dona da IA Claude quer abrir capital avaliada em quase US$ 1 trilhão; vale a pena?

Na tentativa de se tornar uma empresa listada nas bolsas americanas, a Anthropic, companhia de inteligência artificial generativa e criadora da plataforma Claude, protocolou no começo de junho o S-1, um documento que precede um pedido formal de abertura de capital nos Estados Unidos.

Embora o S-1 não seja um compromisso de IPO (oferta pública inicial de ações) imediato, representa um sinal claro de que a empresa está pronta para acessar o mercado público quando a janela estiver favorável.

Segundo especialistas consultados pelo Bora Investir, o timing deste documento não é fruto do acaso, este segue uma lógica precisa. Para Bruno Corano, economista da Corano Capital, a Anthropic está se preparando para acessar o mercado público enquanto o apetite por inteligência artificial ainda está muito forte e os múltiplos do setor seguem elevados.

“Isso porque a empresa ainda consegue contar uma história de crescimento muito acelerado”, afirma Corano. Ele identifica dois motores: necessidade real de capital, dado que o negócio de IA exige investimentos gigantescos em chips, data centers, energia e talentos. Já o segundo motivo é que a janela de mercado atual pode não se repetir.

“Daqui a um ou dois anos, o ambiente pode ser diferente. Se houver desaceleração do crescimento, compressão de margens ou frustração com IA generativa, o mercado pode não aceitar o mesmo valuation”, avalia Corano.

Na visão de Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, a Anthropic busca se antecipar a uma possível saturação do mercado ou aperto regulatório nos próximos anos.

Segundo os especialistas, o momento atual pode ser até mais favorável para Anthropic do que para a OpenAI, que também sinalizou que pretende fazer IPO até setembro.

Crescimento da Anthropic é sustentável?

Como toda empresa que está em um boom de mercado, os números da Anthropic são surpreendentes. A companhia projetou que dos quase US$ 5 bilhões de receita no primeiro trimestre, o salto deva chegar a US$ 11 bilhões no segundo trimestre, alta de mais de 100%. Renato Nobile, CEO e CIO da Buena Vista Capital, aponta que este ritmo de crescimento supera o do Zoom no auge da pandemia e do Google e Facebook em seus respectivos IPOs.

Mas, os especialistas aconselham ter cuidado na hora de anualizar este crescimento. Para Corano, o crescimento é real, mas provavelmente não se sustentará nesse ritmo. Segundo o economista, há questões determinantes ainda sem resposta, tais como se essa receita é recorrente, a retenção de clientes e a dependência de parceiros como Amazon e Google.

Zogbi enxerga o ritmo de crescimento como algo mais passageiro, enquanto grandes companhias migram de projetos experimentais para implementação de agentes de IA integrados à produção.

Por outro lado, existe também um ponto de atenção: muitas destas projeções são feitas sobre a receita atual. “Não significa que esse faturamento já aconteceu. O mercado está pagando pela expectativa de que esse crescimento continue”, destaca Milene Dellatore, especialista em investimentos do Grupo Mide.

Lucro ainda é modesto

Mesmo com a receita projetada de US$ 11 bilhões para o segundo trimestre, o lucro esperado pelos agentes de mercado é de apenas US$ 559 milhões, muito modesto para uma empresa que já foi avaliada em US$ 965 bilhões na sua última rodada privada de investimentos.

Os especialistas consultados pelo Bora Investir acreditam que por conta do modelo de negócios, um lucro neste patamar ainda é coerente. Zogbi explica que os números em IA generativa diferem do software tradicional, porque este tipo de companhia enfrenta custos variáveis altos com processamento, energia e chips especializados. “Enquanto empresas de software tradicional trabalham com margens brutas acima de 80%, os custos na Anthropic podem reduzir a margem para 40%, exigindo reinvestimentos contínuos”, afirma.

Corano reforça que o mercado está pagando atualmente por uma rentabilidade que ainda precisa ser provada. Afinal, não se sabe qual será a margem estrutural do negócio após pagar chips, data centers, energia, provedores de cloud e pesquisadores.

Anthropic pode ser mais valiosa do que OpenAI, mas há riscos

Considerando apenas a avaliação do mercado, o valor atribuído para a Anthropic, de US$ 965 bilhões (que representa mais de 20 vezes sua receita anualizada) é superior ao da OpenAI, que também se prepara para abrir capital e tem um valor de US$ 852 bilhões.

Para Nobile, da Buena Vista Capital, este prêmio no valor de mercado da Anthropic tem fundamento, porque a empresa construiu sua base prioritariamente no mercado corporativo, enquanto a OpenAI foi para soluções e modelos de linguagem mais voltados para o varejo. “A Anthropic fez o caminho oposto, primeiro conquistou o mercado enterprise, onde já é uma grande referência”, destaca o gestor.

