Quando a família de um presidente dos EUA quase governou um pedaço do atual território brasileiro – 27/08/2026 – Rodrigo Tavares

Desde que é presidente, o patriarca Donald Trump incita a sua estimada estirpe familiar a banquetear-se com as prerrogativas e os instrumentos do Estado para prosperarem os seus interesses privados e corporativos.

Nesta economia familiar, o genro Jared Kushner participa de negociações internacionais no Oriente Médio enquanto permanece à frente da Affinity Partners, gestora de investimentos financiada em larga medida por capital de fundos soberanos do Oriente Médio. Coexistem assim, no mesmo indivíduo e com invejável bonomia, o emissário do presidente dos EUA, o genro do presidente e um gestor de fundos de investimento.

É tentador julgar esta promiscuidade americana entre o poder e o proveito como um vício original e exclusivo da era Trump. A tradição é mais antiga e passa pelo Brasil.

No início do século 20, as selvas do Acre eram bolivianas de direito, mas brasileiras de fato, povoadas por multidões que ali extraíam o leite da borracha. O território tinha adquirido enorme valor econômico. Sem capacidade para governar efetivamente a região remota, La Paz decidiu entregar sua administração por 30 anos a um consórcio de investidores estrangeiros, o Bolivian Syndicate, também conhecido administrativamente como Bolivian Syndicate of New York City. Reunia as empresas Cary & Withridge, United States Rubber Company e Export Lumber, além de várias instituições financeiras.

O Syndicate recebeu prerrogativas normalmente reservadas a governos. Poderia administrar receitas, explorar recursos, controlar atividades econômicas e organizar instrumentos próprios de segurança, como manter uma polícia e uma força armada. Um Estado dentro do Estado. Entre os investidores estava William Emlen Roosevelt, banqueiro de Nova York, primo próximo e conselheiro financeiro de Theodore Roosevelt, então presidente dos EUA.

Tal como, no primeiro governo Trump, o conselheiro jurídico da Casa Branca, Don McGahn, se inquietou com a viscosidade que unia os negócios de Kushner às suas funções públicas, também, em 1902, o secretário de Estado John Hay discutiu o caso diretamente com Roosevelt através de uma carta disponível na Biblioteca do Congresso. Escreveu Hay que caso o governo americano acudisse com excessivo zelo ao Bolivian Syndicate e aos seus “very prominent citizens of New York”, o Brasil poderia concluir que a empresa não passava de um instrumento do próprio governo americano.

A Bolívia fazia essa leitura. Documentos da época mostram que seu representante em Washington acreditava que os promotores do sindicato poderiam contar com apoio americano se encontrassem resistência. A Bolívia tinha aberto o seu território a um grupo privado estrangeiro porque queria o apoio da República americana na questão do Acre. Esse respaldo implícito era parte do valor do negócio.

Foi justamente isso que alarmou o Brasil. Theodore Roosevelt era, tal como Trump, um diletante da força e um intervencionista convicto. Nos anos seguintes, apadrinharia a separação do Panamá da Colômbia e formularia o famoso Corolário à Doutrina Monroe, reivindicando para Washington o papel de xerife de todo o continente.

Após visita ao Departamento de Estado americano, em 1902, para tentar entender a situação, o embaixador brasileiro em Washington, Assis Brasil, escreveu um ofício ao ministro das Relações Exteriores: “Os homens de dinheiro podem muito neste país; e os do Sindicato o são; eles conseguiram (provavelmente do presidente) que ao menos uma pressão moral fosse exercida sobre o Brasil. A grande questão desses homens não é tanto de levar adiante a empresa como de ganhar dinheiro.”

Na região acreana sob soberania boliviana, a realidade era tensa. Havia levantes, tropas improvisadas, seringalistas armados, e governos que mandavam pouco, lançando a região numa atmosfera densa de confusão e ameaça. Vendo a crise azedar para lados perigosos, o industrioso Emlen Roosevelt apressou-se a escrever ao primo presidente. Queria desatar os laços com o Bolivian Syndicate para —como reza a correspondência guardada nos arquivos de Theodore Roosevelt— manter o seu nome longe dos jornais. No arquivo, encontramos várias outras cartas trocadas entre os dois sobre a Bolívia e o Brasil, em tom de intimidade familiar.

O nó górdio acabou desatado por José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco. Ao assumir o Ministério das Relações Exteriores, em dezembro de 1902, no governo do presidente Rodrigues Alves, cuidou logo de retirar o Bolivian Syndicate da equação geopolítica. Antes mesmo de entrar efetivamente em funções, o consórcio conformou-se em abrir mão de todas as suas prerrogativas territoriais pela módica quantia de 110 mil libras esterlinas. E quem foi o intermediário do negócio? Nada menos que a ilustre família Rothschild —a mesma casa bancária que já lucrara generosamente com a própria independência do Brasil, emprestando-lhe o capital necessário para comprar a alforria do Reino de Portugal, como tive oportunidade de recordar nesta coluna.

Só depois de neutralizada essa presença de um grupo privado pôde o Brasil conduzir o litígio diretamente com o governo da Bolívia, selando a paz definitiva com a assinatura do Tratado de Petrópolis, em novembro de 1903. Habituámo-nos a narrar a incorporação do Acre como uma epopeia heroica —um levante popular de bravos brasileiros sob o comando de Plácido de Castro e um triunfo glorioso da diplomacia nacional. A narrativa não é falsa, mas é incompleta. O Brasil pagou para arrematar a questão, primeiro ao sindicato e depois dois milhões de libras à Bolívia.

Mas o nepotismo não é uma tradição exclusiva de alguns presidentes americanos. Na história brasileira, tampouco escassearam primos, filhos e genros a descobrir que a proximidade do poder pode ser rentável. O próprio Rio Branco levou o filho Raul para o seu gabinete, onde trabalhou entre 1905 e 1911. E Rodrigues Alves também nomeou o próprio filho, Francisco de Paula, secretário da Presidência assim que tomou posse, em novembro de 1902. São as ironias da história e o nepotismo faz parte dela.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Fonte: Link da fonte

Tags

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore