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Jornalista corre Desafio da Onça nas cataratas do Iguaçu – 29/05/2026 – Esporte

Soaria piegas começar um texto sobre uma prova de corrida chamada Desafio da Onça dizendo que um atleta se deparou, na noite anterior, com uma onça-pintada cruzando faceira a estrada na mata —como se na coincidência residisse uma simbologia mística. Mas ao repórter cabe um pedido de licença para se aproveitar da pieguice que, afinal, a natureza proporcionou: o relatado foi o que se passou.

O encontro com a onça foi fortuito —e talvez raro— golpe de sorte na noite de sexta, na volta de um jantar, próximo ao km 31 da BR-469, que corta o Parque Nacional do Iguaçu (PR). E, mística à parte, o foco há de ser a prova: o Desafio da Onça estreou em 2026.

A modalidade integra o cardápio da Meia-Maratona das Cataratas, que concluiu no fim de semana de 16 e 17 de maio sua 17ª edição. Desde 2017 promovia-se uma segunda prova, paralela à de 21 km, com largada no mesmo dia. Neste ano, a prova secundária cresceu —de 8 para 10,5 km— e ganhou dia próprio, levando ao convite: atletas, por que não correr 10,5 km no sábado e mais 21 km no domingo?

Ficou combinado ainda que a prova mais curta tivesse como mascote um quati, devidamente estampado na medalha; a prova tradicional, um tucano; e o desafio, bem, a tal onça. Movido também pelo desafio jornalístico de relatar o multiesforço, o repórter da Folha topou a aventura.

Registre-se: um repórter corredor amador de alguma modesta e informal experiência, mas até então sem uma meia-maratona no currículo; sem a ousadia de emendar provas em dias subsequentes; e menos ainda a ousadia (irresponsabilidade?) de agregar mais esforço ao pedalar, fazer trilhas e passeios na cidade e no parque —afinal, nem só de corrida vive o corredor, em especial o que viaja para correr.

Desafios que combinam provas de diferentes distâncias não são novidade. No Brasil, talvez o mais conhecido seja o da Maratona do Rio. Mas cada prova tem aura e atrativos próprios.

No caso de Foz, elas se usam da boa estrutura do centro de visitantes do Parque Nacional do Iguaçu; da atmosfera com um quê bucólico do trajeto; e, elementar, do mirante que escancara parte das cataratas, em frente ao Hotel das Cataratas – A Belmond Hotel.

O parque passa por obras estimadas pela concessionária em R$ 600 milhões, que até 2030 devem dobrar a capacidade para 4 milhões de visitantes por ano. Hoje, parte dos trabalhos se concentra próxima ao mirante, o que forçou que nesta edição o local fosse só ponto de passagem para os meia-maratonistas, que largaram no centro de visitantes e fizeram ali um acelerado “cotovelo” de retorno para a volta.

No pique da suada metade do percurso, há quem só estique o rabo de olho e quem diminua o passo para observar as cataratas, sempre com o esforço de olhar também para a frente, para não tropicar em colegas ou perder a curva. Mas há também quem não se furta a abandonar o trote, parar o relógio e fotografar.

Um pouco mais de sorte teve quem cumpriu, no sábado, o percurso de 10 km. Como ele partiu dali, depois do nascer do sol participantes se dividiam entre se juntar ao “funil” de concentração para a largada ou atrasar o rumo para mais uma selfie com as quedas ao fundo —ninguém se queixa de elas estarem mais enxutas, pela época do ano; a corrida, diga-se, é óbvio atrativo para preencher a “baixa temporada” de Foz.

A altimetria (variação de elevação ou desnível) é de 102 m na prova curta e de 217 m na longa —contando, em ambas, com a subida próxima ao centro de visitantes, de inclemência reconfortante só para quem a supera. Quem correu as duas distâncias teve a chance de se antecipar, ao menos mentalmente, ao sofrimento no final da meia, mas claro que nem sempre basta dizer ao corpo que a mente está preparada.

O trajeto em si é chapado e sem segredos: atravessa a BR entre mirante e recepção, na meia-maratona em ida e volta. Salvo um ou outro corrugamento pontual e buracos esparsos, o asfalto é um tapete. Nos dois lados da pista, a mata atlântica preservada garante ar fresco, silêncio e a companhia de aves —dois ou três tucanos apareceram, mas, se avistar onça à noite já é golpe de sorte, com a chuva da madrugada e o fluxo de gente não há que se exigir de cutias, quatis ou veados que deem as caras.

Foram, segundo a organização, 3.000 corredores de 10 km, mais 2.000 de 21 km; mais de 500 cumpriram o Desafio da Onça. Para os atletas, o parque ficou fechado nas provas e por um tempo extra; só reabriu a visitantes comuns —os que não correm, entenda-se— às 12h.

Como parte da cidade se mobiliza para a prova, cabe se organizar: o repórter por pouco não perde a largada no sábado porque, em plenas 5h40, motoristas de aplicativo recusaram em série o trajeto do hotel ao parque; restou se dobrar à pouco republicana oferta de um que cobrou por fora mais do que o dobro do indicado na plataforma. (Atletas com carro não pagam estacionamento no parque.)

Ao fim, as dores do esforço em dobro passam rapidamente. A primeira meia rendeu mais do que isso —a começar pela primeira onça.

O jornalista viajou a convite da Urbia+Cataratas.

Fonte: Link da fonte

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