Novos documentos societários obtidos pelo Radar Econômico colocam o atual governador do Espírito Santo, Ricardo Ferraço, diretamente na história empresarial da Rhino Securitizadora, anos antes de a companhia se tornar uma das principais estruturas de financiamento da Apex Partners. Em ata de agosto de 2021, que aprovou uma emissão de R$ 30 milhões em debêntures da Rhino, Ferraço aparece nominalmente como diretor comercial da securitizadora. No mesmo documento, a Trekking Gestão e Estratégia Empresarial, representada por ele como sócio-administrador, figura entre as acionistas da companhia. Ricardo é hoje governador do Espírito Santo, cargo que assumiu em abril deste ano.
A ligação empresarial passou do pai para o filho em 17 de agosto de 2022. Naquele dia, a Trekking transferiu suas 2.500 ações da Rhino para a CMRF Investimentos e Participações, representada por Pedro Chieppe Moura de Rezende Ferraço. A fatia correspondia a 25% das 10 mil ações existentes. Na mesma assembleia, a Rhino elevou seu capital para 400 mil ações e a CMRF subscreveu 100 mil delas, mantendo os mesmos 25%. A operação ocorreu um dia depois do início oficial da campanha eleitoral de 2022, ano em que Ricardo retornou à política e foi eleito vice-governador.
Pedro, porém, não era apenas o filho que passou a representar uma acionista da Rhino. Ele integrava a própria Apex Partners. Em fevereiro deste ano, material publicado com informações da companhia o apresentava como cofundador e vice-presidente da Apex e head da APX Investimentos. Além da função executiva, Pedro tornou-se acionista direto da Apex Partners Gestão de Ativos: em dezembro de 2025, converteu R$ 500 mil em debêntures da companhia em 8.921 ações ordinárias e uma preferencial classe B.
Essa sobreposição ganhou importância com a crise da Apex. Em janeiro de 2026, a Rhino aprovou uma nova emissão de até R$ 60 milhões, dividida em séries batizadas de BRMAPEX. A escritura estabeleceu que a carteira de lastro seria formada exclusivamente por direitos creditórios nos quais a BRM Apex Investimentos figurasse como cedente e/ou devedora. Dois dias depois da assembleia que autorizou a operação, Pedro foi eleito diretor de compliance da Rhino, responsável pelas regras, políticas, procedimentos e controles internos da securitizadora.
O tamanho da relação financeira só ficou claro depois que as inconsistências da Apex vieram à tona. No levantamento preliminar apresentado à Justiça, R$ 452,1 milhões dos R$ 985,6 milhões do passivo informado pela Apex estavam relacionados a debêntures emitidas por intermédio da Rhino. Os valores ainda estão sujeitos à validação. Os novos documentos mostram, portanto, que a conexão da família Ferraço com a securitizadora é anterior à entrada formal de Pedro no compliance: Ricardo foi diretor da Rhino e uma empresa representada por ele detinha 25% da companhia; a participação passou ao filho, que posteriormente ocupou posições simultâneas na estrutura da Rhino e da Apex.
Os registros não demonstram que Ricardo Ferraço tenha participado das operações realizadas entre Rhino e Apex depois de sua saída, nem indicam conhecimento ou envolvimento do governador nas inconsistências financeiras identificadas posteriormente na Apex. Também não apontam irregularidade na transferência das ações para Pedro. O que os documentos acrescentam é uma ligação empresarial direta do atual governador com a securitizadora que, anos depois, se tornaria uma das principais financiadoras da Apex.
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