O fundo britânico de investimentos em empresas Appian Capital diz que a exploração de terras raras no Brasil é algo que está no radar do grupo, e a ausência de um projeto no portfólio não é sinal de que novas oportunidades não estejam sendo mapeadas.
Segundo Milson Mundim, executivo à frente da Appian no Brasil, o Ocidente ainda tem uma posição “embrionária” nas tecnologias necessárias para prosperar no setor, dominado pela China.
Prova disso, ele diz, é que hoje só existe uma mina em operação hoje no Brasil, a Serra Verde, que fica em Goiás e foi recentemente adquirida por um grupo dos EUA —com recursos do Departamento de Defesa americano.
“[As terras raras] Estão no radar, sim, mas digamos que numa segunda escala de prioridade em relação aos minerais de transição e minerais básicos”, afirma Mundim.
As terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos de difícil extração e refino. Alguns deles desempenham papel fundamental em empreendimentos de transição energética, sistema de defesas e novas tecnologias.
A China responde por cerca de 90% da produção global desses materiais. O domínio não é apenas na extração, mas no refino e nas aplicações mais avançadas desses minerais.
O Brasil é rico em terras raras —a segunda maior reserva do mundo—, e tem atraído uma corrida global, com Estados Unidos, China e União Europeia disputando acesso aos minerais.
Ao mesmo tempo, diante da importância geopolítica que o setor ganhou, o Congresso Nacional discute uma política nacional de minerais críticos e terras raras, com a possibilidade de impor limites à participação estrangeira em projetos no Brasil.
Mundim lembra que a mineração de terras raras exige sondagem rigorosa para determinação de reservas e estudos complexos de engenharia. Segundo o executivo, projetos levam de dez a 15 anos para se concretizar, o que ajuda a explicar a atual “fase de maturação” da Appian no setor de terras raras.
“Temos alguns projetos no forno, mas que estão em confidencialidade”, diz. “O fato de não estarmos saindo do forno com um projeto de terras raras não quer dizer que não estejamos olhando”.
Folha Mercado
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A declaração do executivo vem num momento em que o Brasil discute a criação de filtros e travas aos investimentos estrangeiros em terras raras no Brasil.
O Congresso prevê votar na próxima semana o projeto de lei que institui uma política nacional de minerais críticos e terras raras.
Na avaliação de Mundim, o objetivo primordial de qualquer legislação para o setor mineral deveria ser a garantia de estabilidade e previsibilidade para atrair capital de longo prazo.
Por isso, ele diz que os debates sobre soberania e controle estatal para troca de controle acionário geram desconfiança generalizada entre os investidores externos.
“Esse é um elemento que traz instabilidade na visão dos investidores”, diz.
A Appian é um fundo de private equity britânico que controla mineradoras que atuam com minerais estratégicos no Brasil. O principal projeto está no sul da Bahia, por meio da Atlantic Nickel, que produz níquel sulfetado —insumo essencial para a produção de baterias de veículos elétricos.
Hoje, os esforços estão concentrados na transição da operação a céu aberto para a exploração subterrânea da mina.
A perspectiva é investir R$ 3,3 bilhões para ampliar a vida útil da mina em 30 anos e expandir a produção anual de 15 mil toneladas de níquel contido para 24 mil toneladas. O projeto se tornará a maior mina subterrânea da América Latina.
Enquanto isso, a companhia vem aperfeiçoando o desempenho financeiro no Brasil. No primeiro semestre de 2026, a Atlantic Nickel teve receita de R$ 833 milhões, alta de 33% em relação ao mesmo período do ano passado. O Ebitda (indicador de geração de caixa) foi de R$ 339 milhões, aumento de 82%.
Segundo Mundim, o “segredo” da Appian é enxergar um projeto viável onde outras companhias não veem.
Além da operação de níquel na Bahia, o fundo britânico tem focado outro projeto no Brasil: uma exploração de grafite no Vale do Jequitinhonha (MG), onde atua por meio da empresa Graphcoa.
Segundo o diretor-executivo Ricardo Alves, a companhia acaba de concluir seu estudo de viabilidade definitivo, documento que valida as premissas técnicas, ambientais, operacionais e econômicas do negócio.
O empreendimento prevê investimentos de R$ 700 milhões para a implantação de uma unidade industrial com capacidade superior a 50 mil toneladas anuais de concentrado de grafite.
Grafite é um dos componentes fundamentais para a produção de baterias de carros elétricos e outros componentes ligados à transição energética.
A expectativa da Appian é que o projeto do Vale do Jequitinhonha se torne um dos maiores produtores da commodity no país.
RAIO-X | ATLANTIC NICKEL
- Fundação: 2018 (antes, era conhecida como Mirabela Nickel)
- Faturamento 1º semestre 2026: R$ 833 milhões
- Ebitda 1º semestre 2026: R$ 339 milhões
- Capacidade de produção: 15 mil toneladas de níquel contido
- Concorrentes no Brasil: Vale e Anglo American
O jornalista viajou a convite da Appian Capital Brazil
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