Você já acordou depois de uma noite de pesadelos com a sensação de não ter dormido nem por um minuto? O tipo de sonho que parece real demais, carregado de medo, e do qual a pessoa acorda suada e com o coração acelerado. A ciência do sono explica o que ocasiona esse cansaço matinal, se pesadelos prejudicam a qualidade do sono e o que acontece dentro do cérebro durante a madrugada.
O nosso sonho é dividido em ciclos, e é durante o sono REM (sigla para “rapid eye movement”, ou movimento rápido dos olhos, em português) que os sonhos acontecem. Essa é uma fase de intensa atividade cerebral em que o cérebro opera quase como se estivesse acordado.
É nesse estágio que áreas ligadas à memória, emoção e imaginação ficam particularmente ativas, enquanto as regiões associadas ao raciocínio lógico e ao controle crítico reduzem sua atividade, explicam especialistas ouvidas pela Folha.
Quando o conteúdo do sonho vira um pesadelo, o cérebro não reage da mesma forma que num sonho neutro. A diferença está na ativação da amígdala, a estrutura do sistema límbico responsável pelo processamento do medo e da ameaça, diz a neurologista Andrea Bacelar, especialista em medicina do sono e membro da Academia Brasileira do Sono.
“Quando o sonho tem um conteúdo épico, cansativo ou negativo, as amígdalas são mais ativadas”, afirma Bacelar. “A gente pode ter ativações ansiogênicas [estímulos que induzem a sensação de ansiedade] e o aumento da frequência cardíaca, até sudorese.”
A psicóloga e professora da USP (Universidade de São Paulo) Renatha El Rafihi Ferreira complementa que, nos pesadelos, há também outros circuitos cerebrais relacionados ao processamento de ameaça, como a ínsula, o hipocampo e o córtex cingulado anterior. Essa ativação ajuda a explicar a intensidade emocional típica dos pesadelos e os sinais físicos que o corpo apresenta ao despertar.
É importante diferenciar um pesadelo do terror noturno. Segundo a psicóloga Laura Pires, especialista em transtornos do sono, nos pesadelos geralmente a pessoa desperta lembrando parcial ou totalmente do conteúdo do sonho. “Já o terror noturno é uma parassonia do sono NREM profundo, mais comum na infância, caracterizada por intensa ativação autonômica, gritos, agitação e confusão, mas frequentemente sem recordação clara do episódio posteriormente.”
Mas o que explica o cansaço ao acordar de um pesadelo? Para Bacelar, como um sono saudável está dividido entre quatro a seis ciclos por noite, um pesadelo pode facilitar com que a pessoa desperte antes de completar o ciclo.
“Isso pode gerar no dia seguinte uma sensação de ‘estou mais cansado’ por essa fragmentação do sono, e não necessariamente porque o conteúdo do sonho foi negativo”, diz.
Além disso, os pesadelos tendem a ocorrer na segunda metade da noite, que é quando o sono REM é mais abundante, aumentando também a chance de não conseguir mais dormir depois de acordar pelo sonho ruim, alerta a neurologista.
O que explica os pesadelos?
Para Bacelar, os pesadelos costumam se alimentar do estado emocional da pessoa durante o dia. O estresse vivido em vigília aumenta a chance de sonhos perturbadores à noite, e a noite mal dormida, por sua vez, prejudica a regulação emocional no dia seguinte, gerando um ciclo vicioso.
El Rafihi explica que a privação de sono, especialmente de sono REM, pode aumentar a pressão biológica por essa fase do sono.
“Quando a pessoa finalmente consegue dormir, pode ocorrer um ‘rebote de REM’, isto é, aumento da intensidade ou duração dessa fase. Como o REM está associado a sonhos mais vívidos e emocionalmente carregados, isso pode favorecer maior ocorrência de pesadelos”, diz. Pesadelos frequentes também podem estar associados a condições como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), ansiedade, depressão, insônia e apneia obstrutiva do sono.
Outras variáveis a se considerar são os medicamentos. Segundo a neurologista Rosa Hasan, especialista em medicina do sono, os antidepressivos, betabloqueadores, agonistas dopaminérgicos, estimulantes, alguns hipnóticos e medicações que atuam no sistema colinérgico (que afetam a acetilcolina, principal neurotransmissor do sistema nervoso parassimpático) são os mais frequentemente associados a sonhos mais vívidos ou pesadelos.
No caso da melatonina, suplemento para dormir que tem sido usado amplamente no Brasil, “existem publicações científicas mostrando que pode aumentar a quantidade de pesadelos”, diz Bacelar.
Outro fator de risco é o álcool que, embora provoque sonolência inicial, fragmenta o sono e altera o REM, favorecendo um sono mais instável e maior chance de pesadelos, segundo Pires.
Consigo evitar pesadelos?
Ter sonhos ruins ocasionalmente faz parte da vida. Mas quando se tornam frequentes ou causam sofrimento significativo, existe tratamento.
El Rafihi aponta técnicas como o ensaio imaginário de sonhos (“Imagery Rehearsal Therapy”, ou IRT), intervenções cognitivo-comportamentais para insônia e ansiedade, e o EMDR (técnica que usa estimulação bilateral, frequentemente por movimentos oculares guiados, para ajudar no processamento emocional de memórias traumáticas).
No dia a dia, Pires lista que manter regularidade nos horários de dormir e acordar, criar um período de desaceleração antes de deitar, evitar privação de sono e adotar estratégias de redução de estresse ao longo do dia podem ajudar a ter uma melhor qualidade do sono.
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