Um cliente dirige-se à nutricionista:
– Doutora, vi nas redes um novo estudo que mostra que a cafeína melhora a performance em 1 segundo na prova de 50 metros de natação. Estou pensando em comprar o suplemento…
– Pode ser uma boa ideia. Qual é o seu melhor tempo nesta prova? – questiona a profissional.
– Não tenho ideia, doutora, eu não sei nadar.
A anedota expõe um mal-entendido sobre suplementos esportivos: eles não são soluções universais, e seu eventual benefício depende do contexto.
Os melhores estudos da área – isto é, os mais aplicados ao mundo real – envolvem atletas. Identificar-se como um pode fazer alguma diferença para a autoestima, mas não para o desempenho. Eis o porquê.
Atletas, em geral, têm rotinas regradas, alimentação e treinos planejados, além de uma genética favorável ao esporte em que competem. Quanto mais sua performance se aproxima do pico, mais difícil se torna aprimorá-la. Quando a ciência finalmente encontra um suplemento esportivo eficaz –algo raro–, seus efeitos são, invariavelmente, de pequena magnitude: 1 a 3%.
Daí não se segue, de modo algum, que suplementos são desnecessários a atletas. Na final olímpica dos 50 metros livre dos Jogos de Paris (2024), apenas 1,84% separou o campeão do último colocado. Nesse contexto altamente competitivo, quem abriria mão de um suplemento potencialmente capaz de encurtar frações de segundo?
Acontece que meros mortais não nadam provas de 50 metros na casa dos 21 segundos. Também não treinam quatro horas diárias, alimentam-se regradamente ou vivem de competir. Para todos nós, seres terrenos, pequenos incrementos na quantidade ou na qualidade do treinamento ou da dieta, por exemplo, já costumam resultar num substancial aumento de desempenho físico, que vai muito além dos módicos 1–3% entregues pelos suplementos esportivos.
Mas a crença de que suplementos podem compensar treino, alimentação, recuperação, genética e talentos precários é sedutora –e dela vivem a indústria e seus influencers patrocinados.
Dizer que suplementos esportivos produzem efeitos pequenos não deveria chocar. É mera constatação estatística, captada no humor do fisiologista Ron Maughan (Universidade Loughborough): “Se um suplemento funciona, provavelmente é proibido. Se não é proibido, provavelmente não funciona”. Se não em outras searas, na nutrição esportiva, tamanho é documento.
Mas mesmo efeitos pequenos podem ter grande relevância prática, dependendo de quem se é, de como se vive e do que se busca. Sem a devida análise contextual, não há como responder à pergunta que a tantos inquieta: “este suplemento realmente vale a pena?”.
Vejamos um clássico. “Whey funciona para ganhar músculos?” Se sua alimentação já fornece proteínas em quantidade suficiente –como acontece na imensa maioria dos casos– o suplemento nada acrescenta. Sua dieta é excepcionalmente pobre nesse nutriente? A suplementação pode fazer sentido.
E agora este outro. “Devo tomar gel de carboidratos?” Numa meia maratona próxima de duas horas, manter a disponibilidade de carboidratos passa a importar, e o suplemento pode ser uma boa alternativa. Vai correr 30 minutos na esteira? Esqueça.
Como se vê, suplementos esportivos nem sempre são inúteis. Mas estão longe de ser indispensáveis para toda a população. Os eficazes são raros e seus efeitos, em geral, pequenos. Três fatos ainda pouco conhecidos pelos consumidores, insuficientemente enfatizados pelos cientistas e convenientemente desvirtuados pelo marketing.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Fonte: Link da fonte












