Em junho, o biólogo Daniel Blumstein estava sentado em um campo em Gothic, no estado americano de Colorado, à espera que alguma marmota aparecesse. Enquanto aguardava o roedor dar as caras, ele lamentava a falta de apoio para seu trabalho em meio aos cortes do governo Donald Trump no financiamento de pesquisa científica.
Ele então se lembrou de “Margo está em Apuros” e teve uma ideia. Talvez o enredo da obra pudesse ser aplicado às marmotas e ao financiamento de pesquisas. A série, na Apple TV, é sobre uma mãe solteira que, sem conseguir encontrar um emprego convencional, recorre ao site de conteúdo adulto OnlyFans para se sustentar.
De volta ao seu laboratório, Blumstein apresentou a ideia aos seus colegas, que deram opiniões divergentes. Um de seus alunos de pós-graduação sugeriu batizar o perfil de “OnlyMarms”.
“Vai ser para todas as idades, e não vamos sexualizar isso”, disse Blumstein, professor da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), em entrevista na última sexta-feira (24). “Vamos apenas nos divertir compartilhando.”
A conta reúne vídeos de pesquisa de marmotas selvagens —roedores grandes, parecidos com esquilos, com garras afiadas e orelhas peludas— cavando tocas ou correndo pelas rochas. As assinaturas são gratuitas, mas há um pedido de gorjetas. Esse dinheiro, segundo a equipe, é destinado ao financiamento dos estudos de campo.
Os pesquisadores acompanham o comportamento e as linhagens das marmotas para entender, por exemplo, como mamíferos reagem às mudanças ambientais. A equipe atua no Laboratório Biológico das Montanhas Rochosas em Crested Butte, Colorado, que estuda marmotas da região desde 1962.
A criação da conta no OnlyFans teve um obstáculo. Blumstein precisou enviar uma foto de sua carteira de motorista como parte do processo. Mas a plataforma o notificou por causa de uma divergência: o rosto na foto do documento não correspondia ao que aparecia mordiscando folhas ou brincando em um terreno nos vídeos e fotos enviados para o site.
Um email rápido sanou as dúvidas sobre esse e outros pontos. A equipe da UCLA promoveu a página no Instagram, prometendo “conteúdo de marmotas sem censura”.
Até agora, a conta teve cerca de 2.900 visitas e 112 assinantes, gerando aproximadamente US$ 650 (R$ 3.300) em gorjetas. A cifra está bem abaixo do que Blumstein disse ser necessário para manter a pesquisa.
Ainda assim, Emily Renkey, integrante da equipe de pesquisa, estava otimista. “A maioria das pessoas doa cerca de US$ 10, o que me diz que há um interesse real e crescente no que estamos fazendo”, disse ela por email.
Antes de recorrer ao OnlyFans, a equipe havia solicitado financiamento a várias instituições, porém não conseguiu obter recursos significativos.
Segundo Blumstein, pesquisas como a que a equipe dele está conduzindo podem ser inestimáveis para entender como animais e humanos se comportam e evoluem. E pouquíssimos estudos duraram mais de três anos, acrescentou ele.
Para darem continuidade ao trabalho, o biólogo e seus colegas têm utilizado parte de seus próprios recursos, além do que resta das bolsas que ainda possuem. No entanto, isso provavelmente não será suficiente.
“Não dá para estudar apenas seres humanos para entender como e por que somos humanos”, afirmou ele, acrescentando que duvida que o “OnlyMarms” consiga arrecadar as dezenas de milhares de dólares necessários para financiar determinadas pesquisas.
A ameaça à pesquisa de marmotas de Blumstein resulta de uma ampla reestruturação do modelo de apoio a cientistas nos Estados Unidos. O governo Trump demitiu funcionários de agências federais de ciência, determinou cortes em programas de pesquisa, cancelou financiamentos e puniu universidades.
Na semana passada, o assessor de ciência de Trump afirmou que a gestão do republicano priorizará inteligência artificial, robótica e energia nuclear, enquanto reduz o foco no que ele chamou de “ciências da vida”.
Blumstein e seus parceiros de pesquisa não são os primeiros a levar ao OnlyFans um conteúdo bem diferente do restante da plataforma. Recentemente, a franquia “Todo Mundo em Pânico” começou a promover uma página dedicada ao vilão dos filmes. E, desde 2023, o tenista australiano Nick Kyrgios usa o site para mostrar sua vida fora das quadras.
A menos que o “OnlyMarms” se torne um sucesso financeiro, o tempo investido nele poderia ser mais bem aproveitado em pesquisas, segundo Blumstein. “É simplesmente frustrante”, afirmou o biólogo, ressaltando que deveria estar dedicando tempo a escrever artigos ou trabalhar com estudantes.
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