Quando amigos e vizinhos também são cuidadores dos idosos – 26/08/2026 – Equilíbrio

Durante vários anos, Nicole Straight e Patricia Wood, que moravam uma em frente à outra em Sausalito, na Califórnia, foram mais vizinhas do que amigas: trocavam cumprimentos cordiais e, de vez em quando, tomavam um café juntas.

Então, em outubro passado, Wood caiu, quebrou o pescoço e passou três meses em reabilitação. Quando voltou para a casa onde mora com a sobrinha, já não conseguia andar sem ajuda. “Ainda não me atrevo a subir ou descer escadas sem alguém ao meu lado”, diz Wood, 93.

Isso redefiniu a relação de vizinhança entre elas. Straight, 53, chef de cozinha aposentada, agora a visita toda semana, levando cafés com leite e biscoitos, além, muitas vezes, de sobras dos jantares que prepara. O marido dela instalou uma barra de apoio no banheiro de Wood, colocou prateleiras e trocou lâmpadas e pilhas dos detectores de fumaça. As mensagens não param de ir e vir.

Straight liga para dizer: “Estou indo ao supermercado. Você precisa de alguma coisa?”. Wood, que não dirige mais, passa uma lista de compras.

“Ela é um presente dos céus”, diz Wood, executiva aposentada do setor de seguros. “Conversamos sem parar. Às vezes derramamos algumas lágrimas, mas, na maior parte do tempo, rimos. Nunca imaginei que teria uma nova melhor amiga nesta fase da vida.”

O cuidado de idosos, geralmente considerado uma obrigação familiar, está evoluindo para se adaptar a mudanças demográficas que tornam menos garantido o apoio de cônjuges e filhos.

“O número de idosos que nunca se casaram ou que são divorciados vem aumentando, por isso temos mais pessoas envelhecendo sozinhas”, diz Deborah Carr, socióloga da Universidade de Boston que estuda essas tendências.

“A proporção dos que não têm filhos, por escolha ou não, também está crescendo”, acrescenta ela, e as famílias que têm filhos hoje têm menos do que nas gerações anteriores.

As distâncias geográficas e os rompimentos familiares também ajudam a alimentar a necessidade de outros tipos de cuidadores —funções que podem ser desempenhadas por amigos ou vizinhos.

Com que frequência os amigos preenchem essas lacunas no cuidado? Um estudo publicado recentemente no Jama Network Open, conduzido por pesquisadores da Universidade de Michigan, investigou amigos e vizinhos que atuam como cuidadores, geralmente em funções complementares.

Os pesquisadores usaram dados do Estudo Nacional sobre Tendências de Saúde e Envelhecimento (nos EUA), no qual mais de 2.600 idosos com limitações de saúde — com idade média de 79 anos — identificaram amigos e familiares que lhes prestavam ajuda.

Os familiares eram os mais propensos a cuidar de parentes idosos, mas cerca de 14% dos participantes também mencionaram amigos, incluindo vizinhos. Isso representa 2,4 milhões de amigos cuidadores em todo o país, estimaram os autores.

No ano passado, uma pesquisa nacional da AARP e da National Alliance for Caregiving estimou em 11% a proporção de cuidadores que davam apoio a pessoas sem laços de parentesco.

“Os amigos estão entre os cuidadores auxiliares cujo papel não tem sido reconhecido”, diz Karen Fingerman, gerontóloga da Universidade do Texas em Austin e coautora de um comentário publicado com o estudo. “Ignoramos os sacrifícios que fazem.”

O estudo, que se acredita ser a primeira análise em âmbito nacional dos EUA sobre amigos cuidadores, constatou que eles atuavam de maneira diferente dos parentes. Por exemplo, é improvável que morem com a pessoa que ajudam e raramente são seus únicos cuidadores.

“Eles dedicam menos horas ao cuidado”, diz Yee To Ng, gerontólogo e principal autor do estudo, que constatou que os amigos prestavam, em média, 18 horas de ajuda por mês, em comparação com cerca de 67 horas prestadas por familiares.

