48 Anos de cinzas: o gargalo institucional, bilhões perdidos e o vazio do MAM Rio

Nesta quarta-feira, 8, completaram-se 48 anos do incêndio que atingiu o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e destruiu parte essencial de seu acervo próprio. Quase meio século depois, a tragédia de 1978 continua sendo mais do que uma lembrança dolorosa na cidade. Expõe uma crise estrutural que atravessa a história recente do museu: governança fechada, baixa transparência, acervo próprio insuficiente e incapacidade de transformar uma perda monumental em um verdadeiro projeto de reconstrução institucional.

Segundo o próprio MAM, o incêndio destruiu 585 obras, aproximadamente metade do acervo, além da totalidade da biblioteca. Também foram perdidas cerca de oitenta obras de Joaquín Torres García, que estavam no museu para uma exposição.  Durante décadas, repetiu-se que 90% da coleção havia desaparecido. A revisão desse número não diminui a tragédia. Ao contrário: torna ainda mais grave a pergunta sobre por que, mesmo preservando remanescentes importantes, o museu nunca conseguiu recompor um acervo próprio à altura de sua história.

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Museu Público na conta, privado no controle

O MAM Rio é juridicamente uma associação civil privada. Seu conselho deliberativo é fechado, pouco renovado e historicamente concentrado em círculos restritos. O problema é que essa estrutura privada convive com dependência de recursos públicos.

A reconstrução depois do incêndio, as reformas para grandes eventos internacionais e a recente adequação do edifício para a cúpula do G20 foram viabilizadas, direta ou indiretamente, por dinheiro público, patrocínios incentivados, verbas oficiais ou renúncia fiscal. O contribuinte ajudou a preservar a arquitetura de Affonso Eduardo Reidy, a cinemateca, o Bloco Escola, as áreas expositivas e parte da infraestrutura do museu.

Essa é a contradição central: o museu tem um dos edifícios mais importantes da arquitetura moderna brasileira, ocupa um lugar privilegiado no Parque do Flamengo e possui uma história gloriosa. Mas sua governança continua funcionando como um clube restrito, em uma instituição que depende continuamente de recursos públicos para sobreviver.

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Fábrica sem equipamento

O diagnóstico é duro: o MAM tem a fábrica, mas não tem o equipamento. A fábrica é o prédio de Reidy, monumental, elegante, restaurado, capaz de abrigar uma instituição de padrão internacional. O equipamento que falta é um acervo próprio sólido, soberano e suficientemente importante para sustentar uma narrativa museológica permanente.

A Coleção Gilberto Chateaubriand, com 6.630 obras, está em comodato no MAM desde 1993 e permite formar um amplo panorama da arte brasileira. Mas ela não pertence ao museu. Sem ela, o museu seria só uma “casca” bonita e oca.

Esse é um debate pouco feito no país: grandes colecionadores não costumam doar obras-primas a instituições cuja governança consideram opaca ou instável. Ninguém entrega patrimônio raro a uma casa que não oferece garantias claras de preservação, gestão, exibição e continuidade institucional.

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Gilberto Chateaubriand, colecionador de obras de arte. 2005 (Arthur Cavalieri/STRANA/VEJARIO)

Chances perdidas

Depois do incêndio, houve oportunidades importantes de reconstrução. Muitas foram desperdiçadas. A promessa de que agências internacionais do Banco do Brasil comprariam obras relevantes para recompor o acervo nunca se materializou na escala anunciada. Poderia ter sido o começo de uma nova coleção internacional. Ficou como promessa frustrada.

Outro episódio decisivo envolveu a coleção do galerista e colecionador Marcantonio Vilaça, um dos grandes nomes da arte contemporânea brasileira nos anos 1980 e 1990. O projeto discutido para receber esse conjunto previa, inclusive, a construção de um anexo no MAM. A negociação não se concretizou, o anexo não saiu do papel e o museu perdeu uma chance rara de fortalecer seu acervo próprio com uma coleção de peso.

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Mais controversa foi a venda da tela Nº 16, de Jackson Pollock, doada originalmente por Nelson Rockefeller. A justificativa foi a criação de um fundo patrimonial capaz de garantir a sustentabilidade do museu por décadas. Mas uma decisão desse porte exigiria transparência exemplar. Onde está, em termos concretos, o resultado institucional dessa venda?

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Obra Nº16 de Jackson Pollock (1950) (Foto/Divulgação)

Fragmentos de um museu possível

Sem doações de grande porte, o acervo próprio do MAM permaneceu lacunar. Há núcleos importantes, mas fragmentados. As doações estrangeiras pós-incêndio formaram uma coleção expressiva de gravuras alemãs do pós-guerra e pequenos conjuntos vindos de países como Inglaterra, França, Japão, Haiti e Estados Unidos. Houve também um movimento promissor de aproximação com a arte latino-americana, com aquisições de artistas argentinos, uruguaios e de outros países do continente.

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O que ainda confere densidade ao acervo próprio são remanescentes salvos do incêndio, obras preservadas em reserva técnica e algumas incorporações posteriores. Há peças relevantes de escultura moderna, nomes internacionais de peso e obras que poderiam sustentar uma narrativa mais ambiciosa. Mas falta exposição permanente. Falta clareza sobre o que existe, o que está guardado e o que foi restaurado.

O caso da escultura Oitavo Véu, de Maria Martins, simboliza esse apagão documental. A obra constava em registros do museu, mas não apareceu de maneira clara nas primeiras listas oficiais de perdas após o incêndio. Uma instituição com a importância do MAM deveria ter, 48 anos depois, uma documentação pública, organizada e completa sobre as obras destruídas, salvas, desaparecidas, restauradas e alienadas.

O que virou cinza

O prejuízo financeiro das obras destruídas pode ser estimado, de forma conservadora, entre US$ 480 milhões e US$ 580 milhões, algo entre R$ 2,6 bilhões e R$ 3,2 bilhões. Esse número, no entanto, é apenas um piso. Ele considera uma fração das obras perdidas e não alcança o valor histórico, simbólico e institucional da destruição.

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Entre as perdas estavam obras de Salvador Dalí, Pablo Picasso, Joan Miró, Max Ernst, Mark Rothko, David Alfaro Siqueiros, Diego Rivera, Hans Hartung e Georges Mathieu. O MAM perdeu, por exemplo, Ovo frito no prato sem o prato, de Dalí, obra da fase surrealista dos anos 1930; dois óleos de Rothko de sua fase principal; duas telas de Picasso, incluindo uma rara cabeça cubista e um retrato de Dora Maar; além de obras decisivas do surrealismo e da abstração europeia.

No campo brasileiro, o fogo destruiu peças que hoje teriam enorme valor museológico e financeiro: obras de Lygia Clark, Ismael Nery, Vicente do Rego Monteiro, Guignard e outros nomes centrais da modernidade nacional. Não se perdeu apenas dinheiro. Perdeu-se a possibilidade de o Rio de Janeiro possuir hoje um dos grandes acervos modernos do Hemisfério Sul.

O MAM ainda pode voltar a ser uma instituição extraordinária. Tem arquitetura, localização, história, cinemateca, memória e o peso simbólico de Reidy, Burle Marx, Carmen Portinho e de todos que imaginaram ali uma síntese moderna entre arte, cidade e educação.

A dois anos do cinquentenário do incêndio, o MAM Rio não precisa apenas de homenagens, seminários ou exposições comemorativas. Precisa de uma prestação de contas histórica.

Pablo Picasso
Pablo Picasso – (./Getty Images)

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