Quem já tentou manter uma rolha debaixo d’água sabe que isso exige esforço. Ainda assim, cachalotes conseguem repousar suspensos abaixo da superfície do oceano, apesar de terem cabeças enormes, repletas de óleo, cera e ar, que aparentemente os fariam subir —uma façanha que, segundo cientistas, seria possível graças à liberação de bolhas.
Cachalotes são as únicas baleias conhecidas por repousar verticalmente na água, com a cabeça voltada para cima. Cientistas dizem acreditar que essa posição ajuda a protegê-los do movimento das ondas na superfície sem exigir a energia necessária para mergulhar mais fundo, mas ainda não estava claro como eles conseguiam permanecer submersos.
Agora, pesquisadores descobriram que as baleias liberam bolhas para regular sua flutuabilidade — a tendência de boiar ou afundar na água— enquanto repousam em uma postura vertical característica, logo abaixo da superfície do oceano.
Os pesquisadores se referem ao comportamento como “repouso”, e não “sono”, porque o sono costuma ser confirmado pela medição da atividade cerebral, algo que ainda não foi possível fazer em cachalotes, segundo Patrick Miller, pesquisador de mamíferos marinhos da Universidade de St Andrews, na Escócia, e autor sênior de um estudo publicado no mês passado no periódico Journal of Experimental Biology.
Os cientistas afirmam acreditar que os animais estejam dormindo, mas preferem o termo mais cauteloso porque isso ainda não foi demonstrado de forma conclusiva.
Para investigar como eles permanecem submersos durante o repouso, os pesquisadores fixaram pequenas etiquetas com ventosas em cachalotes no litoral da Noruega. Os dispositivos registraram sons e dados de movimento tridimensional, permitindo aos cientistas detectar a liberação de bolhas e modelar seus efeitos sobre a posição desses mamíferos marinhos na água.
Os pesquisadores constataram que as bolhas reduzem a flutuabilidade positiva da baleia —a tendência de subir na água.
Cachalotes têm uma tendência natural a boiar devido às grandes quantidades de óleo de espermacete, uma substância cerosa presente em suas cabeças. À medida que os animais em repouso sobem lentamente, os gases em seus pulmões se expandem por causa da menor pressão da água perto da superfície. A liberação de bolhas ajuda a neutralizar esse efeito, permitindo que as baleias permaneçam quase sem peso na água e abaixo da superfície.
Miller afirmou que as liberações de bolhas parecem ser deliberadas. Após mais de duas décadas acompanhando cachalotes com etiquetas de gravação sonora, “só ouvimos bolhas sendo liberadas nesse contexto comportamental específico de repouso, portanto a liberação involuntária de gases é algo que os cachalotes simplesmente não parecem fazer”.
Os cientistas também suspeitam que esse comportamento possa ajudar as baleias a transferir dos tecidos para os pulmões gases em excesso, como dióxido de carbono e nitrogênio, possivelmente desempenhando um papel em suas trocas gasosas metabólicas.
Cachalotes são as maiores baleias com dentes do mundo. Eles conseguem mergulhar a profundidades extremas para capturar presas como lulas-gigantes, orientando-se em águas escuras por meio da ecolocalização: produzem fortes estalos e escutam os ecos que retornam para mapear o ambiente ao redor.
“Cachalotes passam cerca de 80% do tempo realizando mergulhos muito profundos em busca de presas. Devido à intensa pressão durante esses mergulhos, seus corpos tendem a acumular gases indesejáveis, como nitrogênio e dióxido de carbono, cuja transferência do sangue para os pulmões pode ser lenta. Como repousam em profundidades muito rasas, essas são as condições ideais para eliminar os subprodutos gasosos indesejáveis resultantes da busca por alimento em águas profundas”, disse Miller.
Segundo Miller, essa hipótese poderá ser testada em pesquisas futuras.
O novo estudo deixa algumas perguntas sem resposta. Por exemplo, ainda é preciso demonstrar se as baleias liberam conscientemente as bolhas e quais sinais indicam a elas quando é necessário fazer um ajuste.
Os pesquisadores também esperam determinar se os cachalotes dormem com uma metade do cérebro de cada vez, como os golfinhos, ou com os dois hemisférios cerebrais adormecidos. Estudos futuros poderão usar sensores de ondas cerebrais ou observar os olhos das baleias durante o repouso para ajudar a responder a essa pergunta.
Por enquanto, as descobertas indicam que, assim como os seres humanos, os cachalotes talvez estejam dispostos a fazer o que for preciso para descansar bem.
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