o que deve influenciar no lucro das seguradoras nos próximos meses?

Os balanços do segundo trimestre de BB Seguridade (BBSE3), Porto (PSSA3) e Caixa Seguridade (CXSE3) trouxeram um denominador comum: lucratividade alta, sustentada por precificação disciplinada e juro elevado. O que diferenciou o desempenho de uma seguradora da outra foi o crescimento das receitas.

Para os próximos meses, a visão dos analistas é construtiva, apesar de riscos no radar como o fenômeno climático El Niño. Mas será que ainda vale a pena investir no setor? O Bora Investir consultou especialistas e traz detalhes a seguir.

Rentabilidade forte e sinistralidade em queda

Gregório Nissel, sócio e gestor da Rubik Capital, destaca três pontos que saltam dos balanços. O primeiro é a rentabilidade. Ele cita que a Porto entregou retorno sobre patrimônio líquido (ROE) de 22,3%, acima de 20% pelo oitavo trimestre consecutivo. Já a BB Seguridade segue entre as operações mais rentáveis da bolsa.

A Caixa Seguridade também seguiu este padrão. Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista, aponta que a seguradora entregou um ROE de 70,9%. “A BB Seguridade, apesar da queda do lucro no trimestre, cresceu 3,2% no semestre”, diz.

Outro fator que chamou a atenção é a sinistralidade controlada. A Brasilseg, braço da BB Seguridade, levou a sinistralidade a mínimas históricas, o seguro auto da Porto melhorou para 56,7% e a Caixa reduziu o índice no trimestre.

O colchão financeiro das seguradoras, diante de uma Selic de dois dígitos, também se destacou. Nissel explica que as seguradoras são beneficiárias do juro alto porque cobram prêmios, investem o caixa e entregam lucro mesmo quando alguma linha de negócio aperta.

Crescimento como sinal de alerta

Apesar dos sólidos fundamentos, os resultados do segundo trimestre também revelaram sinais de alerta.

Nissel aponta que nas três seguradoras alguma linha central de receita mostrou fraqueza, tendo como elo em comum o ciclo de crédito. Segundo o gestor, na Porto, as perdas de crédito do Porto Bank subiram 67% em um ano e derrubaram o lucro da vertical em 32%. Na BB Seguridade, os prêmios do seguro agrícola despencaram 42,5% com a crise do crédito rural. Na Caixa Seguridade, o prestamista recuou 10%.

“Famílias e empresas endividadas com juro alto compram menos seguro e pagam pior o crédito”, comenta Nissel.

Oliveira destaca que a Caixa depende muito do resultado financeiro, responsável por 35% do total e que a BB Seguridade não cumpriu o guidance (projeção) de prêmios da Brasilseg, por dificuldades na carteira rural, no prestamista e no vida.

“Não cumprir a própria projeção é algo pouco comum na BB Seguridade”, observa.

Milton Rabelo, analista da VG Research, acrescenta que a Porto também revisou suas projeções para 2026, por causa dos serviços bancários.

Os especialistas citam ainda que outro ponto de alerta é que o juro alto, que atualmente sustenta os balanços, e que vai encolher como colchão de segurança conforme a Selic cai.

O que esperar no segundo semestre?

Mesmo diante da queda gradual de juros, a visão dos especialistas consultados pelo Bora Investir é otimista para as seguradoras. Para Nissel, da Rubik, a Selic em dois dígitos mantém o resultado financeiro forte por mais tempo, enquanto a demanda por seguros e crédito retoma.

Oliveira, do Vida de Acionista, projeta crescimento sólido e pouca turbulência para as seguradoras.

Já Rabelo, da VG, espera bons resultados, mas com possível deterioração na BB Seguridade (BBSE3) e um segundo semestre mais desafiador para a vertical bancária da Porto.

Ainda em relação a BB Seguridade, Nissel enxerga qualidade operacional e dividendos robustos. Na visão do gestor, os proventos de R$ 3,8 bilhões anunciados recentemente são prova disso, apresentando o dividend yield (retorno em dividendos) mais alto do setor, assim como um valuation (avaliação) descontado frente à Caixa Seguridade.

Mas também existem riscos no radar para a BB Seguridade, como o agronegócio que pode reduzir os prêmios da seguradora ou o crescimento atrelado ao ritmo do canal bancário.

Na Porto, os especialistas notam uma vantagem estrutural. O motivo é que os seguros cresceram com rentabilidade de 33%, enquanto a vertical de saúde avançou 36%, compensando um trimestre difícil para a Porto Bank. Nissel lembra que as receitas totais avançaram 11%, maior crescimento entre as seguradoras.

“Porto é a única empresa com motor próprio de expansão”, afirma o gestor da Rubik, que vê no crédito do banco o risco central.

Oliveira lembra que, seja com taxa Selic em 2% ou em 15%, a Porto entrega resultados robustos. “Na última década, a receita da seguradora nunca caiu” diz.

