Geração mimada: falta de limites em casa pode prejudicar pais e filhos, dizem especialistas

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Quem tem filho já sabe: os primeiros anos de vida reservam ataques de birra e muito choro. A fúria infantil costuma explodir em público, ao largo dos manuais de bons modos e irrompendo em momentos os mais inoportunos, ora no meio de um passeio, ora em cima do laço de um compromisso dos adultos. Se não há nada de inédito nesse comportamento próprio do desenvolvimento humano, o mesmo não se pode dizer das opiniões sobre a abordagem de pais e mães diante desse tão delicado quanto desafiante batente. Nas redes sociais, onde discordâncias logo viram batalha, não faltam acalorados debates sobre os métodos mais eficazes de criar a prole — fenômeno que não é novo, mas que agora vem revestido pelas incontornáveis tintas da polarização.

Em campos opostos do que se converteu em ringue estão, de um lado, os defensores da antiga cartilha baseada em regras rígidas e afirmação de autoridade; e, do outro, os seguidores da chamada educação positiva, ancorada no acolhimento e no exercício do diálogo. Entre os dois polos, há um pelotão de pais tomados pelo sentimento de que fazem tudo errado, divididos entre impor limites e tolher as asas de quem tanto amam, sem conseguir achar o desejável e saudável caminho do meio — o do equilíbrio.

SEM PERDER A TERNURA – A fotógrafa Eduarda Almeida, 26 anos, e o marido, André Santos, 32, fazem questão de explicar suas decisões do dia a dia para o filho, Henrique, de 2: “Acolho os sentimentos dele e tento manter a calma quando faz manha, mas isso exige tempo e muita paciência”, reconhece ela. (./Arquivo pessoal)

Em poucas arenas mundo afora esta queda de braço de matizes filosóficos se revela tão intensa quanto na França, país outrora orgulhoso de uma criançada menos afeita à manha, fruto de um cotidiano de maior rigor. Pois também lá os ventos contemporâneos sacudiram o terreno conhecido, deixando progenitores perdidos em relação à dose certa na educação dos rebentos — questão que vem ganhando holofotes por meio de Caroline Goldman, expoente pop da psicologia, cujas posições firmes em tema tão sujeito a polêmicas vêm reverberando nas redes e em um podcast, onde fala a centenas de milhares de pessoas. Autora de best-sellers como Já para o Quarto!, ela se tornou uma das mais influentes vozes ao não poupar críticas à permissividade que diz ter tomado conta do cotidiano familiar, formando uma garotada que cresce sem encarar frustrações. “Estamos criando uma geração de crianças mimadas”, diz ela, enfatizando que não dá para colocar o miúdo ser em pé de igualdade com gente grande. “Estão confundindo o bom hábito de escutar os filhos com transferência de autoridade, o que só os deixa inseguros e angustiados. Não dá para ser tudo 100% horizontal”, enfatiza.

A reportagem de VEJA ouviu depoimentos de pais e mães cuja rotina é cercada de aflições e sentimentos contraditórios. Muitos entendem ter havido um movimento salutar rumo a uma educação menos engessada, em que a conversa substitui punições não raro excessivas, mas ao mesmo tempo se veem lançados ao outro extremo, com os pequenos exercendo um protagonismo sem freios. Negociações intermináveis sobre hora do banho, prato de comida e escolha de roupa acabam sendo assuntos nos consultórios, tamanho o tormento que causam. “Os adultos estão explicando tudo demais à criança, quando nem sempre é o caso”, afirma a psicóloga Ana Cristina Marzolla. Boa parte deles está em busca do tal ponto de equilíbrio. Mãe de Joaquim, de 2 anos, a biomédica Nátally Silveira, 28 anos, estipula horários, cultiva o rito da família à mesa e já ensina ao filho como pode contribuir em casa. “Tem gente que me acha rígida, mas o esforço é para prepará-lo para atuar com autonomia e respeito em sociedade”, diz.

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CADA UM NO SEU QUADRADO - Desde que nasceu Joaquim, hoje com 2 anos, Nátally Silveira, 28, estabelece horários para o banho e a comida, e não permite que o filho dite o ritmo da casa. “Evitar frustração por medo de causar traumas gera insegurança para a criança e para a família”, acredita.
CADA UM NO SEU QUADRADO – Desde que nasceu Joaquim, hoje com 2 anos, Nátally Silveira, 28, estabelece horários para o banho e a comida, e não permite que o filho dite o ritmo da casa. “Evitar frustração por medo de causar traumas gera insegurança para a criança e para a família”, acredita. (./Arquivo pessoal)

Como esperado em um departamento da vida que de ciência exata não tem nada, a prática frequentemente se descola da teoria, por trazer inesperadas asperezas. Uma pesquisa da Quaest encomendada pelo instituto Infinis mostra um pendor dos pais para fazer uso da razão mesmo em situações de aperto — 91% acreditam que explicar o erro é a forma ideal de agir quando o filho comete algum ato merecedor de repreensão, mesma fatia que repudia ofensas e xingamentos à criança. Na aplicação de tudo isso, porém, a coisa ganha complexidade. Quando instados a falar sobre as próprias atitudes, quase dois terços admitem que elevam o tom de voz com certa assiduidade e 49% reconhecem já ter batido nos filhos. “Muitos reproduzem a experiência que tiveram na infância, mas é importante ser crítico ao modelo de criação do passado e refletir sobre o que deu certo ou não”, afirma a psicanalista Silvia Lobo.

