A Fox anunciou a compra da Roku por aproximadamente US$ 25 bilhões, em uma das maiores transações já realizadas no setor de mídia digital. O negócio une uma das principais produtoras de conteúdo dos Estados Unidos à maior plataforma de streaming para televisores conectados do país, reforçando a disputa por receitas publicitárias em um mercado cada vez mais dominado por gigantes da tecnologia.
A operação representa a maior aquisição da história da Fox e marca uma nova fase na estratégia da companhia, que durante anos adotou uma postura mais cautelosa em relação à guerra do streaming travada por empresas como Netflix, Amazon e Disney.
A corrida pelo mercado de publicidade
A lógica do negócio está menos na produção de conteúdo e mais no controle da distribuição e da publicidade.
A Roku opera o sistema que conecta milhões de televisores à internet e funciona como uma espécie de “portal de entrada” para plataformas de streaming. Segundo a consultoria Parks Associates, a empresa detém cerca de 25% do mercado americano de TVs conectadas, à frente do sistema Tizen, da Samsung, que possui aproximadamente 23%.
Além de distribuir aplicativos de terceiros, a Roku opera seu próprio serviço gratuito financiado por anúncios, o Roku Channel.
A Fox, por sua vez, já controla a plataforma Tubi, adquirida em 2020 por US$ 440 milhões (cerca de R$ 2,4 bilhões). Hoje, a Tubi está entre os maiores serviços gratuitos de streaming dos Estados Unidos e se aproxima de 100 milhões de usuários ativos mensais.
A combinação das duas empresas cria uma operação com escala suficiente para disputar verbas publicitárias diretamente com plataformas como Netflix, Amazon e YouTube.
Streaming gratuito ganha espaço
A aquisição ocorre em um momento de mudança no comportamento dos consumidores.
Após anos de crescimento acelerado dos serviços por assinatura, muitos usuários passaram a reduzir gastos diante da multiplicação de plataformas pagas e dos sucessivos reajustes de preços.
Como consequência, os modelos sustentados por publicidade voltaram a ganhar força.
Dados da consultoria Antenna mostram que os planos com anúncios já representam quase metade das novas assinaturas de vídeo sob demanda nos Estados Unidos, ante menos de 40% há apenas dois anos.
Empresas como Netflix, Disney+ e Max passaram a lançar versões mais baratas financiadas por publicidade, enquanto plataformas gratuitas como Tubi, Pluto TV e Roku Channel registraram forte expansão de audiência.
Fox muda de estratégia
Durante boa parte da última década, a Fox ficou à margem da corrida do streaming.
Ao contrário de rivais como Disney, Warner Bros. Discovery e Paramount, a empresa preferiu concentrar investimentos em esportes ao vivo, notícias e canais de televisão tradicionais.
A aquisição da Tubi, em 2020, representou a primeira grande aposta da companhia em plataformas digitais.
Desde então, a empresa lançou novos serviços voltados ao consumidor final, como Fox Nation e Fox One, e ampliou sua presença no mercado de publicidade digital.
A compra da Roku acelera esse movimento e dá à Fox algo que a maioria dos grupos de mídia não possui: acesso direto aos dados e hábitos de consumo de mais de 100 milhões de lares ao redor do mundo.
Big Tech aumenta pressão sobre empresas de mídia
O acordo também reflete uma tendência mais ampla de consolidação no setor.
Nos últimos anos, empresas de tecnologia passaram a controlar uma parcela crescente da infraestrutura do entretenimento digital. Amazon, Google e Apple não apenas distribuem conteúdo, mas também operam sistemas operacionais, dispositivos e plataformas publicitárias.
Para grupos tradicionais de mídia, competir tornou-se cada vez mais difícil.
Analistas avaliam que a aquisição da Roku permite à Fox reduzir essa dependência e construir uma operação integrada que combina conteúdo, distribuição, publicidade e tecnologia.
O movimento ocorre dois anos depois de o Walmart adquirir a fabricante de televisores Vizio, outro sinal de que o controle da tela passou a ser tão importante quanto o conteúdo exibido nela.
Dívida e sinergias
A Fox pagará cerca de US$ 160 por ação da Roku, combinando dinheiro e ações.
Para financiar a parcela em dinheiro da operação, a companhia pretende captar aproximadamente US$ 12 bilhões em novas dívidas.
A expectativa da empresa é gerar cerca de US$ 400 milhões em economias anuais por meio da integração de operações, tecnologia e vendas publicitárias.
Mesmo após a conclusão do negócio, a Fox informou que manterá a Tubi e o Roku Channel funcionando como marcas independentes.
O futuro da televisão
Mais do que uma aquisição tradicional, o negócio representa uma aposta sobre como as pessoas assistirão televisão nos próximos anos.
Durante décadas, o poder das empresas de mídia esteve na produção de conteúdo. Agora, cresce a percepção de que o controle dos sistemas operacionais, da publicidade e dos dados dos usuários pode ser ainda mais valioso.
Ao comprar a Roku, a Fox busca garantir um lugar nessa nova cadeia de valor e se posicionar para um mercado em que a televisão aberta, os canais pagos e o streaming passam a convergir em uma única plataforma digital.
Fonte: Link da fonte










