Alguns anos atrás, Jenny Ip se viu no consultório de um cardiologista depois que seus exames de sangue mostraram que seus níveis de colesterol haviam disparado. O médico fez algumas perguntas sobre seu estilo de vida e então recomendou uma estatina, lembrou Ip.
Mas Ip, agora com 46 anos, queria mais exames antes de começar uma nova medicação. Seu médico não estava convencido de que era necessário. Para persuadi-lo, ela enviou um episódio do podcast “The Peter Attia Drive” que discutia a saúde cardíaca das mulheres, indicando a marcação de tempo exata do trecho que ela queria que ele ouvisse.
Em consultórios de todo o país, a dinâmica entre médicos e pacientes —já moldada pelo Google, redes sociais e ChatGPT— está mudando mais uma vez, à medida que mais pacientes chegam prontos para falar sobre o que ouviram em podcasts.
Metade dos adultos americanos com menos de 50 anos obtém informações de saúde de podcasters ou outros influenciadores digitais. Alguns episódios dos principais programas de saúde, como “Huberman Lab” e “The Ultimate Human With Gary Brecka”, atraem mais de 1 milhão de ouvintes.
Para muitos pacientes, os podcasts oferecem uma maneira de assumir mais controle sobre sua saúde em um momento em que os médicos estão ocupados, as consultas são apressadas e detalhes, às vezes, passam despercebidos. Em alguns casos, também é um reconhecimento implícito de que eles não confiam mais totalmente nos médicos para saber o que é melhor.
“Eu me conheço melhor”, diz Ip. Por insistência dela, seu médico acabou concordando em solicitar mais exames. Com esses resultados em mãos, ela tentou mudar sua dieta em vez de tomar uma estatina. Seus níveis de colesterol baixaram.
Os médicos estão se adaptando a essa nova realidade —e, em alguns casos, até abraçando os podcasts. O médico Dipesh Gopal, clínico geral da Queen Mary University of London, às vezes “prescreve” ouvir podcasts que ele pessoalmente avaliou, diz, o que considera mais útil do que “eu imprimir um monte de anotações para falar sobre a condição”.
Mas os médicos também se veem cada vez mais refutando ideias promovidas por influenciadores que frequentemente não têm formação médica relevante e podem ter interesse financeiro em promover um produto.
James H. Stein, cardiologista da Escola de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Wisconsin, diz que um paciente que ouviu um episódio de podcast sobre cardiologia agora pode chegar à sua clínica e anunciar: “Tenho doença cardíaca avançada, preciso de uma angiotomografia coronariana e preciso que você meça meu nível de homocisteína”.
Isso o faz se sentir menos como um especialista ou parceiro dos pacientes e mais como uma “máquina que poderia solicitar os exames”, diz ele.
Para Ilana Yurkiewicz, oncologista e médica de medicina interna da Stanford Medicine, é bom que as pessoas estejam se educando, diz, “porque a maioria das mudanças de saúde acontece fora do consultório”. Ela reconhece que há vantagens em podcasts gratuitos e facilmente acessíveis que podem atrair pessoas frustradas com o sistema de saúde tradicional.
Mas Yurkiewicz também viu como podcasts que oferecem conselhos médicos imprecisos ou incompletos podem desviar as pessoas perigosamente do caminho certo. Ela escreveu recentemente na publicação de notícias de saúde Stat sobre uma paciente que atendeu com câncer retal.
Os médicos anteriores da paciente haviam recomendado cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Mas quando ela chegou ao consultório de Yurkiewicz, havia sido convencida por podcasts e influenciadores de que tratamentos não comprovados como ivermectina ou uma dieta sem açúcar curariam seu câncer. Yurkiewicz não conseguiu persuadi-la do contrário em sua breve conversa, e a paciente acabou morrendo da doença.
Parte desse problema é que alguns podcasts são muito menos confiáveis do que outros, afirmam os médicos, e muitas vezes é difícil para os pacientes perceber a diferença. Alguns apresentadores adotam títulos vagos para si mesmos como “praticante holístico”, disfarçando que não têm formação médica avançada, diz a médica Franziska Haydanek, ginecologista e obstetra de Nova York que começou seu próprio podcast sobre desinformação médica.
Outros apresentadores têm diplomas avançados, mas se aventuram tão além de suas especialidades que sua credibilidade fica comprometida, diz Stein.
Alguns podcasts semeiam desconfiança no sistema médico tradicional, acrescenta Stein. Eles usam linguagem sobre o “complexo médico-industrial” e insinuam que os médicos estão escondendo certos remédios dos pacientes.
Pode ser extremamente desafiador quando os pacientes têm “uma crença firmemente arraigada que não estão dispostos a discutir, e estão nos dizendo o que precisa ser feito —ou, pior, fazendo um julgamento sobre quem somos”, diz Stein.
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