Em 28 de abril de 1996, uma chamada na primeira página da Folha anunciava a estreia, naquele dia, de uma grande novidade no Brasil. “Folha lança seu serviço on line pela Internet”, dizia o título. Era o nascimento do UOL, na época chamado Universo Online (por extenso) e, como até hoje, uma empresa autônoma, em que o Grupo Folha possui participação indireta e minoritária.
A reportagem informava que “usuários da World Wide Web” teriam, no novo serviço, acesso a notícias em tempo real, jornais e revistas do Brasil e do exterior, arquivos da Folha com cerca de 250 mil textos, salas de bate-papo, roteiros de gastronomia e lazer, atrações infantis, compras, classificados etc. A internet comercial engatinhava no país.
Na mesma edição, três páginas de anúncio reforçavam o acontecimento, com hipérboles premonitórias típicas da melhor publicidade –eram uma criação da DM9, agência à época liderada por Nizan Guanaes e Guga Valente. Na primeira, sob uma foto de Assis Chateaubriand, uma legenda dizia que, em 1958, o jornalista e empresário “revolucionou as comunicações no Brasil ao inaugurar a primeira televisão”, e um título vaticinava: “Mais uma revolução igual a essa acaba de chegar”.
Nas seguintes, um texto afirmava: “Grave esta data: 28 de abril de 1996. Ela marca uma revolução na sua maneira de se comunicar com o mundo”. Depois de descrever os serviços disponíveis a quem acessasse o conteúdo do UOL, o anúncio instigava: “Não perca. Acontecimento como esse pode levar séculos para se repetir”. Sobreposto ao texto, um título apregoava: “No futuro, isso vai ser estudado como a revolução de 28 de abril”.
Descontados o fervor e a presunção inerentes à propaganda, é inegável que o anúncio apontava para a direção certa. Trinta anos depois, a internet de fato revolucionou as comunicações, a cultura e os hábitos de consumo, e o UOL esteve e está na dianteira dessa guinada: é, como diz seu slogan, “a maior empresa brasileira de conteúdo, tecnologia, serviços e meios de pagamentos”.
Hoje o Grupo UOL possui quatro grandes unidades: Conteúdo e Serviços (no qual se incluem o portal UOL, o Canal UOL, UOL Host, Ingresso.com e Neooh), PagSeguro PagBank (pagamentos online e banco digital), EdTech (educação online) e AI/R (engenharia de software usando inteligência artificial).
Emprega cerca de 16 mil pessoas (metade são engenheiros ou profissionais que desempenham funções ligadas à tecnologia), tem 35 milhões de clientes e 70 milhões de visitantes únicos/mês no portal.
Ontem como hoje, ampliar a oferta de serviços à população por meio de tecnologia e inovação é o motor do negócio. “O Grupo UOL sempre priorizou o uso de tecnologia para implementar sua agenda de democratização de serviços e de constante crescimento”, afirma Ricardo Dutra, CEO do grupo.
Ele se refere primeiro à popularização do acesso à conteúdo na internet, depois ao próprio acesso à internet, inicialmente com conexões discadas e banda larga. “Em 2006, com o PagSeguro”, prossegue, “democratizamos o acesso a soluções de pagamento online, para e-commerces, marketplaces e também através de maquininhas de cartão; seguido de inclusão de conta digital, investimentos e serviços financeiros, com o PagBank. Com o UOL Edtech, democratizamos o acesso à educação”.
Se nos primórdios a novidade era a internet, agora é a inteligência artificial, e, três décadas depois, o UOL também incorporou a reviravolta da vez, seja pelo uso de IA nos processos das empresas do grupo ou por meio de sua unidade de tecnologia que presta serviços a centenas de empresas, a AI/R. Nela, comenta Dutra, “ajudamos empresas de praticamente todos os setores da economia em suas jornadas de digitalização, implementação de tecnologia e de soluções de inteligência artificial”.
Segundo o CEO do UOL Conteúdo e Serviços, Paulo Samia, o grupo respeita sua história sem ficar preso a ela. “Tem coisas que não mudam. Nosso compromisso com jornalismo de qualidade, independência, pluralidade, credibilidade. Isso é o nosso núcleo. É o que construiu a confiança que a gente tem hoje –e, num ambiente cada vez mais barulhento e cheio de desinformação, isso só fica mais valioso. Por outro lado, todo o resto precisa evoluir o tempo inteiro. Tecnologia, formato, distribuição, produto”.
