Ainda recém-formada, a enfermeira Vanessa Scarcella, 44, foi agredida por um paciente irritado com a fila de espera em um hospital público do litoral norte paulista. “Ele me segurou pelo crachá, me jogou no chão e me deu um chute na barriga. Eu tinha 21, 22 anos”, conta.
Depois, num hospital privado da capital paulista, foi agredida por um colega de outra profissão. “Ele segurou o meu punho, apertou e me jogou no chão.” Dois meses após denunciar, foi desligada. “As câmeras desapareceram no exato momento da agressão. Até hoje ninguém investigou.”
Histórias como a de Vanessa deixaram de ser exceção para se tornar estatística oficial: sete em cada dez profissionais da enfermagem no estado de São Paulo relatam ter sofrido algum tipo de violência no ambiente de trabalho nos últimos 12 meses,
Segundo levantamento do Coren-SP (Conselho Regional de Enfermagem) com 4.402 enfermeiros, técnicos e auxiliares, 72,6% deles foram vítimas de agressões —41,3% mais de uma vez, 15,5% com frequência. A sondagem foi realizada entre 20 e 24 de julho, dimensionada de forma proporcional à distribuição da categoria no estado, que soma hoje cerca de 670 mil profissionais ativos.
Embora o número seja menor que outra pesquisa do conselho, de maio de 2025, quando 80,3% relataram agressões, o , se diz surpreso: imaginava redução maior após as campanhas de prevenção do último ano.
Na última terça (4), o assunto foi debatido em audiência pública na Câmara Municipal de São Paulo. Tramita na casa um projeto de lei da vereadora Ana Carolina Oliveira (Podemos) que obriga unidades de saúde do município —públicas, privadas e conveniadas ao SUS— a implementar políticas de prevenção, registro, acolhimento e resposta a violência e assédio contra a enfermagem.
Entre as medidas previstas estão controle de acesso, botões de pânico, atendimento médico e psicológico imediato com afastamento sem prejuízo salarial, emissão de CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) quando cabível, e capacitação das equipes em desescalada de conflitos.
No mês passado, o Senado aprovou projeto de lei que aumenta as penas para crimes como lesão corporal, ameaça, incitação ao crime, desacato, homicídio e outros delitos praticados contra profissionais da saúde ou da educação. Em alguns casos, a pena pode ser acrescida em até dois terços ou dobrada. Como o texto teve origem na Câmara dos Deputados e foi alterado no Senado, voltará à Câmara para nova análise.
Wagner Albino Batista, 45, enfermeiro há 25 anos, quase todos na saúde pública, conhece bem o risco de estar na linha de frente. Ele lembra o dia em que, em uma UPA lotada em Guarulhos, com mais de 200 pessoas na fila, um acompanhante se irritou com a classificação de risco de um paciente considerado de baixa complexidade.
“Ele me deu um soco no rosto e apontou a arma dizendo que estava armado”, conta. “Me desesperei, protegi minha colega que estava na sala, fui para o banheiro e chorei.” Mesmo notificada, a gestão não ofereceu acolhimento, segundo ele.
Batista também relata episódios de violência verbal, muitas vezes racista e gordofóbica (“seu preto, seu gordo”). “Isso acontecia quase todos os dias, quase em todos os plantões.”
A demora no atendimento é o principal estopim, segundo o levantamento: 63,9% dos agredidos apontam a longa espera como motivo, seguida pela estrutura precária (55,1%) e pela insatisfação com a assistência (45,8%). Os agressores são, na maioria, pacientes (68,1%), familiares (59,6%) e acompanhantes (50,7%).
Sérgio Cleto, presidente do Coren-SP, reconhece esse pano de fundo estrutural e diz que há déficit de profissionais em todas as áreas da saúde. “Uma pessoa com dor, aguardando muito tempo, acaba descarregando no profissional. Não que justifique, mas explica.”
Para ele, é essa lógica que explica por que 71,6% das agressões relatadas aconteceram em serviços públicos ou vinculados ao SUS, quase o dobro da rede privada (36,9%). “Não tenho dúvida de que é em virtude das estruturas dessas instituições.”
Mas nem toda violência contra a enfermagem acontece na linha de frente do serviço de saúde. Nathan dos Santos Camargo, 30, técnico de enfermagem e homem trans, conta que, mesmo com o nome retificado desde 2018, segue enfrentando discriminação em processos seletivos.
“Tive tudo para conseguir uma vaga recentemente. Quando levantei a pauta de que sou trans, a devolutiva foi: preferimos seguir com outro candidato.” Sem conseguir emprego em hospitais, atua em home care, onde também já sofreu agressão verbal de uma familiar de paciente.
No levantamento, a violência de gênero aparece em 8,3% dos casos, e a sexual em 5% — atrás de verbal (89,2%), psicológica (73,8%) e física (19,2%).
Enfermeira há 16 anos, quase sempre no SUS, Lilian Luz dos Santos Silva, 40, viveu anos de violência física e verbal na saúde mental antes de migrar para a atenção especializada, onde esperava sofrer menos. “Estamos com o SUS sucateado. Qualquer coisa que dê errado gera filas, e quem acaba sendo agredido são os profissionais de enfermagem, porque estão na linha de frente.”
Ela já ouviu que agressão física “faz parte da função”, e que quem não quiser ser agredido “tem que pedir as contas”. Chama atenção ainda para o assédio moral institucional contra profissionais já adoecidos pela própria violência sofrida: “Esse adoecimento é colocado como culpa do profissional.”
Apenas 27,7% dos profissionais afirmam que o local de trabalho oferece algum tipo de apoio diante da violência sofrida —50,3% dizem que não têm apoio nenhum.
O padrão que atravessa os relatos também aparece nos números: apenas 30,1% das vítimas formalizaram alguma denúncia. Entre quem preferiu o silêncio, prevalece a sensação de impunidade (59,5%), a falta de apoio institucional (54,5%) e o medo de perder o emprego (42,7%).
Para Cleto, a baixa adesão às denúncias tem duas explicações: “A sensação de impunidade é como o roubo de celular: todo mundo reclama, mas ninguém registra boletim de ocorrência. E como geralmente é um paciente ou usuário que comete a agressão, eles têm receio de retaliação da instituição empregadora.”
Segundo ele, não há pressão institucional organizada para impedir denúncias. “Vejo só medo mesmo, porque expõe a marca da instituição. É o receio do próprio profissional.”
Mesmo quem denuncia, o resultado costuma frustrar: 65,2% dizem que a denúncia não gerou nenhum desfecho, e apenas 5,7% relatam que o agressor foi punido.
Cuide-se
Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar
Um dos pontos menos visíveis do problema é o que ocorre com a equipe após a agressão. “O profissional agredido sai do cenário para ser acolhido, e junto com ele sai médico, outro enfermeiro. Se o problema já era uma equipe reduzida, fica mais reduzida, o que piora o atendimento”, diz Cleto.
Para dar vazão a esses relatos, o Coren-SP criou um canal de denúncia no aplicativo e no site do conselho, que aciona um grupo de conselheiros capacitados em apoio psicológico. “Há profissionais afastados temporariamente, e outros por tempo indeterminado, porque depois da agressão vem o dano psicológico.”
O Coren também tem participado de audiências públicas em municípios do estado, com propostas adaptáveis à realidade de cada cidade, e se reunido mensalmente com secretarias municipais de saúde, oferecendo apoio técnico e jurídico para protocolos de segurança e dimensionamento de equipes.
Fonte: Link da fonte















