Diabetes tipo 2 avança entre jovens, mais em mulheres – 10/08/2026 – Equilíbrio e Saúde

Antigamente, havia uma forma bastante clara de distinguir o diabetes tipo 1 do tipo 2. De forma simplificada, o diabetes tipo 1 era considerado uma doença autoimune de origem genética, que se manifestava principalmente em pessoas jovens. O diabetes tipo 2 era visto como uma doença que surgia em pessoas mais velhas, geralmente na faixa dos 50 ou 60 anos, associada a hábitos de vida pouco saudáveis.

Mas essa distinção baseada na idade já não funciona. Cada vez mais jovens estão sendo diagnosticados com diabetes tipo 2. Na Inglaterra, por exemplo, o maior aumento de novos diagnósticos ocorre entre mulheres jovens.

Uma equipe de pesquisadores do Imperial College London analisou dados da Auditoria Nacional de Diabetes da Inglaterra entre 2011 e 2024 e constatou que, enquanto a prevalência de diabetes tipo 2 está diminuindo entre adultos de 60 a 79 anos, está aumentando entre pessoas com menos de 40 anos.

Os resultados, publicados na revista The Lancet Regional Health Europe, mostraram que o aumento mais acentuado ocorreu entre mulheres brancas, asiáticas e negras na faixa dos 20 anos, e entre mulheres brancas na faixa dos 30 anos.

“Muito da discussão sobre o aumento do diabetes tipo 2 entre jovens tem se concentrado em grupos étnicos minoritários”, afirma Shivani Misra, autora principal do estudo e professora associada de diabetes no Imperial College London.

“Embora esses grupos sejam desproporcionalmente afetados pelo diabetes tipo 2 de início precoce, agora vemos que a incidência também está aumentando entre a população branca, o que mostra que esse desafio de saúde pública está se ampliando para toda a geração”, diz Misra.

Estilo de vida prejudica os jovens

Na Alemanha, a situação é semelhante, segundo Baptist Gallwitz, endocrinologista e porta-voz da Sociedade Alemã de Diabetes (DDG).

“O diabetes tipo 2 está aumentando em muitos países. Trata-se basicamente de uma pandemia”, afirma Gallwitz à DW. “Na Alemanha, também estamos observando um aumento entre crianças e adolescentes”.

De acordo com um relatório sobre diabetes publicado pela DDG em 2026, entre 2014 e 2023 os casos de diabetes tipo 2 cresceram, em média, 5,8% ao ano entre jovens de 11 a 17 anos.

Embora a predisposição genética possa desempenhar algum papel, o principal fator é o estilo de vida.

“Vivemos em um mundo em que nos movimentamos pouco e consumimos alimentos com açúcar e calorias em excesso”, diz Gallwitz. “Isso leva ao aumento da obesidade entre os jovens, o que, por sua vez, eleva significativamente o risco de diabetes tipo 2.”

No diabetes tipo 2, a secreção de insulina é reduzida ou o organismo responde menos à ação do hormônio, provocando aumento dos níveis de glicose no sangue. Já o diabetes tipo 1 é caracterizado pela destruição das células produtoras de insulina, causando deficiência grave desse hormônio.

Intervenções precoces

O crescimento dos casos preocupa especialmente porque a doença tende a ser mais agressiva quando surge em pessoas jovens.

“Qualquer diagnóstico de diabetes tipo 2 é grave, mas a doença pode ser mais agressiva em pessoas jovens, aumentando o risco de complicações devastadoras e reduzindo a expectativa de vida”, destaca Helen Kirrane, da organização Diabetes UK, do Reino Unido.

Por isso, especialistas defendem intervenções precoces. Gallwitz disse que a DDG recebeu positivamente a introdução de um imposto sobre refrigerantes açucarados na Alemanha, mas considera a medida insuficiente.

A entidade propõe um sistema escalonado de impostos, com frutas e verduras isentas e taxas mais elevadas para produtos ricos em gorduras saturadas e açúcar.

Também defende refeições mais saudáveis em creches e escolas e a inclusão de uma hora diária obrigatória de atividade física nos currículos escolares.

Ambiente mais seguro para as mulheres

Para Alexandra Kautzky-Willer, chefe da divisão de endocrinologia e metabolismo da Universidade Médica de Viena e especialista em medicina de gênero, não basta incentivar a prática de exercícios.

“Mais atividade física é importante, mas precisamos garantir condições para que as mulheres possam se movimentar com segurança”, afirma à DW.

Segundo ela, mulheres que temem assédio nas ruas, humilhações relacionadas ao peso ou até agressões físicas têm menos probabilidade de correr ao ar livre após o trabalho ou frequentar academias.

Número de casos pode ser muito maior

Apesar da situação já preocupante, o número real de mulheres com diabetes tipo 2 pode ser ainda maior do que indicam os dados atuais.

Em um artigo publicado em 2025 na revista médica alemã Deutsches Ärzteblatt, Kautzky-Willer e uma colega argumentaram que a doença é frequentemente subdiagnosticada em mulheres.

Segundo as pesquisadoras, além das mulheres receberem o diagnóstico normalmente mais tarde, elas também já apresentam taxas maiores de obesidade, hipertensão e ganho de peso, fatores que também aumentam o risco de infartos e AVCs.

E o método de diagnóstico pode contribuir para o problema. Uma das explicações é que o exame mais usado para detectar diabetes é a medição da glicemia em jejum.

Esse teste avalia o nível de açúcar no sangue após oito horas sem alimentação. No entanto, oferece apenas uma fotografia momentânea e pode deixar de identificar picos de glicose após as refeições.

“A glicemia em jejum costuma ser mais baixa nas mulheres do que nos homens”, explicou Kautzky-Willer. “Faria mais sentido realizar um teste de tolerância à glicose, mas ele exige mais trabalho”.

O teste de tolerância à glicose requer várias coletas de sangue ao longo de aproximadamente duas horas, período em que o paciente permanece no laboratório.

Kautzky-Willer também considera importante medir os níveis de HbA1c, indicador que mostra a média da glicose sanguínea nos últimos dois ou três meses. O exame mede a quantidade de hemoglobina glicada, formada quando a glicose se liga aos glóbulos vermelhos. Níveis elevados de HbA1c indicam excesso de açúcar no sangue e maior risco de complicações relacionadas ao diabetes.

No entanto, tanto o teste de tolerância à glicose quanto o HbA1c exigem mais recursos laboratoriais e têm custos mais elevados. Na Alemanha e na Áustria, por exemplo, esses exames não são cobertos pelos seguros de saúde de forma rotineira para rastreamento, ao contrário da glicemia em jejum.

No Brasil, ambos fazem parte das diretrizes nacionais para diagnóstico do diabetes e são amplamente utilizados na rede pública e privada, embora sua disponibilidade possa variar conforme o serviço de saúde e a região.

Os especialistas consultados pela DW concordam que identificar precocemente pessoas em estado de pré-diabetes é essencial para frear o avanço da doença entre os jovens.

A boa notícia é que, quando o problema é detectado na fase inicial, mudanças na alimentação e no estilo de vida podem interromper a progressão do diabetes em alguns casos, reduzindo a necessidade futura de medicamentos e diminuindo o risco de complicações graves.

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