“O UOL nasceu na largada da internet comercial no Brasil”, prossegue Samia, “e nunca parou de se reinventar: passamos por desktop, mobile, redes sociais, vídeo… e agora estamos mergulhando fundo em inteligência artificial. A lógica é simples: a gente não preserva o passado por apego, mas porque é o que nos mantém relevantes. E não muda por modismo, mas porque o comportamento do usuário muda, e a gente precisa acompanhar.”
O diretor de conteúdo do UOL, Murilo Garavello, lembra que, em seus primeiros passos, para crescer, o UOL criou uma companhia para ampliar a infraestrutura de acesso à internet, distribuir CDs de instalação e criar um novo mercado. “Ou seja, desde o momento-zero da empresa a inovação era, mais do que uma premissa, uma necessidade. Com o jornalismo acontece movimento muito semelhante: o conteúdo do UOL de 5, 10, 20, 30 anos atrás é muito diferente do que temos hoje, em formatos, profundidade e mesmo qualidade”, observa.
O UOL, ressalta Garavello, se adaptou a seguidos movimentos que mudaram radicalmente os hábitos de consumo de jornalismo e conteúdo do brasileiro, como a chegada da internet, da banda larga, do celular e das redes sociais. “Provavelmente as mudanças que virão com a IA serão mais profundas e em velocidade maior, mas acredito que temos no nosso DNA a cultura de criar o novo, fazer diferente, testar e avaliar o que faz sentido ampliar e descartar rapidamente o que não faz.”
De acordo com Dutra, o UOL permanece atento às mudanças de hábitos e tendências da população, o que explica apostas em conteúdos como vídeos curtos, publicações com layout vertical customizado para telas de celulares, resumos no início de textos etc. “Além de produzir conteúdo em diversos formatos, também investimos na ampliação de canais de distribuição, como nosso canal de TV próprio, apps de TVs conectadas e mídia outdoor. Nosso objetivo é que nosso conteúdo continue sendo relevante e que esteja disponível à população em toda a sua jornada diária.”
HISTÓRIA EM LIVRO
O aniversário de 30 anos do UOL será comemorado com cerimônias institucionais em São Paulo e Brasília e eventos para o mercado publicitário e para os profissionais do grupo. Um livro, a ser lançado ainda neste ano, vai narrar os principais momentos dessas três décadas.
O volume reunirá histórias como a da gênese do UOL. Fundador do grupo, Luiz Frias tinha 30 e poucos anos quando, na primeira metade dos anos 1990, cogitou a hipótese de criar uma empresa de internet. Em 1992, aos 29 anos, ele havia assumido a presidência do Grupo Folha –do qual seu pai, Octavio Frias de Oliveira, era publisher e seu irmão, Otavio Frias Filho, diretor editorial.
Otavio ponderou: “Quanto maior [a expansão], maiores serão os problemas”. Depois de estudar o pioneiro mercado dos Estados Unidos, Luiz apresentou ao pai e ao irmão a ideia de uma nova frente de negócios. No livro, ele descreve a resposta do pai, que falava também em nome do irmão: “Pode fazer, mas com duas condições. A primeira é que você não deixe de ser o presidente da Folha, ou seja, que não saia do jornal. E a segunda, que a Folha tenha um terço do que você fizer. Essas são as minhas únicas condições. E foi o que eu fiz. Não saí da Folha“.
O lançamento em 1996 não se deu sem sobressaltos. Algumas das páginas internas do novo portal foram ao ar sob o estranho endereço /mxyzptlk –haviam sido nomeadas assim para evitar vazamentos, e, no calor da hora, não se conseguiu renomear todas. “Era o nome do vilão do Superman nos quadrinhos, o Sr. Mxyzptlk!”, contou, numa entrevista em 2021, Daniel Amaral, gerente de tecnologia do portal no ano de estreia.
No dia seguinte, a Folha registrou que “a grande atração do primeiro dia de funcionamento do serviço foram as salas de Bate-Papo, que tiveram sua capacidade de atendimento dobrada para atender à demanda de pessoas querendo conversar simultaneamente na rede do Universo Online”. No ar até hoje, o Bate-Papo é uma referência de longevidade no portal que deu início ao grupo.
