Não existe tempo suficiente para dar conta de tudo o que disputa a nossa atenção. Se antes o desafio era encontrar informação, hoje é saber filtrá-la. Como explica o pesquisador Tim Wu, autor de The Attention Merchants, boa parte da economia digital funciona a partir de uma lógica simples: oferecer serviços aparentemente gratuitos em troca daquilo que realmente tem valor comercial —a nossa atenção.
Quanto mais tempo permanecemos olhando para uma tela, mais anúncios nos impactam, mais dados produzimos e mais dinheiro movimentamos. “Precisamos agir, individual e coletivamente, para que nossa atenção volte a ser nossa e, assim, recuperar o controle sobre a própria experiência de viver”, diz.
Não quero nem saber
Se a atenção é um recurso limitado, fazer bom uso dela depende não apenas do que escolhemos acompanhar, mas também do que decidimos, intencionalmente, ignorar. Alguns pesquisadores chamam essa estratégia de ignorância crítica. É o caso do psicólogo cognitivo Ralph Hertwig, que publicou, em 2022, um artigo sobre o tema.
Isso não significa defender a alienação, mas reconhecer, simplesmente, que ninguém consegue estar por dentro de tudo. Assim, em vez de consumir conteúdos no piloto automático, podemos escolher com mais cuidado onde colocar a atenção e deixar de lado aquilo que dificilmente vai acrescentar —seja em conhecimento, seja em entretenimento.
No dia a dia
Um dos primeiros passos para praticar a ignorância crítica e preservar a atenção é reduzir o fluxo de informações que chega até você. Fazer uma limpa nos perfis que segue, limitar o tempo de uso de cada aplicativo e desativar as notificações são boas estratégias. Outra saída é buscar conteúdos que já passaram por uma curadoria, como newsletters, podcasts e publicações impressas, que têm menos chances de levar você a consumir coisas que não são do seu interesse.
Um conselho antigo, mas especialmente válido no mundo digital, é prestar atenção em quem está falando antes de mergulhar em um texto ou assunto “urgente”. Assim, evitamos gastar tempo com informações enganosas ou de baixa qualidade.
Um exercício importante é resistir à sensação de dar opinião sobre tudo. Na hora de entrar em uma discussão ou comentar o assunto do momento, vale perguntar: eu realmente preciso dizer alguma coisa sobre isso? Nem toda conversa exige a nossa participação.
Dificuldade real
Uma pesquisa liderada por Gloria Mark, professora e autora do livro “O Poder da Atenção”, aponta que o tempo médio que passamos focados em uma tela caiu de 2,5 minutos, em 2004, para apenas 47 segundos, nas medições realizadas entre 2016 e 2021. Segundo o mesmo estudo, se somos interrompidos, levamos cerca de 25 minutos para retomar o foco.
Mas não há consenso sobre esses números. Gemma Briggs, professora de psicologia da Open University, no Reino Unido, argumenta que não é possível afirmar com certeza que a nossa capacidade geral de atenção vem diminuindo. Segundo ela, o tempo de concentração varia muito conforme a tarefa, seu contexto e nível de exigência.
Isso significa que nosso cérebro continua o mesmo? Não necessariamente. Muita gente já sente mais dificuldade de se concentrar no dia a dia. Em um estudo realizado no Reino Unido, em 2022, 49% das pessoas disseram perceber que sua capacidade de atenção diminuiu. É difícil apontar uma única causa, mas o ritmo cada vez mais acelerado da vida, o excesso de estímulos digitais e a pressão para fazer várias coisas ao mesmo tempo, certamente ajudam a explicar essa sensação.
Trabalhando essa habilidade
Precisando melhorar a sua capacidade de concentração? Além de deixar o celular e outras distrações longe, Gloria Mark explica que é preciso entender os seus próprios ritmos de atenção. Ou seja, perceber por quanto tempo você consegue se dedicar a uma tarefa até o foco começar a se perder. A ideia é fazer uma pausa curta antes que ele acabe de vez e seja sequestrado pelas redes sociais ou qualquer outro estímulo. Evitar fazer mais de uma coisa de cada vez, praticar meditação e reservar os horários de maior energia para tarefas complexas são outras medidas que podem ajudar.
Vale, ainda, avaliar se essa dificuldade de concentração não está ligada ao esgotamento. Nessas horas, o cérebro busca o caminho mais fácil: atividades que exigem menos esforço e oferecem recompensas imediatas, como checar o celular. Justamente por isso, dormir bem e reservar momentos reais de descanso pode valer mais do que qualquer estratégia de concentração.
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