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Ave pequena no dossel é a chave da ‘internet da mata’ – 10/06/2026 – Ciência

Experimentos realizados na Amazônia peruana indicam que as pequenas aves do dossel (a camada superior da floresta) funcionam como o elemento-chave da “internet da mata”. São os chamados de alerta delas os principais responsáveis por transmitir informações sobre a chegada de predadores às demais espécies, de acordo com um novo estudo.

A pesquisa estudou ambientes florestais de terras baixas (ou seja, já distantes da área de transição entre os Andes e a Amazônia e, portanto, mais parecidos com a parte do bioma amazônico encontrada no Brasil). No trabalho, que saiu em abril deste ano no periódico Current Biology, a equipe liderada por Ari Martínez, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (EUA), e Ettore Camerlenghi, da Universidade Deakin, na Austrália, examinou como as informações viajam pela mata com a ajuda de gravações dos chamados de alerta de espécies nativas da região.

O chamado “método do playback”, no qual gravações de sons típicos de um animal servem para estimular o comportamento de companheiros de espécie ou de outros bichos, é um dos mais usados em estudos de campo como esse, servindo para investigar padrões de acasalamento, o cuidado com as crias e outros fenômenos.

Na pesquisa de Current Biology, a equipe de cientistas trabalhou, de início, junto com especialistas em falcoaria. Eles soltavam aves de rapina adestradas na floresta e gravavam os chamados de alerta produzidos pela fauna nativa diante da aparente ameaça. Depois, os sons eram tocados em playback, e as reações dos animais iam sendo registradas pela equipe.

Por meio de um processo de combinação e exclusão dos sons, a equipe buscou identificar quais chamados eram os mais importantes para as tentativas de proteção contra predadores para a comunidade de espécies da mata como um todo (contabilizada por eles com um total de dez tipos diferentes de macacos e quase 400 tipos de aves).

Já havia diversos indícios de que os animais que normalmente entram no cardápio dos carnívoros ficam de ouvido atento não apenas quando escutam os alertas de membros de sua própria espécie como também quando captam os chamados de outros bichos, mas ainda não estava claro se qualquer alarme estridente tem igual capacidade de provocar o reflexo de fuga.

Para elucidar a questão, Martínez, Camerlenghi e seus colegas gravaram dezenas de tipos de chamados de alerta e depois os classificaram segundo quatro categorias “funcionais” de cada espécie. De um lado, havia as classificações de habitat –bichos do dossel versus habitantes do sub-bosque (a vegetação de médio porte da mata, formada por árvores menores e arbustos, que fica sombreada pela presença do dossel).

De outro, usaram categorias de tamanho, dividindo os animais predados entre os de porte maior ou menor (com massa corporal acima ou abaixo de cem gramas, respectivamente; no segundo caso, todas as espécies são de aves, já que não há macacos pesando menos do que isso nas matas da região).

O próximo passo foi testar a reação a diferentes combinações de chamados, em duplas, no sistema de playback. Em certos testes, eles podiam combinar os sons típicos de bichos de diferentes classes de tamanho ou de diferentes camadas da floresta, enquanto em outros eles juntavam dois chamados produzidos por indivíduos diferentes da mesma espécie.

O resultado é que quase nada fazia diferença nas reações dos habitantes da floresta. Proporções similares dos bichos tentavam se proteger quando os chamados combinavam sons de dois indivíduos da mesma espécie, os de bichos de classes de tamanho diferentes e também os de estratos da floresta distintos. A coisa só mudou de figura quando os pesquisadores resolveram testar os gritos de alerta de cada uma das categorias separadamente.

Nesse caso, surgiu um padrão claro: os alarmes produzidos pelas pequenas aves do dossel da floresta eram os mais impactantes. Por um lado, eles faziam a maior parte das outras espécies da mata ficarem em silêncio. Por outro, porém, também levavam uma pequena proporção dos bichos da região a amplificar ainda mais o som de alerta, repetindo os chamados que avisam sobre o perigo. Entre essas aves “alarmistas” estão duas espécies do gênero Monasa (M. nigrifons e M. morphoeus, ambas designadas no Brasil com o nome popular “chora-chuva” –chora-chuva-preto e chora-chuva-de-cara-branca, respectivamente).

De acordo com os pesquisadores, futuros estudos poderão mapear a velocidade com que informações desse tipo se espalham pela floresta, bem como outros dados relevantes que os bichos conseguem extrair a partir dos sons de outras espécies.

Fonte: Link da fonte

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