas comunitárias. Não era exatamente uma recusa puramente religiosa, mas sim a necessidade de decidir o meu próprio caminho de forma independente. Isso gerou um distanciamento familiar difícil de administrar, pois eles não compreendiam a minha postura. Porém, quando comecei a escrever, o interesse pelas minhas origens voltou com muita força. Passei a ter aulas de hebraico e percebi que aquelas histórias familiares continuavam intimamente ligadas a mim, assim como a história e os conflitos do meu país. O retorno ao passado tornou-se uma parte fundamental da minha literatura.
Seus livros são marcados por uma forte presença do multilinguismo: espanhol, inglês, iídiche, alemão. Como a pluralidade de línguas ajuda a traduzir a sua identidade nômade? Eu não planejo essa mistura de idiomas de forma consciente. É, na verdade, um reflexo direto da minha trajetória de vida. Saí da Guatemala aos 10 anos para morar nos Estados Unidos, onde estudei e cresci. Mais tarde, também vivi na França. Vivendo na Europa, a gente acaba absorvendo diferentes idiomas naturalmente. Essa pluralidade linguística entra na minha escrita como uma espécie de viagem, refletindo o próprio trânsito do personagem e a minha própria falta de raízes fixas.
Pensando na tradição da América Latina, você se sente parte de uma continuidade da literatura guatemalteca? Nomes como Miguel Ángel Asturias ou Augusto Monterroso foram referências formativas para você? Para ser sincero, não. Quando comecei a ler com afinco, descobri primeiro os norte-americanos, como Ernest Hemingway. O meu primeiro amor pela literatura se deu em língua inglesa. Apenas mais tarde é que me apaixonei pelos latino-americanos, lendo mestres como Jorge Luis Borges, Júlio Cortázar, Roberto Bolaño e Ricardo Piglia, que funcionaram como verdadeiros professores para mim. Reconheço a grandeza de Asturias e dos clássicos, mas sinto que, por vezes, a literatura que foca na América Latina retrata uma realidade cinzenta, suja e violenta de uma forma que parece vista de fora. Não me sinto engajado num projeto estritamente guatemalteco, pois minha literatura bebe de fontes muito variadas.
Em breve você estará no Brasil para a Flip e para lançamentos no Rio de Janeiro. Como é a sua relação com o país? Eu tenho uma relação muito especial com o Brasil. A minha esposa fez o mestrado dela em ecologia em Belo Horizonte, então nós vivemos um tempo juntos em Minas Gerais e viajamos bastante pela região. Guardo ótimas recordações daquele tempo e do país. Será maravilhoso retornar para a Flip em Paraty e para os eventos na Livraria da Travessa, no Rio.
Serviço:
Sábado, 25, às 10h, em Paraty:
A saída é a volta
Eduardo Halfon e Paloma Vidal | Mediação: Gabriela Mayer
Auditório da Matriz – Praça da Matriz
Sábado, 25, às 14h, em Paraty:
Lar, exílio e pertencimento – O que faz um lugar parecer um lar?
Eduardo Halfon e Kamel Daoud | Mediação: Ayoko Mensah (mesa com tradução)
Paraty – Casa Europa – R. do Comércio, 377
Segunda, 27 às 19h, no Rio de Janeiro:
Lançamento O boxeador polonês
Bate-papo: Eduardo Halfon e Cláudia Lamego
Livraria da Travessa Ipanema: Rua Visconde de Pirajá, 572
Fonte: Link da fonte
















