Eis uma afirmação que pode soar como hipérbole despropositada, mas é a mais pura verdade: os ecossistemas brasileiros de hoje indiscutivelmente ainda são os mais maravilhosos do Sistema Solar. Não descartaria, aliás, a hipótese de que também estejam no topo do ranking na Via Láctea inteira. Mesmo assim, quem tem o privilégio de caminhar por eles não costuma enxergar que, do ponto de vista ecológico, eles estão “esburacados”, feito um queijo suíço de desenho animado.
Os rombos de que falo correspondem a um espaço que não é menos real por ser virtual: são as “vagas” ocupadas há pouquíssimo tempo (ao menos do ponto de vista da evolução) pela multidão de grandes mamíferos que outrora vagava de norte a sul do país. Há meros 10 mil anos, mais ou menos, todos os bichos do grupo com mais de 300 kg, e vários que tinham mais de 50 kg, sumiram. E olha que havia uma multidão deles: cavalos, ursos, lhamas, parentes dos elefantes, dentes-de-sabre, tatus e preguiças-gigantes e coisas ainda mais estranhas.
É inevitável que uma hecatombe desse tipo deixe buracos ecológicos para trás. Cada um desses animais interagia de maneiras específicas com suas presas e seus predadores, com a vegetação e com o solo. Já está claro, por exemplo, o fenômeno dos frutos “órfãos”, de tamanho avantajado, que provavelmente evoluíram “para” ser devorados pelos megamamíferos, os quais, em troca, dispersavam suas sementes. A ausência dos antigos parceiros tende a afetar as populações das árvores que produzem tais frutos.
Por mais que necromantes de startups digam o contrário, trazer uma espécie de volta dos mortos beira o impossível. O que significa que esses buracos ecológicos vão continuar lá. Ou será que não?
Como a maioria dos desaparecidos nos ecossistemas brasileiros era de herbívoros de grande porte, já houve quem propusesse que a própria introdução de grandes animais domésticos, como bois, búfalos e ovelhas, poderia ter esse papel, ao menos em ambientes de vegetação aberta.
Um novo estudo, porém, acaba de despejar uma torrente de água fria nessa ideia. O trabalho, assinado por pesquisadores da USP, avaliou a situação no pampa, bioma campestre importantíssimo para a identidade histórica e cultural do Rio Grande do Sul.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
A pesquisadora Thayara Carrasco e seus colegas usaram boa parte dos dados disponíveis sobre a diversidade de espécies (selvagens e domésticas) e suas funções ecológicas no pampa, do fim da Era do Gelo até hoje, para verificar se algumas das “vagas” deixadas pelos gigantes podia ser preenchida pelos bichos de hoje.
Em grande medida, a resposta é “não”. Bovinos, caprinos e ovinos têm funções ecológicas específicas que, no contexto do pampa, são novas –não batem com as das espécies extintas. Possíveis exceções são os cavalos domésticos, que tinham um parente muito próximo por aqui, chamado Equus neogeus; e o chital (Axis axis), um cervo de origem indiana que foi introduzido como animal de caça no Uruguai e se assemelha ecologicamente ao Antifer ensenadensis, veado de grande porte extinto.
É muito pouco para achar que bichos domésticos e exóticos podem restaurar um mundo perdido. Como mostra o próprio estudo, ganharemos muito mais protegendo as espécies ameaçadas que ainda são únicas do ponto de vista ecológico, como antas, queixadas e cervos-do-pantanal.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Fonte: Link da fonte










