Terapeuta vê lado sombrio da psicodelia à moda Trump – 30/07/2026 – Virada Psicodélica

Faz dois anos que a psicoterapeuta Kari Gleiser e seu marido, o físico Marcelo Gleiser, se mudaram para um templo do século 17 na Toscana (Itália), o Oratório de Barottoli. Ali ancoraram a Ilha de Conhecimento, “um retiro dedicado ao florescimento humano” –não um retiro psicodélico, mas algo a ver com substâncias amplificadoras da consciência.

Kari falará terça-feira (4) na Rio Innovation Week. Sua palestra, “A ciência descobriu que algumas drogas curam o que nenhum remédio conseguiu. E isso muda tudo sobre saúde mental”, tratará do que considera um casamento perfeito, a psicoterapia assistida por psicodélicos.

A psicóloga especializada em traumas tem duas décadas de experiência com a modalidade de psicoterapia dinâmica experiencial acelerada (AEDP, em inglês). Há cerca de quatro anos ela ficou curiosa sobre pesquisas com MDMA (ecstasy) e decidiu experimentar a substância em investigação para transtorno de estresse pós-traumático.

“Sou viciada em ter experiências, é a coisa que eu mais adoro na vida, experiências intensas”, diz a ultramaratonista em entrevista. “Fiquei atraída por um modelo de terapia que é muito experiencial, que tem coragem em enfrentar emoções profundas e relacionamentos intensos com as pessoas. Psicodélicos amplificam as experiências, tudo vira mais intenso, as emoções, as sensações, as conexões.”

O efeito subjetivo de MDMA, uma inundação de empatia, tornou-lhe evidente o potencial terapêutico (como ocorreu comigo em 2017). Depois Kari apresentaria a substância a Marcelo, como contam no podcast Luminous, de Steve Paulson.

Enquanto aguarda a regulamentação de MDMA, após o fracasso de 2024 na agência de fármacos FDA, Kari só pode trabalhar com cannabis e cetamina. “Essas medicinas que criam estado alterado de consciência deixam a pessoa mais no corpo, mais no inconsciente. Tiram as rédeas das mãos de controle do córtex pré-frontal. Abrem paisagens bem profundas e amplificam o poder curativo do próprio paciente.”

A AEDP parte do princípio de que a psicopatologia não surge só do trauma, mas da solidão ao lidar com ele. Quando isso aflora na sessão, a terapeuta adepta da modalidade se apresenta para amparar a pessoa de forma ativa, adotando atitude incomum em outras formas de terapia, como a psicanálise.

Kari está incomodada com a possibilidade de tal casamento terminar em divórcio antes mesmo de ser legalizado. A entrada ruidosa da Big Pharma no ramo psicodélico e a ordem executiva de Trump mandando acelerar pesquisas psicodélicas tendem a consagrar as moléculas e o uso contínuo em detrimento da psicoterapia e da vivência subjetiva, do estado psicodélico.

“Essas pessoas acham que podem cortar até a experiência. Vamos dar de noite enquanto está dormindo”, espanta-se a psicoterapeuta. “Isso faz parte de uma doença cultural, pensar que você pode amplificar a dissociação. Não, a gente precisa de mais conexão, não de mais desconexão.”

Para ela, “se as pessoas só quiserem pensar em como maximizar o dinheiro que vão fazer com isso, vai-se por um caminho muito ruim, muito escuro, que é uma falta de ética dos profissionais de saúde”.

A coluna sai de férias em agosto e retorna em 3 de setembro.


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