Para a Caixa Seguridade, as vantagens estão no segmento habitacional, que cresceu 14% acoplado à liderança da Caixa Econômica Federal no crédito imobiliário. Outro diferencial é o payout (parcela do lucro líquido destinada a proventos) de 92%.

Já entre os riscos, os especialistas destacam o valuation esticado, a dependência da Caixa Econômica Federal como único canal para vender seguros e o baixo free float (ações em livre circulação de mercado), o que pode dificultar as vendas dos papéis.

O impacto de El Niño nas seguradoras

O fenômeno climático já confirmado com probabilidade alta de persistir até o começo de 2027 pode impactar as seguradoras de diversas formas, mas para alguns especialistas os lucros e receitas serão resilientes. Há chances elevadas de uma intensidade muito forte do El Niño entre a primavera e o verão, afetando o plantio da safra 2026/2027.

O El Niño deve seguir um padrão, com excesso de chuvas no Sul e seca e calor no Centro-Norte. Para cada seguradora, contudo, o impacto será diferente. Segundo os agentes de mercado, a BB Seguridade é a mais exposta, principalmente no segmento rural.

Rabelo explica que El Niño vai desregular o regime de chuvas, gerando secas no Centro-Oeste, Matopiba ou granizo nas colheitas do Sul, fazendo com que a sinistralidade do seguro agrícola e do penhor rural dispare.

Nissel avalia que os efeitos do fenômeno climático vão se concentrar entre o quarto trimestre e o primeiro semestre de 2027.

No caso da Porto, a exposição é indireta, via seguro auto e patrimonial, por conta de tempestades e alagamentos no Sul e Sudeste, onde se concentra a frota e apólices, elevando os sinistros. Contudo, Rabelo pondera que o seguro auto se recupera e reprecifica muito mais rápido do que o agro, com ajustes possíveis na apólice.

Em relação a Caixa Seguridade, Rabelo destaca que por estar muito exposta aos seguros Habitacional, Prestamista e Vida, tende a ser pouco impactada pelo El Niño.

Na visão de Oliveira, o impacto no lucro pode ser mínimo. O analista aconselha diferenciar o que é um impacto imprevisto daquele que é previsível. “Quando já é sabido do risco à frente, diversas medidas podem ser feitas para mitigar os efeitos negativos”, avalia.

Sobre BB Seguridade, Oliveira lembra que El Niño não é duradouro e que a empresa possui uma receita diversificada.

Nissel cita ainda outra perspectiva, eventos severos como El Niño podem acelerar a demanda por proteção. “O sinistro de hoje tende a virar o prêmio de amanhã”, comenta.

Dividendos de seguradoras

As seguradoras também se destacam na bolsa pelo seu sólido pagamento de proventos. Oliveira aponta que pelo seu modelo de negócios, não faz sentido uma seguradora reter tanto capital, o que acaba favorecendo o investidor. “São companhias asset light, evitam ter grandes bens físicos e operam com custos baixos”, diz.

Rabelo concorda e reforça que seguradoras são fortes geradoras de caixa, com payouts que na Caixa Seguridade e BB Seguridade, chegam a 95% do lucro há alguns anos.

Contudo, os perfis de pagamento de cada empresa são distintos. A BB Seguridade possui o dividend yield (retorno em dividendos) mais alto do setor, porque cresce menos. Mas Nissel questiona a sustentabilidade desses dividendos diante dos prêmios rurais em queda.

Já a Caixa Seguridade combina payout elevado de 92% com o crescimento da linha habitacional. O dividend yield é intermediário, próximo de 7%, mas com lucro em expansão.

Enquanto a Porto distribui menos do que os pares porque reinveste nas verticais em expansão e o retorno ao acionista vem mais da valorização dos papéis.

“Para renda imediata, BB Seguridade e Caixa Seguridade entregam mais hoje. Para renda crescente ao longo dos anos, o motor de crescimento importa tanto quanto o payout”, observa o gestor da Rubik Capital.

Como escolher uma seguradora para investir

Oliveira aconselha não se prender ao lucro líquido, mesmo que este seja a fonte dos proventos. Para ele, é preciso diferenciar o que é resultado operacional do financeiro. Outra dica é comparar a sinistralidade da companhia com o seu próprio histórico e não com os concorrentes, além de entender que prêmio emitido não mede eficiência.

O analista cita ainda quatro indicadores que o acionista deve acompanhar: sinistralidade e índice combinado, crescimento de prêmios sem prejudicar as margens, ROE recorrente e proventos sustentáveis.

Nissel acrescenta outros fatores. Um deles é a exposição setorial dos prêmios das seguradoras, já que concentração excessiva em um único clico é o principal risco invisível do setor.

O terceiro aspecto é o canal de distribuição. Quando há exclusividade bancária para distribuir seguros o custo é baixo, mas o crescimento fica limitado ao banco. O gestor destaca ainda que o histórico de sinistralidade em anos ruins revela mais coisas do que o indicador no último trimestre.

Rabelo acrescenta o preço da ação como filtro final, que pode fazer muita diferença no retorno em dividendos.

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