Startup diz ter usado vírus criado por IA em tratamento – 22/10/2026 – Ciência

Cientistas afirmam ter usado, pela primeira vez, vírus desenvolvidos por inteligência artificial para tratar um paciente humano. O anúncio foi feito na última terça-feira (20).

Pesquisadores disseram que administraram o vírus, conhecido como fago, a um paciente com uma infecção bacteriana mortal. Os fagos atacam bactérias, e a expectativa é que esse vírus elimine os micróbios causadores da infecção.

A americana Radical Numerics, responsável pela criação do vírus, publicou em seu site um relatório técnico sobre ele. A startup, porém, recusou-se a fornecer informações sobre o paciente ou os médicos responsáveis pelo ensaio, alegando exigências de confidencialidade.

O relatório não passou por revisão por pares nem foi publicado em uma revista científica. Representantes da empresa afirmaram que o ensaio recebeu autorização da FDA, agência que regulamenta e fiscaliza alimentos e remédios nos Estados Unidos.

“Levamos extremamente a sério nossa responsabilidade de proteger a confidencialidade dos pacientes e preservar a confiança de nossos parceiros clínicos”, disse Eric Nguyen, CEO da Radical Numerics.

“Pretendemos publicar nossas descobertas científicas por meio de pesquisas revisadas por pares, e qualquer divulgação futura de detalhes clínicos estará sujeita ao consentimento adequado”, acrescentou.

Especialistas independentes receberam a notícia com curiosidade e cautela.

“Se funcionar, será incrível”, afirmou o microbiologista Michael Baym, da Universidade Harvard, que não participou da pesquisa.

Caso o experimento seja bem-sucedido, poderá indicar uma nova forma de usar a IA na medicina, oferecendo um tratamento individualizado capaz de combater até mesmo as infecções bacterianas mais resistentes.

Baym afirmou que evitaria tirar conclusões até que o tratamento fosse concluído e fosse possível avaliar até que ponto os vírus da empresa são realmente inéditos. “Minha tendência é ser cético.”

Vírus projetados por inteligência artificial podem ser uma novidade, porém a terapia com fagos remonta a mais de um século.

Agora, à medida que a resistência a antibióticos se torna um problema crescente em todo o mundo, o tratamento vive um renascimento. Nos Estados Unidos e em outros países, clínicas especializadas em terapia com fagos foram abertas para ajudar pacientes que lutam contra infecções resistentes a múltiplos medicamentos.

Esse tratamento, porém, é muito mais complicado do que simplesmente tomar alguns comprimidos de penicilina.

Cada tipo de fago infecta um número limitado de cepas bacterianas. Quando os médicos conseguem um deles, precisam testar o vírus para verificar se há alguma chance de ele funcionar contra a infecção do paciente.

“Procurar fagos é uma tarefa extremamente demorada”, afirmou a infectologista Marisa Azad, do Hospital de Ottawa (Canadá), que participa de uma colaboração com a Radical Numerics.

Alguns pesquisadores estão tentando superar essa barreira buscando novas espécies de fagos no solo e na água, ampliando o arsenal médico. Mas o surgimento da IA deu aos cientistas outra ideia: desenvolver fagos personalizados para combater especificamente as bactérias que infectam um paciente.

Em 2025, pesquisadores do Arc Institute, em Palo Alto, Califórnia, criaram um modelo de IA chamado Evo 2, treinado com milhões de sequências de DNA, incluindo genes de fagos. Eles pediram ao sistema que gerasse genomas semelhantes aos de um grupo de espécies de fagos.

A IA produziu 700 mil genomas virais. A equipe sintetizou moléculas de DNA a partir de 285 genomas e as inseriu em bactérias. Os pesquisadores constataram que 16 desses genomas deram origem a vírus viáveis.

Três integrantes da equipe do Evo, entre os quais Nguyen, deixaram o grupo para fundar a Radical Numerics. Em junho, a empresa apresentou um novo modelo de IA, chamado Omnii, baseado em alguns dos mesmos princípios do Evo.

O Omnii pode ser treinado não apenas com DNA mas também com outros aspectos da biologia, como as estruturas de proteínas e moléculas que mantêm os genes ativados ou desativados.

A empresa agora usa o Omnii para enfrentar uma série de desafios, entre os quais desenvolver vacinas contra o câncer e identificar o risco de um vírus causar uma pandemia. Entre essas iniciativas está o primeiro teste de uma terapia com fagos desenvolvida por IA.

Os pesquisadores criaram variações de um fago chamado T7. O vírus, que infecta apenas a E. coli, parece um módulo lunar Apollo microscópico: uma cápsula proteica esférica que abriga seu DNA, apoiada sobre seis protuberâncias semelhantes a pernas.

Para infectar uma bactéria, o T7 pousa em sua superfície e usa suas pernas para se fixar. Em seguida, injeta seu DNA na célula.

Segundo Nguyen e seus colegas, o Omnii gerou novos genes virais que alteraram o formato das pernas do T7. Embora algumas das novas pernas fossem significativamente diferentes das naturais, os fagos criados pelo Omnii ainda conseguiam infectar bactérias.

Quando os pesquisadores se convenceram de que a estratégia havia funcionado, fizeram uma parceria com médicos que tratavam um paciente com uma infecção persistente por E. coli. A bactéria havia resistido não apenas aos antibióticos mas também a todos os fagos disponíveis.

Os pesquisadores disseram ter treinado o Omnii com informações sobre a cepa resistente e solicitado que projetasse fagos T7 com pernas capazes de se fixar às bactérias.

Depois que a IA gerou os genomas de novos vírus, os cientistas afirmaram ter produzido as moléculas de DNA correspondentes e as inserido em bactérias. As bactérias foram infectadas e produziram fagos T7 capazes de infectar e matar outros microrganismos.

Após realizar testes para garantir que os fagos fossem seguros, a Radical Numerics os apresentou aos médicos. A FDA, então, autorizou um ensaio clínico.

O microbiologista evolutivo Brandon Berryhill, da Universidade de Uppsala (Suécia), afirmou que não há garantia de que os fagos projetados por IA funcionem. “Não podemos medir nada em laboratório e dizer quão eficaz será no controle de algo durante uma infecção.”

Mesmo que o tratamento funcione, a simples criação de fagos com o auxílio da IA não ajudará os cientistas a entender o que determina o sucesso ou o fracasso de uma terapia fágica.

“Ainda há muita coisa que não sabemos sobre as regras do jogo”, afirmou Berryhill.

Levará algum tempo para saber se os novos fagos da Omnii terão sucesso. A terapia fágica pode durar dias ou semanas, e os médicos costumam monitorar seus pacientes por meses, caso a infecção volte.

Se o ensaio for bem-sucedido, Nguyen espera que a empresa possa ajudar a agilizar a terapia fágica, reduzindo o tempo necessário para criar um novo vírus adaptado à infecção de cada paciente. “Achamos que podemos fazer isso em poucos dias.”

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