Empresariado fala de recessão que economistas não veem – 11/08/2026 – Vinicius Torres Freire

Gente de peso da finança começa a dizer em público que 2027 pode ser de recessão. No final de julho, foi Arminio Fraga, economista, ex-presidente do Banco Central, da Gávea. Nesta semana, foi Alfredo Setúbal, CEO da Itaúsa, “holding” que tem parte do Itaú Unibanco e de um monte de empresas. Disse que o cenário é de “economia bastante desacelerada e podemos ter uma pequena recessão”. Fraga parece mais pessimista do que Setúbal.

A mediana das estimativas da centena de economistas que manda previsões para o Banco Central é de crescimento do PIB de 1,5% no ano que vem. Os mais pessimistas acreditam por ora que o PIB cresça ao menos 0,7%, que é um nada perigoso, mas dificilmente será chamado de recessão.

De costume, essas previsões estão erradas, para o bem ou para o mal, quando não muito erradas por motivos ruins ou de explicação difícil (como foi o caso da economia brasileira de 2023 a 2025). O erro é esperado. Além das insuficiências das estatísticas, da teoria e da máquina matemática de fazer tais contas, simplesmente há choques e o Aleatório da Silva.

O que interessa aqui é que Fraga e Setúbal não estão fazendo exatamente estatística. Dirigem firmas relevantes ou enormes. Setúbal recomenda moderação e cautela às empresas de que tem parte. Fraga recomenda a empresas e famílias que fiquem com dinheiro em caixa e fujam de dívidas. Dizem que um tranco virá.

Para gente do governo, falar de recessão em 2027 é exagero eleitoral. Pode ser um erro de futurologia. Este jornalista não colocaria dinheiro na hipótese de que Fraga e Setúbal estejam, no caso, fazendo campanha para mudar votos. Se por mais não fosse, têm negócios e reputação para cuidar.

Muito relevante é que eles têm meios de enxergar miolos e miúdos da economia que não estão à vista do público. De resto, tratam de problemas que estão visíveis para quem tenha olhos de ver: excesso de endividamento público e privado, inadimplência ruim, portanto consumo limitado mesmo com estímulos do governo.

Por feia necessidade (endividamento) ou precaução, a ideia de retranca se espalha entre empresário grande, embora não apareça em certas medidas de crédito (bancário ou não) —muita empresa apenas rola o papagaio. Por falar nisso, quem olha a taxa de investimento (do PIB) estagnada nas mínimas do século sabe que a retranca não é de hoje, sob Lula 3. A questão aqui é de outra defesa, a de emergência.

A economia desacelera, não importa a estimativa de perda de ritmo. Com esse arrocho de juros, era inevitável. Digerir dívidas vai ser mais difícil; haverá quem morra de indigestão. A não ser que o próximo governo seja completamente alheado da realidade (e pode bem ser), algum esparadrapo fiscal haverá (um tanto menos de gasto público, etc.).

Um esparadrapo não vai dar jeito na encrenca, e, no mínimo, no curto prazo, vai fazer com que a economia esfrie um tanto mais. Emprego, renda e vendas menores dificultam ainda mais a digestão das dívidas, entre outros problemas. Um esparadrapo muito vagabundo deve piorar a situação.

De 2022 a 2025, a economia cresceu bem acima do previsto, em parte porque Lula 3 colocou lenha na fogueira além da conta, o que aparece nas taxas de juros. Vai ser difícil haver surpresa positiva desta vez, pois temos um problema ruim de crédito. Se candidatos derem sinais de que virá conserto, talvez atenuem a transição ou crise aguda. Sim, é otimismo.


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