Não são apenas os humanos que sofrem com os efeitos da propagação de notícias falsas. Peixes, moscas e até bactérias também passam por isso.
“Espero que possamos aprender algo com esses sistemas naturais”, diz o biólogo Andrew Hein, da Universidade Cornell (EUA). Ele é autor principal de um estudo que explora o tema e foi publicado na última quarta-feira (10) na revista Interface.
Hein foi atraído para a história natural da desinformação por meio de sua pesquisa com peixes. Ele e seus colegas observaram os movimentos de cardumes nadando ao redor dos recifes de coral próximos à ilha polinésia francesa de Moorea.
Ao permanecerem em grandes grupos, os peixes desfrutavam de vantagens que não tinham individualmente. Por exemplo, eles podiam coletivamente ficar alertas para o aparecimento de predadores. Quando um deles notava uma ameaça, disparava em uma nova direção. Essa informação se espalhava rapidamente por todo o grupo, que então podia escapar junto.
Hein impressionou-se, porém, com a frequência com que um peixe entendia as coisas errado. “Estava seguro, não estava acontecendo nada, mas, de repente, um deles simplesmente fugia como se sua vida dependesse disso.”
Ele notou como outros peixes seguiam então o assustado da vez, tentando escapar juntos… de nada.
A observação fez Hein pensar nas pesquisas sobre as formas como a desinformação se espalha pela internet. “Simplesmente fez sentido na minha mente que é isso que estamos vendo.”
O biólogo e seus colegas passaram a estudar se isso também atinge outras espécies. Animais que vivem em grandes grupos, de babuínos a cupins, estão constantemente se comunicando uns com os outros, criando o potencial para a desinformação se infiltrar.
O custo não é perder um almoço. É perder todos os almoços
No novo estudo, os pesquisadores propõem modelos matemáticos para investigar a desinformação em qualquer espécie.
Com base nesses modelos, eles sugerem que a desinformação é provavelmente fundamental para todos os sistemas de comunicação no mundo natural. E é uma ameaça potente à sua sobrevivência.
Anteriormente, alguns biólogos viam a desinformação como um pequeno incômodo. Se um peixe se afasta rapidamente sem motivo, ele perde algum tempo que poderia ter passado se alimentando. Mas esse é um custo pequeno, compensado pelo benefício de poder escapar de predadores.
No entanto, Hein argumenta que peixes excessivamente assustados, reagindo a muitos falsos alarmes, podem pôr sua sobrevivência em risco. “O custo não é perder um almoço”, disse Hein. “É perder todos os almoços.”
Walter Quattrociocchi, cientista de dados da Universidade Sapienza de Roma (Itália), que não participou do estudo, concordou. “Isso mostra que a desinformação não é uma anomalia ou uma falha moral, mas uma consequência estrutural dos sistemas de comunicação operando sob ruído, contexto limitado e decodificação imperfeita.”
Em sua pesquisa sobre peixes, Hein encontrou uma estratégia para interromper a desinformação. Quando nadam em pequenos grupos, eles são extremamente sensíveis aos movimentos daqueles ao seu redor. Mas em grupos maiores seus cérebros reduzem essa sensibilidade. É necessário o movimento de muito mais peixes para fazê-los se mover.
Essa estratégia não elimina falsos alarmes, observou Hein. Contudo limita o impacto, pois os falsos alarmes se extinguem antes que possam tomar conta de um cardume inteiro.
“Suspeito que deve haver muitos mecanismos para lidar com a desinformação nesses sistemas sociais”, disse Hein.
Cailin O’Connor, especialista em desinformação da Universidade da Califórnia, Irvine (EUA), que não esteve envolvida no estudo, afirmou que os modelos propostos no artigo são simples demais para capturar os efeitos complexos da desinformação.
Uma única informação pode afetar mais de uma crença ao mesmo tempo, por exemplo. “Se você vai dizer: ‘Esta informação, em um sentido biológico, é desinformação’, você vai precisar de algo mais complicado”, afirmou O’Connor.
Construir modelos mais complexos de desinformação será difícil em um momento em que o próprio campo de pesquisa está sob ataque. O governo Donald Trump cancelou subsídios para trabalhos em andamento sobre desinformação e bloqueou vistos para pesquisadores estrangeiros que se dedicam ao tema irem trabalhar nos EUA.
Na avaliação de O’Connor, a natureza pode oferecer alguma inspiração para a busca de soluções contra a desinformação. Muito frequentemente, de acordo com ela, pesquisadores pensam que a solução é simplesmente ajudar as pessoas a se tornarem melhores juízes do que veem online.
“Pare de tentar tornar as pessoas mais inteligentes. Só vamos melhorar até certo ponto. O que precisamos são de bons algoritmos.”
Os peixes não lidam com a desinformação tornando-se mais inteligentes; eles não verificam os fatos de cada sinal que recebem de outros peixes. Em vez disso, eles ajustam sua sensibilidade a qualquer informação, verdadeira ou falsa.
“Claramente precisamos de mais ideias sobre como lidar com esse problema”, afirmou Hein. “Talvez seja possível encontrar algumas se olharmos para outras espécies.”
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