Ler Resumo
Com Equilibrium II, Anitta mergulha no candomblé, unindo sua fé a uma rica tradição da música brasileira. O álbum, com colaborações de peso, explora ritmos e estéticas dos terreiros, mostrando como a cultura afro-brasileira moldou a identidade musical do país, de Sinhô a Clara Nunes e novos expoentes, reafirmando um elo histórico.
Este resumo foi útil?
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
“Você já sabe quem chegou, só pelo toque do tambor.” O verso, embalado por uma efusão de percussão e vozes em coro, abre o novo álbum de Anitta, Equilibrium II, segundo ato do projeto musical iniciado por ela em abril. O disco transborda nomes ilustres, como Alceu Valença, Mart’nália e Maria Bethânia, mas as personalidades evocadas na canção de abertura não são estrelas da MPB — ao menos não de carne e osso. “Obviamente, estou me referindo aos exus e às pombagiras, com todo esse batuque”, afirmou Anitta no vídeo de bastidores em que disseca a faixa Você Já Sabe, parceria com o trio Los Brasileros. Um dos integrantes do grupo, Marcelinho Ferraz, é produtor do álbum e conta que convocou o coral de vozes do terreiro que frequenta para a canção. “A gente quis trazer a emoção dos atabaques e da sonoridade real das cerimônias, misturado ao pop urbano”, disse.
O projeto calcifica a fase espiritualizada da famosa funkeira carioca, que vem celebrando na música sua relação íntima com o candomblé, religião da qual é adepta há treze anos. “Esperei a vida inteira para fazer um trabalho que representasse a minha alma transbordando de dentro pra fora”, celebrou ela.
Para além de ser um mergulho pessoal nas crenças da artista, o projeto integra uma ampla tradição histórica, até mesmo indissociável, que une as religiões de matriz africana com a música nacional. Laço refletido não só em letras de fé explícita, mas também em ritmos, batidas e até na estética. O passado da música nacional tem os dois pés no terreiro — e, ao que tudo indica, o futuro também.
Além de Anitta, novos expoentes, como as cantoras de jazz e MPB Xenia França e Luedji Luna e a funkeira paulistana MC Tha, representam uma nova fase dessa relação. “Notei que havia semelhanças entre as batidas do funk e os toques do terreiro. Desse mergulho saiu Rito de Passá”, conta a cantora sobre seu álbum de estreia, de 2019. A percepção foi certeira. “As estruturas rítmicas, os instrumentos, a mitologia e a cosmovisão das religiões de matriz africana moldaram boa parte da identidade musical do Brasil”, explica o sociólogo Emerson Sena, doutor em ciências da religião pela UFJF. “O atabaque e o agogô, que no rito são usados para invocar entidades, na música popular se tornaram expressões de felicidade e de apreciação estético-cultural.”

Criado dentro das casas das tias baianas no Rio de Janeiro, onde celebravam-se também os toques sagrados, o samba é o símbolo máximo desse mutualismo. Um dos primeiros sambistas a cair no gosto da indústria fonográfica, Sinhô (1888-1930) tinha canções permeadas pela religiosidade afro-brasileira, incluindo músicas como Vou Me Benzer e Macumba. Nas décadas de 1960 e 1970, com o candomblé e a umbanda em expansão, os orixás e as entidades passaram a marcar cada vez mais presença nas rádios. Alguns discos dessa toada são revolucionários. Caso de Os Afro-Sambas (1966), de Baden Powell e Vinicius de Moraes, e do emblemático Alvorecer (1974), de Clara Nunes. Criada no catolicismo, a cantora mineira se converteu à umbanda ao se mudar para o Rio de Janeiro, em 1965, e foi uma das principais responsáveis por popularizar os orixás e sua estética pelo país. Sendo a moda um importante vetor da mensagem a ser passada, os baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa transformaram o estilo em figurino durante a divulgação do álbum Doces Bárbaros (1976), com roupas brancas inspiradas nos afoxés e colares de contas.

Mesmo que o Brasil seja um país de forte tradição cristã, esses artistas quebraram barreiras — e provaram que há espaço para a pluralidade religiosa e o sincretismo. Segundo o Censo do IBGE, de 2022, o número de adeptos de religiões de matriz africana triplicou entre 2010 e 2022, chegando a 1,8 milhão de fiéis. Anitta, aliás, se aproveitou desse crescimento. Quando lançou Equilibrium, perdeu 100 000 seguidores em uma rede social — desde então, já recuperou o dobro. No Spotify, o segundo álbum alcançou 10 milhões de reproduções em um único dia. A herança do batuque é forte.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007
Fonte: Link da fonte















