Mendonça vira peça-chave no embate entre Michelle e Flávio – 06/07/2026 – Política

A escolha do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), como relator das investigações sobre o caso “Dark Horse” coloca o magistrado como peça-chave no embate entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, de quem é amigo, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com quem não tem relação de proximidade.

O inquérito para apurar os repasses do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ao filme ainda não foi formalmente aberto, mas Mendonça disse a auxiliares que não vai aliviar para Flávio caso veja elementos suficientes para autorizar uma operação policial —o que pode dar munição para Michelle na campanha de descrédito contra o enteado.

Aliados de Flávio têm manifestado desconfiança com uma possível ação coordenada de Mendonça com Michelle para prejudicar o senador. O ministro, contudo, diz a pessoas do seu entorno que suas decisões vão sempre ter como base as evidências juntadas aos autos pela PF (Polícia Federal), independentemente de ideologias ou preferências pessoais.

Michelle e Flávio travam uma briga pública com origem em divergências sobre as alianças do PL nas eleições para o Governo do Ceará. O auge do atrito ocorreu em 24 de junho, quando ela publicou nas redes sociais vídeos em que acusa o senador de desrespeitá-la e de maltratá-la.

Aliados do filho mais velho de Jair Bolsonaro afirmam que a ex-primeira-dama tem atuado para minar a pré-candidatura de Flávio, sinalizando que sabe de informações capazes de abalar a reputação do enteado. Segundo três magistrados do tribunal, eventuais decisões de Mendonça contra o senador podem reforçar essa narrativa.

Dois desses ministros avaliam que esse será o grande teste de Mendonça desde que tomou posse, em 2021 —indicado, aliás, pelo então presidente Bolsonaro. Para esses integrantes do tribunal, a proximidade do relator com a família coloca sob escrutínio público o rigor que ele prometeu adotar para os casos do Master.

A interlocutores o relator diz que não tem qualquer tipo de relação próxima com Flávio que possa colocar em xeque a sua imparcialidade, ao mesmo tempo em que admite a amizade com Michelle. Apesar disso, Mendonça rechaça a possibilidade de que os atritos familiares possam interferir, de alguma maneira, nas suas ordens judiciais.

A relação fraterna com Michelle começou no início do governo Bolsonaro, quando ele era advogado-geral da União. Evangélicos, ambos se aproximaram em razão da religião. A então primeira-dama teve um papel fundamental na indicação do ministro para o Supremo. Flávio, por exemplo, defendia o nome do ex-procurador-geral Augusto Aras para a vaga.

A instauração de um inquérito contra Flávio no STF ainda depende de um requerimento formal da PGR (Procuradoria-Geral da República). Na semana passada, Mendonça solicitou o parecer do órgão sobre os rumos do pedido de investigação feito pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), mas a manifestação não tem prazo definido para ser enviada.

Flávio pediu dinheiro a Vorcaro para financiar o filme que conta a trajetória do pai. O ex-banqueiro chegou a pagar R$ 61 milhões para a produção de “Dark Horse”, mas um áudio divulgado pelo site The Intercept Brasil mostra o senador cobrando mais recursos para finalizar o longa-metragem.

A suspeita é de que os valores tenham origem nas fraudes financeiras perpetradas pelo Master e que levaram à prisão preventiva de Vorcaro. Além disso, a PF suspeita que o dinheiro tenha sido usado para financiar as despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, como mostrou a Folha.

Flávio e Eduardo negam irregularidades. O senador disse que só tratou com Vorcaro para conseguir angariar recursos para realizar o filme e que omitiu essa informação de aliados devido a uma cláusula de confidencialidade no contrato. Já o ex-deputado afirmou que a suspeita da PF sobre ele é “tosca”.

Auxiliares de Mendonça já admitem que as investigações do Master e seus desdobramentos vão invadir o período da campanha eleitoral e inevitavelmente levar o ministro a proferir decisões com potencial de embaralhar o xadrez político. Deputados e senadores também atribuem ao magistrado um papel decisivo no pleito de outubro.

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