Antes do Panamá, mamíferos já cruzavam mares pelas Américas

O intercâmbio de mamíferos entre as Américas começou milhões de anos antes da formação de uma conexão terrestre permanente entre os continentes, aponta uma pesquisa publicada na revista Science. Segundo o estudo, animais já conseguiam avançar de uma região para outra por rotas marítimas antes de o istmo do Panamá permitir a passagem por terra.

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A pesquisa, conduzida por uma equipe liderada pelo professor Jack Tseng, da Universidade da Califórnia em Berkeley, indica que o movimento ganhou força a partir de aproximadamente 10 milhões de anos atrás. A maior parte das migrações ocorreu do norte para o sul, enquanto as evidências de deslocamento no sentido contrário são bem mais raras.

O cenário muda por completo há cerca de 2,8 milhões de anos, quando a ligação terrestre entre as Américas teria se estabelecido. A partir desse momento, a circulação de mamíferos nos dois sentidos se tornou muito mais ampla, dando origem ao episódio conhecido como Grande Intercâmbio Biótico Americano.

Uma história de migrações anterior ao caminho por terra

Grupo de camelídeos encarando a câmera (Reprodução: Noe Besso/Shutterstock)

Durante dezenas de milhões de anos, a América do Sul permaneceu isolada de outras grandes massas continentais e desenvolveu uma fauna própria. A América do Norte, por sua vez, teve períodos de contato com a Ásia por meio da região de Bering, permitindo que espécies adaptadas a ambientes frios chegassem ao continente.

Essa diferença ajuda a explicar por que a união das duas Américas teve consequências tão profundas. Quando surgiu uma passagem terrestre, animais que haviam evoluído em ambientes distintos passaram a ocupar áreas anteriormente inacessíveis.

O novo estudo, porém, aponta que esse processo não começou com a abertura do caminho terrestre. A análise de fósseis combinada com informações obtidas por relógios moleculares indicou que várias famílias de mamíferos que viviam na atual região dos Estados Unidos e do Canadá já haviam avançado em direção ao México entre 10 milhões e 7 milhões de anos atrás.

A mudança ambiental ocorrida nesse intervalo pode ter contribuído para esse avanço. Dados geoquímicos analisados pelos pesquisadores apontaram aumento da vegetação associada a ambientes mais secos no México entre 10 milhões e 7 milhões de anos atrás. Para a equipe, essa transformação pode ter favorecido a expansão de mamíferos vindos do norte.


A possibilidade de deslocamento para regiões mais ao sul não significa, contudo, que já existisse uma passagem terrestre contínua até a América do Sul. Aproximadamente 7 milhões de anos atrás, alguns mamíferos menores aparentemente conseguiram superar a barreira oceânica.

O caminho exato permanece desconhecido. Entre as hipóteses levantadas estão deslocamentos entre ilhas do Caribe e viagens involuntárias sobre grandes pedaços de vegetação carregados pelo mar. O próprio histórico evolutivo de outros animais demonstra que travessias oceânicas desse tipo são possíveis, já que primatas conseguiram alcançar a América do Sul a partir da África.

Uma rota predominantemente em direção ao sul

Bicho preguiça nadando
Bicho preguiça nadando – Crédito da imagem: Leandro Reichert/Shutterstock.com

Os indícios reunidos pela pesquisa apontam para uma característica marcante desse intercâmbio anterior à formação da ponte terrestre: ele não ocorreu de maneira equilibrada. O fluxo predominante partiu da América do Norte em direção à América do Sul.

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As preguiças aparecem como uma exceção importante. Algumas linhagens conseguiram fazer o percurso no sentido inverso antes da união dos continentes. A capacidade de natação desses animais pode ter sido decisiva, e determinados grupos fósseis chegaram a ser considerados parcialmente aquáticos.

A diferença entre os dois sentidos de migração também ajuda a compreender o resultado posterior do intercâmbio. Quando a passagem terrestre finalmente surgiu, animais como antas e camelídeos, incluindo os ancestrais das lhamas, estabeleceram-se na América do Sul, assim como numerosos roedores. Poucos grupos fizeram o caminho contrário com o mesmo sucesso.

Por que alguns animais tiveram vantagem?

Reconstrução da preguiça-gigante
Animais se adaptaram para viver nas condições de gelo extremo (Imagem: Reprodução/Apple TV)

Uma das explicações consideradas pelos pesquisadores envolve a composição das comunidades de mamíferos existentes na América do Sul. Entre os grupos predominantes estavam os marsupiais, enquanto os mamíferos placentários possuíam uma estratégia reprodutiva que poderia favorecer sua expansão diante da competição.

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A hipótese é que os placentários, cujos filhotes alcançam a independência mais cedo, apresentassem uma vantagem em ambientes onde precisavam competir com os marsupiais. Essa interpretação, contudo, é contestada por pesquisadores que estudam a história evolutiva dos marsupiais.

Outra possibilidade está relacionada à experiência ecológica dos mamíferos norte-americanos. Como a América do Norte manteve contatos recorrentes com espécies asiáticas por meio da ligação de Bering, seus habitantes teriam enfrentado competição mais intensa ao longo de sua evolução.

Essa trajetória pode ter preparado parte desses animais para a chegada a novos ambientes. A interpretação apresentada por Tseng é que os mamíferos norte-americanos que conseguiram avançar para o sul já carregavam uma longa história de competição evolutiva.

O que aconteceu quando surgiu a ligação terrestre

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A formação do istmo do Panamá, há aproximadamente 2,8 milhões de anos, alterou radicalmente as condições de dispersão. Com uma conexão terrestre disponível, os deslocamentos em ambas as direções deixaram de depender de travessias marítimas e passaram a ocorrer com muito menos restrições.

Esse processo corresponde ao Grande Intercâmbio Biótico Americano, episódio que remodelou profundamente as comunidades animais dos dois continentes. A pesquisa indica, entretanto, que o intercâmbio não deve ser entendido apenas como um acontecimento iniciado quando os animais finalmente puderam caminhar de um continente ao outro.

Os pesquisadores defendem uma sequência anterior de movimentos, iniciada pelo menos 10 milhões de anos atrás e marcada primeiro por deslocamentos terrestres dentro da América do Norte, depois por travessias oceânicas e, por fim, pela abertura de uma rota terrestre contínua.

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O fenômeno também não ficou restrito aos mamíferos. De acordo com Tseng, plantas e animais capazes de voar, como insetos, aves e morcegos, sofreram menos limitações com a ausência de uma ponte terrestre permanente.

A investigação, portanto, apresenta o intercâmbio entre as Américas como um processo muito mais prolongado do que a simples abertura de uma passagem no Panamá. Antes que houvesse uma estrada natural entre os continentes, algumas espécies já haviam encontrado maneiras de superar a separação geográfica.

Wagner Edwards

Wagner Edwards

Wagner Edwards é Bacharel em Jornalismo e atua como Analista de SEO e de Conteúdo no Olhar Digital. Possui experiência, também, na redação, edição e produção de textos para notícias e reportagens.

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