Já Zogbi faz a ressalva de que embora o prêmio da Anthropic tenha relação com a velocidade de monetização corporativa e a arquitetura de distribuição altamente escalável, não é necessariamente sustentável ou justificável no médio prazo.

Para a estrategista-chefe, a decisão de investir na Anthropic ou nos concorrentes, deve partir da preferência do investidor por segurança empresarial e flexibilidade de nuvem no caso da Anthropic ou pioneirismo de ecossistema de consumo e capilaridade da OpenAI. “É quase impossível saber de antemão quais vão ser as evoluções desse mercado. Por isso, diversificar tende a ser uma forma interessante de se expor ao setor, sem concentrar em uma grande aposta exclusiva”, aconselha.

Os especialistas consultados pela reportagem também fazem a ressalva de que nem sempre uma excelente empresa se torna automaticamente uma ótima ação, portanto, a análise do investidor precisa ser criteriosa.

Existem também os riscos por trás do investimento em Anthropic. Um deles é o fato da companhia ser uma Public Benefit Corporation (PBC), ou seja, considera o impacto social e não apenas o retorno financeiro.

Para Corano, tem o fator positivo que é aumentar a confiança dos governos e grandes clientes, mas existe um risco, que é gerar atrito com investidores que esperam retorno a qualquer custo.

Recentemente, a Anthropic também lidou com a suspensão temporária dos seus modelos avançados, o Fable 5 e o Mythos 5, fora dos EUA, diante de determinações do governo americano de segurança nacional. A decisão foi revertida no final do mês, mas representa uma clara exposição de empresas de IA a decisões regulatórias e geopolíticas. “É um setor que ainda terá muita interferência de governos nos próximos anos”, afirma Delattore, do Mide.

Um risco que pode não ser apenas tecnológico e financeiro, segundo os especialistas, mas alcançar esferas regulatórias, políticas e estratégicas.

Vale a pena investir no IPO da Anthropic?

Segundo os especialistas, participar da oferta pública inicial de ações (IPO) da Anthropic pode ser praticamente impossível para investidores pessoa física, dado que o acesso a este tipo de operação costuma ficar mais restrito a grandes investidores institucionais. Na visão deles, o caminho mais provável para o investidor de varejo será o mercado secundário.

E aqui surgem diversas possibilidades, tais como abrir conta em uma corretora no exterior e investir nas ações diretamente ou optar por uma exposição indireta por meio de BDRs (recibos de ações) que possam vir a ser listados na bolsa brasileira ou via ETFs (fundos que replicam índices que invistam na Anthropic).

Em relação aos ETFs, Corano diz que dependerá da Anthropic ser incluída em índices ou fundos ativos que compram a ação, mas a exposição à empresa ficaria diluída em uma carteira maior de ativos.

Zogbi reforça que não é necessário esperar a Anthropic abrir capital para ter exposição à empresa via ETFs. Atualmente, já existem alguns fundos que investem na companhia, antes mesmo do IPO.

Ela cita o KraneShares Artificial Intelligence & Technology ETF (AGIX), com alocação entre 2,7% e 2,9% em ações da empresa, além de carregar na carteira os grandes players públicos que financiam a Anthropic.

Tem também o ETF iShares AI Innovation & Tech Active, da BlackRock, que detém posições privadas tanto da Anthropic quanto da OpenAI, somando 1% do patrimônio do fundo.

E o T. Rowe Price Technology ETF, focado em tecnologia, com fatias de grandes unicórnios da IA antes dos IPO. E a família de ETFs da Alger, tais como Alger 35 ETF e o Alger AI Enablers & Adopters ETF, que possuem ações privadas da Anthropic.

Investir no dia da estreia ou esperar alguns meses?

Para o investidor de varejo, que provavelmente terá mais dificuldade de participar do IPO, os especialistas acreditam que a estratégia mais acertada seja aguardar para avaliar os fundamentos da empresa. A recomendação de Zogbi, da Nomad, é esperar entre 6 e 12 meses após o IPO deste tipo de companhia, antes de investir.

“É um período que permite a dissipação do entusiasmo inicial, o encerramento do lock-up (prazo de bloqueio para venda por insiders que, ao expirar, pode gerar pressão sobre o papel) e o acesso aos primeiros balanços auditados”, diz a estrategista.

Corano lembra ainda que a diferença entre uma boa empresa e um bom investimento está no preço que se paga ao entrar no ativo. Segundo o economista, empresas com tanto hype podem negociar muito acima do preço da oferta no primeiro dia de abertura de capital.

Para Corano, o melhor investimento ocorre depois da euforia inicial, quando há uma análise racional dos fundamentos.

Já Nobile destaca que para o investidor pessoa física este tipo de investimento deve ser com um olhar de longo prazo, no mínimo cinco anos, motivo pelo qual não faz sentido sair correndo para entrar no IPO.

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