Um ponto de discórdia entre os pensadores sérios da educação gira em torno de um castigo usual — deixar a criança por um tempo no quarto para dar aquela pensada. Depois de setenta países terem aprovado leis que aboliram a palmada, o Brasil na lista, o tópico passou a dominar a discussão sobre violência contra a criança, que nesse caso, para alguns, seria de cunho psicológico. Defensora da medida, Goldman recomenda que seja incorporada ao dia a dia desde 1 ano de idade, por breves períodos que vão gradativamente aumentando. Aplicado com cuidado e afinco, o método, ela garante, ajudaria a moldar crianças que obedecem às regras e têm um mais harmonioso convívio com os colegas. E dá-lhe polarização aí: aos ouvidos de alguns dos mais reputados educadores, que já acusaram a colega de pregar uma “pedagogia repressiva”, isso soa como heresia. Depois de se manifestarem contra Goldman e a processarem por difamá-­los (ela os chamou de “delirantes” e questionou suas credenciais acadêmicas), seus detratores franceses emplacaram uma norma com força de lei para banir do mapa do país o tempo sozinho, recluso entre quatro paredes, o chamado time out. Esse debate já entrou no lar dos brasileiros — 47% são favoráveis a pôr o filho no canto, segundo o levantamento da Quaest.

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PÁGINA VIRADA - Sala de aula nos anos 1950: rigidez do passado deu lugar a um protagonismo excessivo
PÁGINA VIRADA - Sala de aula nos anos 1950: rigidez do passado deu lugar a um protagonismo excessivo (Ulstein Bild/Getty Images)

Pesos-pesados nos estudos do desenvolvimento infantil, como o suíço Jean Piaget (1896-1980) e o britânico Donald Winnicott (1896-1971), trataram de reforçar a importância de se pronunciar com todas as letras a palavra “não” às crianças. Segundo essa turma, só assim, quando são repreendidas e não têm seus anseios de todo atendidos, elas criam a própria identidade. É justo o avesso do que acredita a educação positiva, que bebe da fonte do psicólogo britânico John Bowlby (1907-1990) e da neurociência, contrária a castigos de qualquer tipo. “A única lição que a criança aprende com eles é que o desconforto é criado por seus cuidadores, o que pode levar à sensação de abandono”, diz a neuropedagoga Maya Eigenmann. Apesar das discordâncias conceituais, ambas as correntes reconhecem o quão necessário é demarcar limites, tarefa das mais árduas. É por meio de exaustiva conversa com o filho de 2 anos que a fotógrafa Eduarda Almeida, 26, exerce a maternidade. “Requer mais paciência e pode ser mais cansativo, mas vale muito a pena”, admite.

Essas questões acabam desaguando na escola, onde desejos individuais precisam coexistir com regras coletivas. Os alunos aprendem ali a esperar a vez, dividir a atenção do adulto e respeitar diferenças. Não tem sido missão trivial para os educadores, que relatam a VEJA uma crescente dificuldade da garotada de assimilar o “não” em uma sala de aula arejada por novos valores e há tempos avessa à rigidez de castigos como a palmatória. “Brincamos dizendo que eles são hoje príncipes e princesas, acostumados com atenção exclusiva em casa, quando na escola precisam lidar com o outro, aprendendo ética e civilidade”, observa André Marques, coordenador do Colégio São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro. Outro enrosco tem a ver com os próprios pais: se antes depositavam confiança na instituição em seu papel de guiar comportamentos, atualmente é comum que questionem decisões pedagógicas e esperem que o colégio reproduza a dinâmica adotada em casa. “Diante de um conflito, é fundamental que a família referende o trabalho dos professores”, afirma Daniel Helene, diretor pedagógico do Vera Cruz, em São Paulo.

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O MELHOR POSSÍVEL - Pai de Hugo, 5 anos (à esq.), e de Augusto, 7, o ator Tadeu França, 38, se esmera para impor limites sem precisar dizer aos rebentos que serão punidos se cometerem erros. Admite, porém, que não está imune a falhas. “Tento dar o exemplo, mas é preciso fazer autocrítica o tempo todo. Não sou perfeito”, diz.
O MELHOR POSSÍVEL – Pai de Hugo, 5 anos (à esq.), e de Augusto, 7, o ator Tadeu França, 38, se esmera para impor limites sem precisar dizer aos rebentos que serão punidos se cometerem erros. Admite, porém, que não está imune a falhas. “Tento dar o exemplo, mas é preciso fazer autocrítica o tempo todo. Não sou perfeito”, diz. (./Arquivo pessoal)

Na lida diária dos pais para que a prole não sofra dissabores e seja estimulada ao máximo, o cansaço vira estresse, podendo desembocar em um preocupante fenômeno que já ganhou nome: burnout parental. De acordo com Goldman e a ala da psicanálise que abraça sua linha, o figurino não precisa ser assim tão perfeito. Recorrer de vez em quando a babás eletrônicas, como TV e celular, de modo a proporcionar descanso aos tão exigidos progenitores, não é problema — desde que os limites de tela sejam demarcados, levando-se em consideração a faixa etária. “Não existe a parentalidade ideal, mas a possível, é preciso ter jogo de cintura para tudo fluir”, diz o ator Tadeu França, 38 anos, pai de Augusto, 7, e Hugo, 5. Orientações de bons especialistas são sempre bem-vindas — afinal, filho não vem com manual de uso. Mas o caminho a seguir será sempre uma escolha de cada pai e cada mãe que, ao embarcar na aventura de criar um ser humano, terão de decidir, à base de altas doses de sensatez, o que é melhor para todos.

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006

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