Eles também ajudam de formas diferentes. “Os amigos têm maior probabilidade de ajudar com o transporte”, diz Ng. Dois terços dos amigos cuidadores levam seus amigos de carro; fazer compras, ajudar as pessoas a sair de casa, preparar refeições e acompanhar pacientes a consultas médicas completam a lista das cinco tarefas mais comuns.

Às vezes, fazem mais. Czes Ferrino, 82, é viúva e mora sozinha em Westerly, Rhode Island. Ela não tem nenhum problema de saúde incapacitante, mas, quando seu carro quebrou de vez recentemente, o vizinho ao lado a acompanhou a várias concessionárias Subaru para encontrar um veículo usado. “Ele me orientou em tudo, como um filho faria por sua mãe ou avó”, diz Ferrino.

Por outro lado, “há algumas tarefas para as quais os amigos talvez não estejam bem preparados ou com as quais não se sintam à vontade”, diz Ng. Os cuidados pessoais, como dar banho e ajudar a se vestir, continuam sendo, em grande parte, responsabilidade dos familiares.

“Isso pode ferir a autoestima das pessoas”, diz Ng. “Com a família, aceitamos que, quando você está muito doente, os parentes assumam atividades íntimas. É constrangedor ter amigos ajudando você a usar o banheiro.”

Os pesquisadores também constataram que os entrevistados que mencionaram amigos como cuidadores eram mais jovens do que aqueles que só tinham parentes nessa função e tinham maior probabilidade de possuir diploma universitário. Pessoas com níveis mais altos de escolaridade têm redes sociais maiores, diz Fingerman.

Aqueles que recebiam ajuda de amigos também tinham, sem surpresa, menor probabilidade de ser casados e maior propensão a morar sozinhos — como Ann Greenwater, 84, que vive em um parque de casas móveis na zona rural do condado de Humboldt, na Califórnia.

Ela se virou sozinha até alguns anos atrás, quando uma forte dor nas costas a deixou de cama por quase três meses. Embora agora já esteja de pé e circulando, e consiga cuidar da casa, cozinhar e se ocupar dos cuidados pessoais, “nunca me recuperei completamente”, diz Greenwater.

Ela é solteira, não tem familiares além de um sobrinho distante que mal conhece e parou de dirigir. Mas um grupo de amigos que conheceu em um centro zen-budista próximo entrou em ação.

Milli Quam, 86, lava as roupas dela e as entrega em sua casa, às vezes aproveitando o caminho para buscar medicamentos. Uma amiga de 73 anos ajudou Greenwater com o computador e, juntamente com várias outras pessoas, leva-a para fazer compras ou compra em seu lugar. Integrantes de uma organização local de voluntários a levam às consultas médicas.

“Eu amo Ann e fico feliz por haver algo concreto que eu possa fazer”, diz Quam. “Espero poder continuar fazendo isso por muito tempo.”

Os amigos têm algumas vantagens como cuidadores. “Nossos amigos têm a nossa idade e entendem o que estamos enfrentando”, diz Carr. “Talvez tenham mais empatia e, às vezes, conhecimentos reais que adquiriram.” Quando familiares atuam como cuidadores, a ajuda dos amigos pode aliviar a carga deles.

Mas os amigos também podem se revelar uma fonte de ajuda menos estável. Vizinhos se mudam. Podem surgir tensões se a pessoa que precisa de cuidados se tornar exigente demais ou se sentir culpada por aceitar ajuda, contrariando a expectativa de igualdade nas amizades. Essas tensões podem agravar a depressão entre pessoas com limitações físicas, constatou um estudo liderado por Carr.

Também há pouco apoio de políticas públicas para essas relações de cuidado. A lei federal de licença familiar e médica dos Estados Unidos, por exemplo, “com raras exceções, não garante afastamento do trabalho com proteção do emprego para cuidar de um amigo com um problema grave de saúde”, afirma Laura Lawless, advogada trabalhista do escritório Squire Patton Boggs.

“Quando se trata de família, a expectativa é estar junto ‘na saúde e na doença’”, diz Carr. “Há um enorme estigma associado ao rompimento com a família, mas é considerado relativamente normal que algumas amizades simplesmente se desfaçam.”

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