Cérebro de cachorros capta várias emoções no rosto humano – 11/08/2026 – Ciência

Imagens de ressonância magnética trazem evidências em favor de algo que muitos tutores de cães já pressentiam: os bichos têm uma compreensão relativamente sofisticada das emoções humanas. Observando fotos de alguns Homo sapiens, eles são capazes de distinguir expressões faciais de alegria, de medo e de raiva, por exemplo.

As capacidades dos animais nesse sentido, ainda que nem de longe tão apuradas quanto as nossas, são mais um indício de como a convivência de milhares de anos entre pessoas e cachorros aproximou a cognição e as emoções das duas espécies.

“Quando comparamos os seres humanos com os demais primatas, estamos observando habilidades que podem ter vindo de um ancestral comum”, declarou a principal autora do novo estudo sobre o tema, Laura Cuaya, da Universidade de Viena. “Com os cães, a história é totalmente diferente. Eles seguiram uma trajetória evolutiva muito diferente, mas, por meio da domesticação, desenvolveram as habilidades sociais necessárias para nos entender e cooperar conosco”, explicou ela em comunicado oficial.

Cuaya e seus colegas publicaram suas conclusões no periódico especializado iScience nesta segunda-feira (10). A equipe, que inclui pesquisadores da Universidade Autônoma do México e de instituições de pesquisa na Hungria, trabalhou com um total de 20 cães (a maioria dos quais da raça border collie, com alguns labradores, golden retrievers e vira-latas no meio) e seus tutores.

Os animais foram treinados a ficar na posição de “esfinge” –corpo esticado, patas dianteiras estendidas– dentro dos aparelhos de fMRI (imageamento de ressonância magnética funcional), os mesmos usados para diagnósticos de seres humanos.

Nessa posição, os bichos viam uma sequência de fotos de rostos humanos. Os pesquisadores tiveram o cuidado de usar imagens de pessoas que os animais não conheciam, porque já havia evidências de que os cachorros são particularmente sensíveis às expressões faciais de seus principais cuidadores e das outras pessoas com quem convivem.

Além disso, claro, não é a primeira vez que esse tipo de análise funcional do cérebro canino é feita. Estudos anteriores já tinham apontado que os cães são capazes de reconhecer as expressões da alegria no rosto humano, bem como diferenciá-las de expressões faciais ligadas a emoções negativas.

No entanto, até agora, as evidências não iam muito além disso, sugerindo que talvez os cachorros tivessem apenas a habilidade de reconhecer o que os especialistas chamam de “valência” geral das emoções humanas a partir da face –ou seja, se um rosto está exibindo indicações emocionais positivas ou negativas.

O ponto de partida de Cuaya e seus colegas foi replicar esses trabalhos anteriores, testando se havia diferenças claras no processamento neural de imagens de rostos com expressão neutral ou alegres no cérebro de seus voluntários caninos.

Conforme o esperado, foi isso o que aconteceu, com uma ativação específica de áreas correspondentes ao córtex temporal do hemisfério cerebral direito dos cães (assim como nós e muitos outros animais, a espécie tem o cérebro dividido em duas grandes metades ou hemisférios). Eles também conseguiram corroborar a diferenciação principal entre a captação dos sinais faciais da alegria e os de emoções negativas.

Uma análise mais ampla das redes de ativação neural revelou, por fim, que havia uma diferença na maneira como o cérebro dos bichos processava certos pares de emoções negativas representados pelas fotos dos rostos humanos.

Ao que parece, o cérebro dos cães “sabe” a diferença entre expressões de raiva e medo e de tristeza e medo, mas não entre as de raiva e as de tristeza. O estudo expressa as capacidades dessa maneira porque a análise fez comparações binárias, mostrando primeiro os rostos com uma emoção e depois os que exibiam a outra para apreciação dos cães, em pares.

A equipe da pesquisa aventa uma série de hipóteses para tentar explicar por que as capacidades caninas de captar as emoções humanas parecem funcionar desse jeito, embora ainda existam muitas incertezas nessa área.

Quanto à aparente facilidade dos bichos para captar expressões de alegria, uma possibilidade é que isso esteja ligado aos processos de formação de elos do animal com os tutores e com o chamado sistema de recompensa, o qual, como o nome indica, é o circuito neural e comportamental que ensina ao cão quando ele está “fazendo a coisa certa” em seu ambiente –no caso, agradando ao tutor e às demais pessoas à sua volta. Conforme explicou Cuaya, isso tem diretamente a ver com o processo de domesticação, no qual surgiu uma dependência de mão dupla entre cães e seres humanos.

No caso das emoções negativas, os dados podem sugerir que os cachorros conseguem captar melhor o que está acontecendo com as que provocam intensidade emocional mais forte (medo e raiva), e não tanto as que envolvem elementos mais sutis, como a tristeza.

Por outro lado, é preciso levar em conta que, em contextos reais, essa “leitura” das emoções humanas feita por eles não depende apenas das expressões faciais, mas também da linguagem corporal e do tom de voz das pessoas, entre outros fatores. Usando esses elementos, é possível que eles captem nuances ainda mais amplas.

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