Vida de Alan Turing ganha contornos mais ricos em conto – 28/08/2026 – Ciência

Muitas pessoas talvez conheçam Alan Turing como o matemático britânico que ajudou a decifrar o código nazista Enigma, considerado impenetrável, durante a Segunda Guerra Mundial. Outras talvez o reconheçam como o pai da computação moderna, que anteviu a ascensão da inteligência artificial. E o público contemporâneo pode imaginar Turing como Benedict Cumberbatch, que o interpretou no filme “O Jogo da Imitação”, de 2014.

Mas o que muitos talvez não soubessem é que Turing também era um talentoso escritor de ficção, com um lado brincalhão, segundo Sarah Dillon, professora de literatura inglesa na Universidade de Cambridge. A docente transcreveu um conto escrito por ele perto do fim da vida.

Até agora, afirmou Dillon, eram “principalmente acadêmicos bastante nerds que sabiam da existência” da obra literária de Turing.

Trechos do conto haviam sido transcritos para diferentes livros e biografias, porém a obra completa era praticamente ilegível. Com a transcrição feita por Dillon, o texto de ficção inacabado, de cerca de mil palavras, pode ser lido pelo grande público.

O conto, “Pryce’s Buoy”, está preservado em um arquivo da Universidade de Cambridge. Após aproximadamente mil palavras e seis páginas, a obra termina abruptamente com as palavras “Ron não faria isso”.

As demais páginas, se é que existiram, perderam-se na história, segundo Dillon.

A professora acrescentou que a imagem pública de Turing, em parte influenciada pelo filme “O Jogo da Imitação”, não era plenamente compreendida. “Trabalhar no conto fez parte do esforço para resgatar uma narrativa diferente sobre Turing.”

Em 1952, o matemático foi condenado por ser homossexual, o que era considerado ilegal na Grã-Bretanha na época. Em vez de cumprir pena de prisão, foi sentenciado à castração química por meio de uma série de injeções de hormônios femininos. Em razão da condenação, também perdeu sua autorização de segurança para trabalhar com criptografia para o governo britânico.

Dillon afirmou que Turing provavelmente escreveu “Pryce’s Buoy” depois da prisão dele, no fim de 1952 ou no início de 1953. A obra de ficção conta a história de Ron Miller, um trabalhador do sexo da classe operária, e Alec Pryce, um cientista gay famoso por uma invenção que criou quando era mais jovem.

“O personagem Alec é claramente autoficcional”, disse Dillon em um comunicado à imprensa. “Ele representa o próprio Turing.”

Na história, Alec sai à procura de um jovem. Turing escreveu: “Ron chamou a atenção de Alec e lhe deu um sorriso sem entusiasmo. Mas foi o bastante”.

Turing morreu em 7 de junho de 1954, aos 41 anos. A Grã-Bretanha só deu os primeiros passos para descriminalizar a homossexualidade em 1967.

Na época, seu trabalho como um dos mais influentes decifradores de códigos da Segunda Guerra Mundial permanecia sob sigilo.

Em 2009, o governo britânico pediu desculpas, e o então primeiro-ministro Gordon Brown classificou o tratamento que ele recebeu como “estarrecedor” e “completamente injusto”.

“Pedimos desculpas, você merecia algo muito melhor”, afirmou Brown na ocasião.

Depois, em 2013, Turing recebeu o perdão da rainha Elizabeth 2ª.

Um médico-legista concluiu que Turing morreu por envenenamento por cianeto e que tirou a própria vida “enquanto estava com suas faculdades mentais perturbadas”. Desde então, porém, estudiosos vêm debatendo se Turing não teria morrido acidentalmente.

“Pryce’s Buoy” apresenta uma visão alternativa do matemático em seus últimos anos de vida, de acordo com Dillon.

“Embora tenha sido processado por sua homossexualidade, ele nunca se envergonhou disso. Era um homem gay orgulhoso.”

A história parece indicar que Turing continuava viajando, mantendo relacionamentos e encontrando os amigos, mesmo após sua condenação, acrescentou a professora de Cambridge.

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