Comentei aqui na semana passada que experimentos recentes sugerem que o sentido dos números talvez seja inato na nossa espécie: desde muito cedo, extraímos informações numéricas das nossas impressões sensoriais, sem nem pensar, com a mesma naturalidade com que apreendemos as cores dos objetos que vemos.
Sendo assim, quais são os mecanismos intrínsecos do nosso cérebro em que se baseia a nossa percepção dos números, independentemente da linguagem e da cultura? Para buscar responder a essa pergunta, pesquisadores da Universidade de Trento, na Itália, analisaram a atividade cerebral de um grupo de 21 bebês, com até três dias de idade, quando expostos a diferentes estímulos numéricos.
Experimentos com bebês tão pequenos são difíceis, claro, para começar porque eles dormem o tempo todo, seus períodos de consciência são muito curtos. Cada criança foi equipada com uma touquinha contendo sensores que permitem monitorar impulsos elétricos no cérebro. Nos períodos em que cada bebê estava desperto, com os olhos abertos, os pesquisadores tocavam áudios repetindo o mesmo som (por exemplo, “la”) 4 ou 12 vezes e, ao mesmo tempo, mostravam imagens contendo 4 ou 12 pontos.
O monitoramento elétrico mostrou que a atividade na região do cérebro que percebe e organiza a informação sensorial era menor quando o número de sons coincidia com o número de pontos e aumentava quando os números de sons e de pontos diferiam. Como se o bebê ficasse mais alerta quando havia divergência das duas informações, auditiva e visual, e desse uma relaxada nos outros casos.
Esse tipo de comportamento é bem conhecido em adultos: quando sujeito a estímulos repetitivos, o nosso cérebro reduz a sua atividade, como se estivesse dando menos importância para a informação. Trata-se de uma vantagem adaptativa que permite ao nosso cérebro funcionar com mais eficiência, liberando recursos cognitivos para situações em que há alteração das condições à nossa volta.
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Um aspecto especialmente intrigante da pesquisa sobre o desenvolvimento do sentido dos números em crianças pequenas tem a ver com o que esse desenvolvimento nos diz sobre a relação futura da criança com a matemática. Outro grupo de pesquisadores, da Universidade de Pádua, analisou o estágio de desenvolvimento do sentido numérico em 60 crianças de 1 ano e comparou-o com o domínio de conceitos matemáticos básicos por parte de 40 dessas mesmas crianças três anos depois.
O principal resultado do estudo foi que há uma forte correlação entre esses dois momentos: “a compreensão dos números aos 12 meses é um bom preditor do talento matemático aos 4 anos, mesmo quando descontamos aspectos como inibição, inteligência geral e capacidades de percepção”.
Uma das possíveis aplicações desses estudos é na prevenção de disfunções matemáticas como a discalculia, um transtorno de aprendizagem de base neurológica que afeta a capacidade de compreender, processar e manipular números e conceitos matemáticos: “a implementação neuronal do sentido do número à nascença é a base para o posterior desenvolvimento de funções matemáticas avançadas, e mais avanços nesta área permitirão encontrar biomarcadores neuronais precoces do risco de discalculia”, afirmam os pesquisadores.
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