Desde que assumiu a presidência da Argentina há três anos, Javier Milei promoveu um forte ajuste fiscal que reduziu em 27% os gastos públicos. É claro que o choque custou à população uma recessão equivalente a 1,3% do PIB em 2024, quando a motosserra de Milei funcionava a toda velocidade. Para os economistas, a experiência dos nossos vizinhos mostra que mesmo um corte desta magnitude nas despesas não representa, necessariamente, uma hecatombe – a economia argentina cresceu 4,4% no ano passado.
Comparado ao que Milei tem feito, as contas brasileiras precisam de um ajuste muito mais suave. “Ninguém está defendendo um ajuste tão brutal”, afirma o economista Fabio Giambiagi, pesquisador associado da Fundação Getulio Vargas. “O que estaria em discussão no Brasil é se aceitaríamos um crescimento dos gastos de 4% a 5% ao ano, que foi a média do governo Lula 3, ou se passaríamos a ter um crescimento mais moderado dessas despesas.”
Declarando-se um defensor “realista” da austeridade fiscal, Giambiagi observa que há limites para o corte de gastos em qualquer país democrático. “Chega um momento em que as pessoas dizem que não pode ser só isso”, diz o economista nascido na Argentina, filho de pais cientistas e que fez sua carreira no Brasil, onde se tornou um dos maiores especialistas em políticas públicas do país.
Giambiagi lançou, nesta segunda-feira 10, o livro Argentina para Brasileiros: Un País de Película pela editora Alta Cut, com o objetivo de analisar a trajetória econômica, política e social do país e de oferecer lições úteis ao Brasil. Veja os principais trechos da entrevista concedida a VEJA:
Como o governo brasileiro deve lidar com a Argentina neste momento? A relação entre os dois países tem que estar além da relação que existe, para o bem ou para o mal, entre os presidentes. Agora, não dá para deixar passar em branco as atitudes do presidente argentino. Enquanto Milei se manifestar como tem se manifestado, publicando praticamente todo dia uma mensagem ofensiva ao presidente brasileiro, uma aproximação fica completamente inibida. O presidente Lula também é passível de críticas, como quando viajou para a Argentina em julho do ano passado e posou para fotos com um cartaz pedindo liberdade para a ex-presidente Cristina Kirchner, condenada pela Justiça. Lula, no entanto, manteve certa discrição. Ele não foi à Argentina xingar o Milei, então, não há equivalência entre as atitudes. Dito isto, acho que devemos esperar as eleições.
Qual é o seu prognóstico, caso Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vença a eleição para presidente? Por definição, dada a relação que existe entre ele e Milei, as questões envolvendo os dois países serão encaminhadas de uma forma completamente diferente a partir de janeiro de 2026.
E se Lula for reeleito? Nesse caso, é preciso lembrar do seguinte: entre a eleição brasileira, em outubro, e a posse de Lula para o quarto mandato em janeiro, teremos um episódio crucial que são as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Quero crer que, caso Lula vença aqui e Trump seja derrotado lá, a Argentina recalibrará a sua política externa. A prudência recomenda que tanto a Argentina, quanto o Brasil aguardem. Se houver sinais de que Milei vai baixar a temperatura, será o caso de normalizar as relações diplomáticas.
Lula x Flávio: surpresas e reviravoltas da corrida eleitoral
No ano que vem, a Argentina realizará a eleição para presidente. O que esperar da relação com o Brasil, caso Milei seja reeleito? Assumindo que o presidente Milei seja candidato à reeleição, e mesmo entendendo que, pelo seu passado político, o PT e o presidente Lula tenham simpatias pela oposição peronista, acho que a postura institucional adequada que caberia ao Brasil seria afirmar que o país está disposto a sentar com o vencedor, qualquer que seja, e “resetar” a relação. Seria uma forma elegante de o Brasil dizer “vamos virar a página”. Não vamos olhar para os últimos anos e vamos construir uma agenda para o futuro.
