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O Brasil consolidou-se como um dos maiores mercados globais de eventos, transformando multidões em negócio. Com recordes de empregos e arrecadação bilionária, o setor se profissionalizou após a pandemia. Agora, enfrenta o desafio de sustentar o crescimento expressivo sem os incentivos do programa federal Perse.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
O Brasil aprendeu a transformar multidões em negócio e, com isso, se tornou um dos principais mercados globais de eventos. O portfólio se espalha sobre praticamente todos os setores da economia: do retorno do tradicional Salão do Automóvel às feiras de tecnologia e agronegócio, dos festivais de música aos encontros de games, passando por congressos médicos, convenções corporativas, fóruns de investimento, festivais esportivos e reuniões empresariais. Os números confirmam o notável aquecimento do setor. Nos dois primeiros meses do ano, os eventos no país empregaram diretamente 205 000 pessoas e arrecadaram 25,3 bilhões — é o maior nível da série histórica iniciada em 2019, antes da pandemia, segundo levantamento realizado pela Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape). Considerando a cadeia mais ampla — turismo, hotelaria, alimentação e serviços —, são 4,3 milhões de trabalhadores vivendo, direta ou indiretamente, do calendário dessa área. “Somos indutores de atividade econômica”, afirma Doreni Caramori Júnior, presidente da Abrape. A pandemia, embora tenha sido catastrófica para os profissionais do segmento, teve um efeito surpreendente. Isso porque, superada a quarentena, as atividades presenciais passaram a ser cada vez mais valorizadas. “Houve, como consequência, o fomento a um ciclo de profissionalização e investimentos significativos no setor”, diz Caramori.
Boa parte desse avanço se explica pela força dos encontros corporativos. Feiras, convenções e congressos deixaram de ser apenas vitrines de marcas ou espaços de relacionamento. Hoje, ocupam um papel central na estratégia das empresas. Depois dos tempos marcados pelo trabalho remoto e pela dispersão das equipes, os eventos presenciais ganharam importância como ferramenta para gerar negócios, fortalecer vínculos e criar oportunidades. É por isso que encontros empresariais, fóruns de investimento e grandes feiras passaram a ocupar lugar fixo na agenda corporativa. A lógica vale para praticamente todos os setores. O agronegócio transformou suas feiras em palco para lançamentos de máquinas e novas tecnologias. A indústria automobilística aposta em salões e festivais para reconstruir sua conexão com o público. O mercado de games converteu suas concentrações em grandes plataformas de entretenimento, consumo e networking. A edição de 2025 da Gamescom Latam, versão latina de um dos maiores eventos de games do mundo, reuniu 130 000 pessoas e espera quebrar novo recorde de público no próximo encontro, no final de abril, em São Paulo. “Essas feiras são ativos estratégicos do país, porque trazem o mercado global para dentro do Brasil e nos posicionam de forma competitiva”, afirma Eliana Russi, diretora de conteúdo da Gamescom.

Há um fator decisivo por trás da retomada. Criado em meio à pandemia, o programa federal Perse concedeu isenção de tributos e facilitou a renegociação de dívidas das empresas do setor, funcionando como uma espécie de colchão de sobrevivência em uma fase de paralisação quase total das atividades. “O programa foi importante para a indústria de eventos, ao ajudar empresas a investir em equipamentos e qualificação”, afirma Caramori. Seu custo, porém, foi alto. Estimativas do governo indicam que a política consumiu 18 bilhões de reais em renúncia fiscal, com resultados considerados modestos ante o volume de recursos mobilizados. O programa chegou ao fim em abril de 2025, ao atingir o teto previsto. Sem ele, o setor agora precisa provar que consegue sustentar sozinho a expansão que vinha sendo impulsionada pelos incentivos. A julgar pelo ritmo atual, o país está longe de esgotar seu apetite por encontros presenciais.
Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991
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