Se a associação entre a ilha de Chipre, as pombas e a deusa Afrodite parece um completo despropósito aos seus olhos, é porque provavelmente você não tem a mesma fixação insensata pela Grécia Antiga da qual sofre este escriba. No meu caso, feliz ou infelizmente, bastou bater o olho num novo estudo para que tudo se encaixasse.
Resumo da ópera: dados de um sítio arqueológico cipriota sugerem que a domesticação das pombas (Columba livia) pode ter recebido um empurrãozinho ritualístico/religioso para acontecer, talvez ligado ao culto de uma divindade que acabaria sendo conhecida como Afrodite entre os gregos da época clássica. É, eu sei que parece maluquice, mas veja comigo se não faz sentido.
A pesquisa a que me refiro saiu recentemente na revista especializada Antiquity e é assinada por uma equipe da Universidade de Groningen, na Holanda, liderada pela zooarqueóloga Canan Çakırlar. Ela e seus colegas estudaram a localidade de Hala Sultan Tekke, que fica a sudeste de Nicósia, a capital cipriota.
Na Idade do Bronze tardia (entre 1650 a.C. e 1150 a.C.), o lugar era um porto movimentado e cosmopolita, com gente do Mediterrâneo Oriental inteiro passando por ali. Uma coisa que chamou a atenção dos pesquisadores no conjunto de restos de fauna no local foi a relativa abundância de ossos de aves e, mais especificamente, de pombas.
Por enquanto, ainda não está claro quando as aves passaram a ser criadas deliberadamente pela nossa espécie. A hipótese mais aceita é que o relacionamento delas com os seres humanos começou de um jeito não muito diferente da rotina que elas ainda levam em parques e praças mundo afora: uma vida de comensais, isto é, de bichos que se aproveitam da abundância de sobras de comida e dos abrigos representados pelas construções humanas.
Esse cenário pode ter sido o caso de Hala Sultan Tekke. Os restos de 55 pombas achados no sítio representam tanto adultos quanto filhotes, alguns bem novinhos, o que, no mínimo, indica que elas estavam se reproduzindo no local. O tamanho das aves é, no geral, maior do que o que se espera em espécimes selvagens (as pombas domesticadas têm tamanho médio maior), embora haja muita variação dentro da espécie.
Por outro lado, e é aqui que a coisa começa a ficar interessante, muitos dos ossos de C. livia foram achados num recinto que continha uma mesa de pedra e um altar para sacrifícios religiosos –os restos das pombas foram enterrados juntos com os de outros animais, também com marcas de queima. E alguns outros ossos das aves estavam em covas ao lado de túmulos.
Por fim, a análise da composição química dos ossos revelou uma dieta homogênea e mais rica em proteínas do que o esperado para pombas selvagens –uma possível indicação de que as aves estariam recebendo alimentação relativamente padronizada em condições confinadas. Seria, portanto, um indício de domesticação.
E onde entra Afrodite nessa história? Bem, a tradição mitológica grega, em algumas de suas vertentes, diz que ela teria nascido em Chipre, onde era objeto de um culto especial. Suas imagens muitas vezes eram acompanhadas das de pombas, e dizia-se até que o animal (“peristerá”, em grego) teria surgido quando uma ninfa (divindade menor) do séquito da deusa, chamada Peristera, foi transformada nessa ave.
Coincidência ou não, estatuetas de pombas se tornam comuns em Chipre alguns séculos antes dos sacrifícios das aves em Hala Sultan Tekke. A associação entre uma deusa do amor e da fertilidade e o culto cipriota pode ter vindo da Mesopotâmia ou da atual costa de Israel e do Líbano, áreas que estavam em contato comercial com a ilha ao longo de boa parte da Idade do Bronze.
A única pista que falta ao estudo é a presença de um pombal ou columbário para abrigar os bichos. Seja como for, os dados são intrigantes. Talvez seja mesmo o caso de pedir a ajuda da deusa cipriota –ou maldizer o nome dela– da próxima vez que uma pomba mais abusada carimbar o seu carro.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Fonte: Link da fonte















