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O crescimento do Brasil, ancorado no consumo das famílias, enfrenta sérios desafios de sustentabilidade. O autor explora como o uso intenso de recursos sem ganho de produtividade e a expansão do endividamento público e familiar, impulsionados por políticas governamentais, criam um ciclo insustentável de juros altos e inadimplência. É um alerta para as consequências de um crescimento baseado em dívida.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Não é de hoje que me preocupa a sustentabilidade do crescimento brasileiro, ancorado na expansão do consumo das famílias, que responde por algo como 70% do aumento do PIB entre 2021 e 2025, seguido (de longe) pelo consumo do governo (aproximadamente 20%) e ainda mais de longe pelo investimento (os 10% que faltam).
São duas ordens de preocupação. A primeira, já explorada aqui, diz respeito ao uso cada vez mais intenso dos recursos disponíveis, sem elevação da produtividade que permita a continuidade do processo. Esgotada a disponibilidade de mão de obra ociosa, não há como manter o ritmo de crescimento sem a colaboração preciosa do aumento do produto por hora trabalhada, o convidado de honra no festim, mas que não tem dado as caras há muito tempo.
Já a segunda diz respeito às forças que levam ao aumento do consumo, ambas oriundas de iniciativas do governo. Por um lado, a expansão do gasto público, principalmente o federal. Ainda que o Tesouro tenha conseguido aumentar a arrecadação, líquida de transferências a estados e município, em 280 bilhões de reais entre 2022 e os doze meses até junho de 2026, as despesas cresceram ainda mais, 485 bilhões, com valores expressos em reais a preços de junho deste ano.
“O que se percebe é a forte elevação do endividamento do governo e das famílias na origem do consumo”
Destes, 270 bilhões de reais se referem a maiores transferências a famílias (previdência, BPC, Bolsa Família, abono e seguro-desemprego), que ajudaram a impulsionar o consumo, mas às custas de piora do resultado primário do Tesouro, pouco mais de 200 bilhões de reais nesse intervalo. Nesse ambiente, a dívida saltou de 72% para 82% do PIB, impulsionando também as taxas de juros.
O outro vetor do aumento do consumo se origina dos fortes estímulos ao crédito, para “fazer a economia girar”, nas palavras do presidente. A contrapartida é o aumento da dívida das famílias, em particular o comprometimento da renda com pagamento de juros e principal. Não por outro motivo, a inadimplência nesse segmento é a maior da série histórica. Não deveria ser surpresa o surgimento de problemas nos segmentos mais expostos à saúde financeira do consumidor, em particular no varejo.
O que se percebe hoje, portanto, é a forte elevação do endividamento do governo e das famílias na origem do crescimento do consumo. Ainda que não haja um patamar mágico, que demarcaria a fronteira entre o sustentável e o insustentável, deve ficar claro que em nenhum dos casos o processo pode seguir indefinidamente.
Não há, portanto, como manter esse modelo de crescimento. Seja pelo seu efeito em termos de superaquecimento da economia (portanto, inflação), seja pelo aumento do risco associado ao endividamento público, ele acaba se materializando em taxas reais de juros que nem o setor público, nem o setor privado tem condições de suportar por muito mais tempo. Não se trata de uma decisão do BC — aliás, hoje sob comando de 100% de indicados pelo atual governo —, mas, sim, de resultado de políticas em última análise insustentáveis.
Os limites do modelo estão claros. O que não está claro é a disposição do governo que será eleito para alterar o quadro atual, sobretudo porque fazê-lo exigirá explicar à população que não há crescimento sustentável baseado na expansão permanente das dívidas do governo e das famílias.
Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009
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