Uma das primeiras e mais fiéis assinantes do UOL desde os primórdios, a veterinária Regina Rheingantz Motta, 66, aderiu ao serviço em 1997 e nunca mais largou. “O que me levou a optar pelo UOL foi a credibilidade que eu já tinha na Folha. Sempre foi uma bússola de conhecimento, e a conectividade era e é muito boa”, relata.
Para ela, o UOL também foi cupido. Numa sala do Bate-Papo do portal em que entrou para exercitar seu francês, conheceu um participante daquele país que acabaria virando namorado.
Com os anos, Regina Motta aderiu a outros serviços do grupo, como o UOL Host, onde abrigou seu site profissional. “E tive, durante muito tempo no meu consultório [veterinário], a [maquininha de cartão] Moderninha, gostei bastante”, conta ela, que, após 40 anos, encerrou o consultório e se dedica a outras atividades, como fotógrafa de pets, investidora e narradora de audiobooks.
EXPANSÃO
Nos anos iniciais, alguns movimentos foram estratégicos para a expansão do novo negócio, como a fusão com o concorrente BOL (Brasil Online), do Grupo Abril. A participação acionária do Grupo Abril no UOL seria mais tarde recomprada pelo UOL.
Em 1999, um grupo de investidores liderados pelo banco Morgan Stanley adquiriu 12,5% de participação na companhia, o que seria importante para financiar a expansão internacional do UOL com vistas ao IPO (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês) na Nasdaq, nos EUA.
E de fato foram criados o UOL Argentina, UOL Colômbia e UOL Venezuela (entre outros), em parceria com grupos de mídia locais. Tudo caminhava de vento em popa para a abertura de capital quando, no início de 2000, estourou a bolha da internet. Foi um balde de água fria e, mais que isso, o início da preocupação com a sobrevivência da empresa, que ainda tinha algum caixa para sobreviver por um tempo, mas não mais os tão esperados recursos que viriam do IPO.
Em 2001, a Portugal Telecom se tornou sócia do grupo (participação de 17,9%), mediante um aporte de US$ 200 milhões, acordo pelo qual o UOL passou a controlar o portal Zip. Menos de três anos depois, a companhia já estava equilibrada, com lucro de operações próprias, pavimentando o caminho para o IPO no Brasil –o que ocorreria em dezembro de 2005, na Bovespa, aumentando ainda mais o fôlego para a expansão dos negócios do grupo.
A partir de uma ideia de Luiz Frias para desenvolver um serviço de pagamentos eletrônicos, surge, em 2006, o que seria o maior êxito do grupo do ponto de vista financeiro: o PagSeguro, que mais tarde lançaria o banco digital PagBank.
Em 2018, na maior oferta inicial de ações de uma empresa brasileiras nos EUA, o PagSeguro levantou US$ 2,7 bilhões (R$ 8,6 bilhões no câmbio da época), sendo 42% de venda primária de ações (dinheiro aportado na própria companhia) e 58% de venda secundária (acionistas vendendo suas ações).
Se, para o curto prazo, Paulo Samia aponta três frentes de prioridades (aprofundar a relação direta com o usuário, acelerar forte em vídeo e novas linguagens e evoluir o UOL como plataforma), o executivo diz que a ambição para os próximos 30 anos é “continuar sendo a principal porta de entrada para conteúdo, serviços e entretenimento digital no Brasil — só que agora num cenário muito mais competitivo e fragmentado”.
Murilo Garavello defende aproveitar as oportunidades trazidas por reviravoltas como a da IA “para expansão das capacidades do jornalismo e dos jornalistas” e seguir sintonizada com os hábitos da sociedade, “criando conteúdo nos formatos e nas plataformas adequados”.
“Por outro lado, temos a tranquilidade de que nossa essência e nossos princípios não se modificam: ética, defender a verdade e o compromisso, que é também o da Folha, de jornalismo independente, plural e apartidário”.
Ricardo Dutra, o CEO do Grupo UOL, afirma que, ao olhar para o futuro, “o plano é continuar crescendo, investindo no Brasil e ampliando a penetração dos nossos serviços e da produção e distribuição do nosso conteúdo jornalístico, de esportes e entretenimento”.
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