Fazia tempo que eu queria reler “Sapiens”, livro do historiador israelense Yuval Noah Harari que acabou virando a maior referência pop sobre evolução humana em boa parte do mundo. Faz mais de uma década que tive contato com a obra pela primeira vez, quando Harari ainda não era o superstar em que acabou se transformando, e me recordo com clareza do gosto de cabo de guarda-chuva na boca ao terminar a leitura. Havia várias coisas esquisitas e questionáveis ali.
Como a popularidade dos livros dele não dá sinais de arrefecer tão cedo, e como a nova leitura que fiz confirmou a sensação estranha original e me ajudou a organizá-la na cabeça, achei que poderia ser útil explicar porque é preciso encará-lo com muitos grãos de sal. Em suma, se você quer dar um livro sobre a trajetória evolutiva da nossa espécie para um adolescente curioso, talvez seja melhor não presenteá-lo com “Sapiens”.
Falemos, primeiro, do quadro geral. Quatro fatores principais me fazem ficar com muitos pés atrás diante da obra de Harari. E o estranho é que eles até pareceriam, à primeira vista, ser contraditórios entre si. Nossos Quatro Cavaleiros do Apocalipse Sapiens são: 1) simplificação excessiva; 2) repetição de exemplos ad nauseam; 3) uma certa volúpia da especulação desvairada; 4) uma alergia preocupante a citar fontes e à atualização.
Sobre o item 1, é claro que a simplificação é inevitável num livro de 400 e poucas páginas que começa no surgimento dos hominínios (o grupo de primatas mais específico ao qual a nossa espécie pertence) e vai até o século 21. Quem tenta adotar esse olhar amplo sobre a trajetória humana precisava fazer escolhas e condensar –o problema é achar o equilíbrio entre esse processo necessário e o risco de tornar a história contada tão mais simples, mas tão mais simples, que ela começa a perder a relação com a realidade.
Isso, aliás, dialoga bastante com o item 4. Harari estrutura sua narrativa em torno de três supostas grandes revoluções (a Revolução Cognitiva que nos fez seres simbólicos, a Revolução Agrícola que aumentou nossa população e complexidade social e a Revolução Científica). Mas são raros os momentos em que ele deixa claro que essa estrutura –em especial no que diz respeito às duas primeiras revoluções– é uma hipótese, e não um fato.
Por conta disso, claro, temos o seguinte grande problema: essa visão já estava ficando muito ultrapassada quando da publicação original do livro (no começo da década passada). E ficou ainda mais ultrapassada com o passar dos anos, em especial no abismo que Harari enxerga entre seu herói Homo sapiens e os demais tipos de hominínios.
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Em nenhum momento ele parece ter feito algum esforço para atualizar o livro levando isso em conta, e quase não temos ideia, no texto, das fontes que usou. (A primeira metade do livro recapitula em quase tudo um clássico dos anos 1990, “Armas, Germes e Aço”, de Jared Diamond, mas eu só sei disso porque li o livro anterior, e não porque Harari deixa isso claro.)
Para um livro que precisava resumir tanta coisa, o autor israelense repete exemplo atrás de exemplo para elucidar conceitos aparentemente simples, como o de “pessoa jurídica” ou de comunidades imaginárias (o item 3 da lista). Isso é irritante, mas talvez seja um pecado menor perto do item 4.
No final da obra, Harari faz uma espécie de trailer de seu livro seguinte, “Homo Deus”, defendendo a ideia de que a humanidade está a caminho de adquirir uma longevidade “divina”. (Graças a Deus, na época a febre da IA ainda não existia.) A especulação come solta, sem qualquer tentativa, por parte do autor, de tentar entender os limites impostos pela própria biologia humana aos planos mais mirabolantes para alterá-la de forma significativa.
Em suma, como dizia um querido editor com quem trabalhei, no livro o que é bom não é novo e o que é novo não é bom. Considerem-se avisados.
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