O que explica os ataques de Milei a Lula e ao Brasil? Nos últimos meses, há um progressivo agravamento da virulência verbal de Milei. Provavelmente, isso está associado aos problemas que ele enfrenta e que tem dificuldade de resolver. Um assessor dele afirmou a um jornal argentino, recentemente, que “Milei está enfrentando Milei, e está perdendo”. No ano passado, ele obteve uma vitória contundente nas eleições de meio de mandato, reconhecida até pela oposição. Poderíamos imaginar que ele cavalgaria tranquilamente em cima disso, aprovaria projetos no Legislativo e tudo o mais. Mas, de lá para cá, quase nada andou. O governo não tem uma proposta de reforma tributária para apresentar – boa ou ruim. A reforma previdenciária não foi colocada. Milei perdeu três meses preciosos apoiando Manuel Adorni, seu chefe de gabinete com claríssimas suspeitas de corrupção. Foi um período em que o governo sangrou em praça pública. Adorni foi ejetado do governo, apenas quando a imagem do governo já estava muito prejudicada. Depois, se lançou numa luta inglória para aprovar uma proposta no Congresso que assegura a “inviolabilidade da propriedade privada” e acabou derrotado. É uma coisa que, no mundo real, não mexe com o ânimo de 99,99% dos argentinos.
Quais são as causas da paralisia do governo Milei? Em condições específicas de cansaço da população com o status quo, há determinadas figuras disruptivas que são muito boas para vencer eleições, mas que revelam grandes dificuldades para administrar o governo no dia a dia. Primeiro, por imperícia política. Likes em redes sociais podem servir para ganhar eleições, mas a política é feita de conversa, de convencimento. É um ofício. E, em segundo lugar, quando alguém se apresenta com a proposta de destruir o Estado, o que oferece para a população? No caso específico, além de reduzir a inflação a partir de um arrocho fiscal severo, o povo quer saúde, quer educação, quer segurança. Além disso, nós vimos um pouco disso aqui no governo de Jair Bolsonaro, esse estilo confrontativo gera desgaste ao longo do tempo. Chega um momento em que mesmo quem simpatizava com essas ideias no começo se cansa, principalmente quando os problemas do dia a dia persistem. Uma coisa é você ter um presidente que exagera um pouco com as palavras, mas o salário real aumenta, o emprego cresce, as pessoas comem mais. Mas e quando acontece o oposto? É claro que o sentimento de fadiga se acentua.
No seu livro, o senhor observa que a grande dúvida é se o forte ajuste fiscal de Milei basta para fazer a Argentina crescer. Por quê? Se olharmos para a relação de causa e efeito no sentido oposto, a pergunta é “o que acontece, se a economia continuar com um crescimento pífio”? A receita fiscal apresentará um desempenho ruim. Então, para preservar a estabilidade fiscal, a única forma será cortar mais gastos. Mas nenhum governo democrático do mundo sobrevive indefinidamente apenas cortando despesas. Isso funciona por um tempo, e olha que eu sou um defensor da austeridade fiscal, mas sou um realista. Chega um momento em que as pessoas dizem que não pode ser só isso. A transferência de recursos para as universidades públicas caiu muito. O repasse de verbas para as províncias também. Quase não há mais investimentos públicos. O funcionalismo público vive seu terceiro ano de arrocho salarial. É difícil cortar mais, e chega um momento em que a máquina pública já não consegue funcionar.
Quais são os bons exemplos de Milei para o Brasil na área econômica? Eu resgataria dois elementos positivos. Primeiro, o gasto público da Argentina caiu 27% em termos reais no governo Milei e o PIB teve uma queda muito menor de 1%. Ninguém está defendendo um ajuste tão brutal no Brasil. Por isso, é preciso parar de pensar que qualquer redução do ritmo de crescimento dos gastos públicos terá um enorme efeito recessivo aqui. Vamos ser realistas. O que estaria em discussão no Brasil é se aceitaríamos um crescimento dos gastos de 4% a 5% ao ano, que foi a média do governo Lula 3, ou se passaríamos a ter um crescimento mais moderado dessas despesas. Particularmente, eu defendo que, no ano que vem, por ser início de mandato e, por isso, propício ao ajuste fiscal, o crescimento das despesas deveria ser zero.
E qual é o segundo elemento positivo de Milei? É o apoio inequívoco e claro que o presidente tem dado às políticas do seu ministro da Economia, Luis Caputo. Agora, claramente, há uma deficiência enorme de jogo de cintura político do governo Milei, porque quando você se apresenta como antipolítico, pode ganhar votos na eleição, mas também significa que você não sabe fazer política. Em geral, numa democracia, você acabará perdendo cedo ou tarde, porque no Congresso se faz política 24 horas por dia. Veja o que aconteceu nos últimos dias. Devido a esse tipo de extremismo liderado pelo ministro da Desregulação e Transformação do Estado, Federico Sturzenegger, o governo perdeu batalhas parlamentares importantes. Hoje, Sturzenegger é detestado por quase todo o governo exatamente por essa falta de jogo de cintura.
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